Corrupção à americana

A acusação contra o presidente da Assembleia Legislativa de Nova York, Sheldon Silver, é a ponta do que promete ser um novelo bem mais extenso e cheio de nós

Por O Dia

A notícia é bem mais bombástica do que aparenta ser. Não é todo dia que um dos políticos mais poderosos do estado de Nova York é preso por corrupção. Mas a acusação contra o presidente da assembleia legislativa, Sheldon Silver, é a ponta do que promete ser um novelo bem mais extenso e cheio de nós. Na manhã da última quinta-feira, agentes federais foram buscar o político em casa, no Lower East Side, uma área ainda considerada despretensiosa e relativamente barata de Nova York. É ali, em um prédio simples, que Sheldon Silver vive com a esposa, uma professora aposentada que atendia crianças especiais.

Homem de hábitos modestos, Sheldon nunca aparentou ter a quantia que a promotoria pública o acusa de ter acumulado ao longo das duas últimas décadas, enquanto foi presidente da assembleia. Mas ao que tudo indica, ele se preparou para viver, na aposentadoria, com todos os luxos dos quais se privou enquanto estava no poder. Sheldon viajava a trabalho, com hospedagem paga pelo estado, mas procurava os motéis mais fajutos para pernoitar e guardar a diferença da diária. Essas são migalhas da acumulação indevida. As autoridades calculam que ele amealhou mais de US$ 4 milhões de dólares em propinas de construtoras que eram obrigadas a dar algo a um escritório de advocacia, mancomunado com Sheldon, para fazer negócios com o estado.

A história da corrupção não muda muito de um país para outro. Políticos, construtoras, projetos governamentais e por aí vai a coisa. Mas vamos aos detalhes tipicamente nova-iorquinos da história. Sheldon faz parte de um seletíssimo grupo conhecido nos bastidores como “os três homens da sala”. Ele, presidente da assembleia, o presidente do senado estadual e o governador do estado, Andrew Cuomo, ganharam o apelido porque, aparentemente, todas as decisões políticas do estado são tomadas por eles, em acordo, e aprovadas no legislativo sem resistência. Um legislativo do qual se suspeita de envolvimento amplo em condutas no mínimo repreensivas.

Andrew Cuomo começou o segundo mandato como governador em janeiro. Ele é filho de Mario Cuomo, ex-governador de Nova York de 1983 a 1994 que faleceu no dia primeiro de janeiro último, quando Andrew fazia o discurso de posse do segundo mandato. Filho de imigrantes italianos, Cuomo pai passou anos rompido com o ex-presidente Bill Clinton, que o acusou de atuar como um mafioso. Mas foi Clinton que cedeu primeiro e lançou Cuomo filho na política, dando a ele o cargo de Secretário de Obras e Urbanismo.

Em abril de 2013, Andrew Cuomo decidiu promover uma limpa na política estadual. Ou ao menos deu essa impressão. Montou uma Comissão Especial para investigar suspeitas de corrupção em todos os poderes do estado: executivo, legislativo e judiciário. Os vinte e cinco membros da comissão tinham um ano e meio para investigar e apresentar conclusões. Mas antes que o trabalho completasse um ano, Cuomo dissolveu o grupo e encerrou as investigações.

O que motivou o governador a montar a comissão foi o trabalho do promotor público Preet Bharara. Ele indiciou políticos do estado que o FBI pegou com a boca na botija recebendo dinheiro vivo e cheques para promover determinadas candidaturas e financiar campanhas, burlando a lei. Tudo gravado e documentado. A gota d’água foi a entrega de quinze mil dólares em cash diante do restaurante Sparks, a mesma Steakhouse diante da qual a máfia encenou seu último grande assassinato cinematográfico em Nova York: a emboscada encomendada por John Gotti para eliminar o “capo” Paul Castellano, em 1985. Quem explica essa atração dos bandidos pelos restaurantes finos, especializados em carnes?

Agora, o governador que dissolveu a comissão não conseguiu frear a curiosidade do promotor Bharara. Ele encontrou matéria fértil no relatório preliminar da comissão e levou o trabalho adiante. A primeira vítima de Bharara, Sheldon Silver, foi presa na semana passada. Mas o promotor promete seguir adiante, doa a quem doer. Sheldon Silver pode ser apenas o primeiro de uma série. Quando a comissão chegou perto de uma empresa que tinha Andrew Cuomo como cliente, assessores do governador intervieram. Pediram à comissão para deixar a empresa de lado. Quem sabe o que o promotor abelhudo vai encontrar por ali.

Zephyr Teachout, professora de direito constitucional da Universidade Fordham, aposta que os políticos nova-iorquinos podem exercer uma atração irresistível para um promotor como Bharara. No fim do ano passado ela publicou um livro chamado “Corrupção na América” no qual traça o longo histórico dos desmandos cada vez mais gritantes que o envolvimento do dinheiro na política acaba produzindo. Ela começa no início da república e dedica boa parte à última decisão da Suprema Corte, que reconheceu o “direito” das corporações de se fazer ouvir no cenário político. Ou seja, abriu as portas para uma enxurrada ainda maior de dinheiro privado nas campanhas eleitorais.

A professora Zephyr Teachout, uma desconhecida no meio político, desafiou Andrew Cuomo nas primárias do partido democrata, no ano passado. Ela perdeu e sabia que não tinha chances contra um dos “três homens da sala”. Mas se empenhou na campanha para promover uma ideia: para fazer uma limpeza na política é preciso, antes de mais nada, acabar com o financiamento privado das campanhas eleitorais.

Dinheiro público. Nada de abrir as portas para a influência financeira de outros interesses. Se o que acontece nos Estados Unidos é exemplo para alguém, a prisão de Sheldon Silver devia servir de alerta.
Três meses antes de ser devidamente silenciada pelo governador, a comissão anticorrupção divulgou um relatório preliminar no qual cita uma corrupção epidêmica na política estadual. “Um em cada 11 políticos que deixaram o cargo, desde 1999, se afastou sob a sombra de violações éticas ou criminais. O verdadeiro escândalo é o que ainda é legal”, diz o relatório. Ou seja, as trapaças são muitas mas o que a lei permite também é assustador.

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