Lições da Grécia

A proposta de transformar os papéis da dívida grega em títulos vinculados ao desempenho econômico do país é simples e brilhante

Por O Dia

O título gritou comigo na tela do computador. Pesquisa da Universidade da Pensilvânia estabeleceu, pela primeira vez, uma ligação direta entre o aumento do índice de suicídios na Grécia e a adoção de medidas de austeridade no país. Charles Branas, pesquisador chefe do estudo, é professor de epidemiologia da universidade e analisou os dados das três últimas décadas. Os números mostram que houve um aumento de 35% dos casos de suicídio no país desde que o governo impôs aos gregos a austeridade exigida pelo Fundo Monetário Internacional, pelo Banco Central Europeu e pela União Europeia.

Muita calma nessa hora, certo? O resultado da pesquisa foi publicado no Jornal de Medicina Britânico e o professor diz que não se pode afirmar, com certeza, se são os cortes em si ou a mensagem do governo, a maneira como eles são apresentados. “Talvez fosse o caso de se pensar em mensagens diferentes quando são adotadas políticas de austeridade ou talvez quem sabe considerar políticas menos drásticas que atinjam os mesmos objetivos”, disse Branas, diplomaticamente, às agências de notícias. O psiquiatra Thomas Hyphantis, da Universidade de Ionnina, ressaltou que boa parte dos casos de suicídio têm origem em problemas mentais, mas analisou os dados da pesquisa e concluiu:
“É verdade que nem todo suicídio se deve à crise financeira ou às medidas de austeridade. Entretanto, também é verdade que nem todo suicídio tem origem na biologia do indivíduo ou em seu histórico psicológico e a pesquisa estabeleceu essa ligação entre o índice de suicídios e as medidas de austeridade tomadas na Grécia”.

E a quem interessa esse tipo de informação? Para os credores da Grécia, para as autoridades da zona rica do Euro, com certeza ela é irrelevante. Se os interesses e o bem estar da população grega entrassem nessa equação, a discussão seria outra, com certeza. Mas os direitos humanos desaparecem quando se trata de falar de economia. Nós, na América Latina, já vimos esse filme que hoje é reinterpretado em forma de tragédia grega. Infelizmente, as lições que a história oferece são sempre varridas para debaixo do tapete, como bem lembrou o Nobel de Economia e professor da Universidade de Columbia, Joseph Stiglitz.

Em artigo publicado na semana passada, ele ressaltou que nos anos 20 o ex-presidente dos Estados Unidos Herbert Hoover reagiu ao crash da bolsa de valores com medidas recessivas que jogaram o país na Grande Depressão. Nos anos 80, o FMI repetiu o receituário recessivo para lidar com as dívidas da América Latina e voltou à bater na mesma tecla nos anos 90, com a crise do leste asiático. Agora, os economistas keynesianos alertaram que a imposição de medidas recessivas na Grécia e na Espanha não surtira efeitos positivos. Pelo contrário. Acertaram. Foi mesmo um desastre! A Grécia conseguiu transformar o déficit orçamentário em superávit enquanto viu o desemprego subir para 25% e o PIB encolher 22% de 2009 até hoje.

Desde que a crise financeira explodiu em 2008, países em desenvolvimento vem tentando, nas Nações Unidas, criar um outro arcabouço para lidar com as inescapáveis reestruturações de dívidas que se repetem periodicamente. Mas os Estados Unidos barram a iniciativa incessantemente. E são os primeiros a adotar, em casa, o que pregam. Os bancos foram socorridos com dinheiro público durante a crise. Hoje, estão lucrando como nunca enquanto boa parte da população sofre com uma recuperação econômica pífia e não vê chances de recuperar as moradias perdidas na ciranda de transações financeiras sofisticadas, que ninguém entendia.

Nas urnas, a população grega fez uma opção nítida. Disse basta de austeridade, cortes e recessão. O mandato do partido Syriza é claro. Alemanha e França se verão diante de uma escolha vergonhosa. Continuar defendendo os interesses do setor financeiro ou respeitar a democracia. A proposta de transformar os papéis da dívida grega em títulos vinculados ao desempenho econômico do país é simples e brilhante. Comprometeria os credores com o crescimento do país. Aí eu queria ver algum deles pedir a adoção de cortes e medidas recessivas. A resposta a essa proposta vai escancarar a hipocrisia dos arautos do mercado financeiro que só querem saber de manter a política do último meio século que usa toda e qualquer crise para transferir ainda mais as dívidas do setor privado para o público.

A reunião de emergência desta quarta-feira, em Bruxelas, quando os ministros de finanças da Zona do Euro discutirão a crise da Grécia será reveladora. Joseph Stiglitz deixou votos esperançosos no fim da coluna que escreveu:

“Raramente eleições democráticas mandam uma mensagem tão clara como a da Grécia. Se a Europa disser não à demanda por uma mudança de curso apresentada pelos eleitores da Grécia, estará dizendo que a democracia não tem a menor importância, ao menos no que diz respeito à economia. A gente espera que aqueles que entendem a dinâmica econômica de dívida e austeridade, que acreditam na democracia e nos valores humanitários, perseverem. Mas veremos”.

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