Por monica.lima

As previsões não são nada boas para o partido democrata. Na terça-feira da semana que vem, os americanos vão renovar um terço das cadeiras do senado. São trinta e seis disputas que provavelmente inverterão o controle da casa. Hoje os democratas têm 55 representantes no senado enquanto os republicanos têm 49 (existe um senador independente). Segundo as pesquisas, a eleição vai inverter a contagem de votos deixando 48 cadeiras com os democratas contra 52 para os republicanos.

Foi por isso que recebi um e-mail assinado pela atriz Susan Sarandon. Conhecida ativista das causas liberais, eleitora do partido democrata, ela emprestou o nome a uma campanha voltada para as mulheres. Ela pedia a todas as cidadãs interessadas em manter conquistas importantes para as mulheres que participassem de uma maratona de telefonemas no último domingo. Cada uma se compromete a telefonar para eleitoras dos estados onde a disputa é mais acirrada e pedir não apenas o voto nos candidatos democratas mas, acima de tudo, que se disponham a sair de casa para votar no dia 4 de novembro. Em geral, o índice de participação nas eleições para deputado e senador é baixíssima. O grupo de ativistas do qual Susan Sarandon faz parte teme que a luta por salários iguais para funções iguais, por exemplo sofra um baque com uma maioria republicana no Senado.

No Brasil, nós costumamos não tratar republicanos e democratas como animais políticos tão diferentes assim. Claro, na política externa, é sabido que os republicanos são mais rápidos no gatilho... costumam optar por soluções bélicas para conflitos diplomáticos com mais avidez do que seus colegas democratas. George W. Bush e Barack Obama são dois bons representantes dessa diferença. A desfaçatez com que Bush invadiu o Iraque usando pretextos mentirosos entrou para os livros de história. Obama demorou, mas de certa forma, acabou adotando a mesma fórmula, com roupagem distinta.

Mas é na política doméstica que as diferenças costumam ser mais visíveis. Por isso os liberais estão apavorados. Uma vez maioria no Senado, os republicanos vão comandar o Congresso como um todo, porque já tem a maior parte dos votos na Câmara. E prometem desfazer o pouco que se pode apontar como progresso nos dois mandatos de Barack Obama. Eles prometem uma demolição completa dos principais projetos aprovados, com muito custo, nos últimos seis anos.

A jornalista Lauren Windsor, produtora do programa independente “The Undercurrent”, conseguiu uma cópia do áudio da palestra do senador Mitch McConnell a um grupo reunido pelos famosos irmãos Koch, empresários ultra conservadores que são os maiores financiadores de campanhas e causas da extrema direita no país. Se os republicanos ganharem as disputas como indicam as pesquisas, McConnell será o próximo líder da maioria no Senado. E na conversa, ele prometeu mudanças.

Para aprovar qualquer coisa no Senado são necessários 60 votos... mas para o orçamento não. Então, na Câmara ou no Senado, nós mandamos no orçamento. O que isso significa? Não se pode gastar dinheiro algum para isso ou para aquilo. Nós vamos atrás deles no programa de saúde, no de serviços financeiros, na Agência de Proteção Ambiental, em tudo... -, garantiu McConnell.

Isso significa que o avanço modesto do programa de saúde que Obama conseguiu aprovar, apelidado de Obamacare, está ameaçado. O que se cobrou de empresas como a BP, por conta do vazamento de óleo no Golfo do México, é coisa do passado. Como na era Bush, as empresas voltarão a ditar as regras no que diz respeito ao meio ambiente. Ou seja, vão poluir o quanto acharem necessário. Quando menciona serviços financeiros, McConnell está se referindo, claramente, à lei Frank-Dodd que tentou restabelecer alguma ordem no caótico e desregulado mercado financeiro. Segundo o senador, a Frank-Dodd é o Obamacare dos bancos. Precisa ser eliminada. Ele também prometeu acabar com o orçamento do Serviço de Proteção Financeira ao Consumidor, criado para impedir abusos dos bancos e cartões de crédito, como aconteceu na crise de 2008, quando milhares de americanos foram induzidos a comprar casas com empréstimos que não poderiam pagar, com condições que nem compreendiam.

Apesar de renovar apenas um terço do Senado, essa é uma eleição decisiva. Não foi por menos que a disputa na Carolina do Norte bateu todos os recordes de gastos da história, para este tipo de eleição. Entre o republicano Thom Tillis e a democrata Kay Hagan, serão gastos US$ 90 milhões. Deste total, US$ 55 milhões entraram na Carolina do Norte vindo de outros estados. Entre os dias 14 e 20 de outubro, quem ficou com a televisão ligada o tempo todo no estado viu mais de um comercial bastante agressivo a cada minuto.

Esta é uma eleição na qual os americanos, em geral, não prestam a menor atenção. A oito dias do pleito, ainda existem 11 disputas sem resultado definido. Mas este voto é mais decisivo, para o futuro do país, do que a eleição presidencial. Como se viu durante os até aqui seis anos de governo Obama, o presidente pode fazer muito pouco se tiver que enfrentar um Congresso determinado a travar cada iniciativa, impedir cada passo e desfazer até mesmo as medidas já adotadas que a maioria da população apoia.

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