Com retomada das relações com Cuba, Obama marca ponto dentro e fora dos EUA

Pesquisas de opinião mostram que mais de 60% dos americanos são a favor da mudança. Querem a reaproximação com Cuba

Por O Dia

Foi uma cartada de mestre e uma manobra rara nesses já seis anos de governo Obama. Com uma única iniciativa, o presidente dos Estados Unidos conseguiu marcar pontos dentro e fora do país. Faz tempo que a América Latina pressiona e cobra uma mudança na política americana com relação a Cuba. Barack Obama escolheu o melhor momento possível, no cenário político doméstico, para fazer o que Bill Clinton tanto quis e não foi capaz, ou julgou impossível. Isolou uma ala do partido republicano dividindo o adversário dois anos antes da próxima eleição presidencial do país.

O anúncio pegou todo mundo de surpresa, com exceção do Papa Francisco e do governo canadense, que incentivaram e promoveram as negociações. Conhecido pelo domínio da oratório, Obama fez um discurso forte e claro na condenação de meio século de uma política que não deu resultados. Ela fracassou, disse o presidente. E foi mais longe. Disse que a tentativa de isolar Cuba foi um tiro que saiu pela culatra porque no fim das contas isolou os Estados Unidos. “Ninguém aderiu”, admitiu.

“Essa mudança histórica é resultado direto do isolamento crescente dos Estados Unidos na região”, avaliou, em Washington, o codiretor do Centro de Pesquisa Econômica e Política, Mark Weisbrot. “As relações entre a América Latina e o governo americano, na administração Obama, são provavelmente as piores em décadas. Isso vai ajudar, mas novas sanções contra a Venezuela também levantarão dúvidas no hemisfério se isso é uma mudança de direção ou simplesmente um gesto de abandonar uma política que fracassou por mais de 50 anos”.

Não acredito que seja apenas resultado da pressão dos vizinhos. Mas ela com certeza pesou. A ponto de uma analista política americana dizer, na televisão, que este ano os governos das américas deram um ultimatum a Obama. Os Estados Unidos organizam, há vinte anos, o Encontro das Américas. O próximo está marcado para abril, na cidade do Panamá. E, segundo a analista, vários governos da região disseram categoricamente a Obama que este ano, “no Cuba, no Summit”. Ou seja, sem a presença de Cuba, nada de encontro. Um fiasco ao qual Obama decididamente não queria se submeter.

Com o Brasil, as relações azedaram com as denúncias de espionagem dando conta de que a Agência de Segurança Nacional escutava, até mesmo, as conversas da presidente Dilma Rousseff. As relações não voltaram mais ao que eram antes. No resto do mundo, os Estados Unidos também andam precisando mudar de imagem. O país perdeu o papel de liderança que tinha e se desmoralizou com o exercício desastroso da força e a ausência de regras econômicas adequadas. Os exemplos todo mundo já conhece.

A invasão do Iraque justificada, na época, com a mentira de que Saddan Hussein fabricava armas de destruição em massa. A intervenção militar no Afeganistão que mergulhou o país no caos. A crise econômica de 2008 que abalou o mundo e nasceu na falta de regulamentação do mercado financeiro. As denúncias de espionagem ampla feitas pelo ex-agente na NSA Edward Snowden. Como se não bastasse, o Senado divulgou agora o relatório sobre o uso da tortura com os presos suspeitos de terrorismo que, por incrível que pareça, discute se o método foi eficaz. Diante desta sequência de eventos, o reatamento diplomático com Cuba, aplaudido por unanimidade no mundo, foi um refresco!

Mas Obama acertou em cheio, também, na política interna. As pesquisas de opinião mostram que mais de 60% dos americanos são a favor de uma mudança. Querem a reaproximação com Cuba. Os empresários dos setores de hotelaria, turismo e agricultura estão de olho nas oportunidades que ainda existem e lamentam as que foram perdidas já que o mundo inteiro faz negócios com Cuba, menos os Estados Unidos. Basta a declaração do presidente da Câmara de Comércio, Thomas Donohue, para entender de que lado está o empresariado: a iniciativa do presidente Obama “vai criar muitas oportunidades para que a livre iniciativa floresça”, disse Donohue. E é bom lembrar que a entidade investiu US$ 35 milhões nas campanhas eleitorais de deputados e senadores este ano.

Porém, o que mais se ouviu, de imediato, foram as críticas, amplificadas pelos meios de comunicação. Marcio Rubio, senador pela Flórida, filho de cubanos, foi o primeiro a ocupar os microfones e ameaçar impedir o fim do embargo (ele só termina se o Congresso votar a favor) e barrar qualquer tentativa do executivo de nomear um embaixador para Havana. O nome tem que passar pela aprovação do Congresso.

O assunto virá à tona nos debates dos candidatos a candidato a presidente. Rubio é um deles e vai fazer deste um tema central da campanha, para prejuízo dos demais republicanos. Especialmente para um dos mais cotados: Jebb Bush, irmão e filho de ex-presidentes. Jebb foi governador da Flórida. Tem fortes ligações com o grupo anticastrista do estado e será obrigado a se posicionar sobre o assunto durante a campanha. Se mantiver a coerência política e os laços com o grupo que sempre o apoiou, ele corre o risco de perder votos em muitos outros cantos do país. Obama nacionalizou a discussão das relações com Cuba. Roubou da Flórida o monopólio sobre o tema. E deixou o caminho aberto para os candidatos democratas se diferenciarem, positivamente, dos adversários republicanos em todo o país. É uma aposta. Os democratas podem perder votos na Flórida, estado essencial já que tem 29 votos no colégio eleitoral. Só perde para Califórnia e Texas e empata com Nova York no número de votos que elegem o presidente da república. Mas os democratas também sabem que os exilados cubanos da Flórida já não são majoritários. A primeira geração que deixou a ilha e se mudou para os Estados Unidos teve filhos e já tem netos que não têm o mesmo compromisso que os avós com a mudança de governo na ilha. Estão mais interessados na vida que levam nos Estados Unidos e na possibilidade de visitar Havana a passeio. O tempo passou. Os anticastristas perderam a batalha. Obama soube aproveitar o momento histórico.

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