Cultura destruída

Hipócrita a reação ao ataque à cultura iraquiana, iniciado com a invasão do país

Por O Dia

Foram-se as estátuas milenares. Livros e manuscritos antigos viraram cinza no fogo do fanatismo e da ignorância. O mundo acompanhou pela tevê as cenas da chamada barbárie. Os posts lamentando a perda irreparável se multiplicaram nas redes sociais. Foi mesmo triste. E uma pena ver a destruição de obras de arte do século VIII AC. Os guerrilheiros do grupo Estado Islâmico não pouparam esforços. Foram buscar furadeiras, mini britadeiras, e deram cabo das peças. Ainda fizeram questão de gravar tudo em um vídeo chamado “Promoção da virtude e prevenção do vício”.

O touro alado, com cabeça humana, que guardava a entrada da província de Nínive, capital do império Assírio, também se foi no furor da caça aos símbolos de sabe-se lá o que. Ele estava ali, recebendo visitantes, há mais de 3.000 anos. Uma escultura semelhante pode ser vista no Museus Britânico, em Londres. No vídeo da destruição, os militantes do Estado Islâmico explicam que o portão de entrada de Nínive foi construído em homenagem a Nergal, para os Sumérios, o deus da guerra, das doenças e da morte na Mesopotâmia antiga.

Estudiosos consultados pelo jornal The New York Times analisaram as imagens do ataque às obras de arte e constataram que várias estátuas destruídas eram de Hatra, capital do primeiro reino árabe. Cidade que fez parte da famosa rota da seda. Ali, diferentes culturas convergiam, se observavam, trocavam. Construída como um forte, a cidade resistiu a várias tentativas de invasão. Nem os romanos dobraram Hatra. Mas os militantes foram rápidos. Jogaram no chão várias esculturas de um período histórico com poucos exemplares.

Difícil olhar tudo isso, escutar os lamentos e assistir a Organização das Nações Unidas convocar uma reunião de emergência do Conselho de Segurança para discutir a preservação do patrimônio no Iraque sem pensar: por que? Afinal, por que essa região do Iraque está passando por tudo isso? Não existe uma única explicação ou um único responsável. Mas, infelizmente, muito dessa história vem bater direto em Washington. O que a mídia norte-americana hoje chama de radicalização dos muçulmanos, toda vez que um jovem abraça a jihad e entrega a vida em um ataque terrorista suicida, é um processo que já foi financiado pela CIA.

A chamada Operação Ciclone não foi nada mais do que isso. Ela começou no governo do ex-presidente Jimmy Carter, o hoje paladino dos direitos humanos e defensor da causa palestina. Zbigniew Brzezinski foi Assessor de Segurança Nacional de Carter e contou, há poucos anos, que em julho de 1979 o então presidente Jimmy Carter autorizou o investimento de US$ 500 milhões para criar um movimento terrorista internacional capaz de espalhar o fundamentalismo islâmico na Ásia Central para desestabilizar a União Soviética. Na CIA, o projeto foi batizado de Operação Ciclone e consumiu US$ 4 bilhões de dólares nos anos seguintes na criação de escolas de treinamento islâmico no Paquistão. Jovens fanáticos foram treinados, pela CIA, na Virgínia. Futuros integrantes da rede Alcáida aprenderam, ali, técnicas de sabotagem. Outros foram recrutados em uma escola muçulmana no Brooklyn nova-iorquino.

Nessa época, o Afeganistão tinha um governo que contava com o apoio de Moscou, da antiga União Soviética. Uma revolução popular nos anos 60 instalou no poder o PDPA, Partido Democrático do Povo do Afeganistão que acabou com o feudalismo, instituiu a liberdade religiosa e direitos iguais para homens e mulheres. Mas um governo de esquerda, com apoio de Moscou, no centro de uma região estratégica era algo impensável para a Casa Branca. Daí o apoio de Washington as forças mais reacionárias que pode encontrar. Daí a promoção do fanatismo religioso.

É o que a CIA chama de “blowback”, o tiro que saiu pela culatra. Foi por conta dessa disputa com Moscou, em território afegão, que Washington acabou armando e financiando Osama Bin Laden e seus seguidores. Os Estados Unidos tiveram papel fundamental na alimentação deste fanatismo que hoje é o grande pavor do primeiro mundo. Uma força que ganhou espaço, se multiplicou e formou diferentes grupos. Um deles, o Estado Islâmico, hoje controla uma área do tamanho da Grã-Bretanha em território contíguo do Iraque e da Síria. O mesmo Iraque que quando os Estados Unidos invadiram tinha universidades funcionando, museus e bibliotecas bem cuidados, como a biblioteca de Mosul, saqueada quando os norte-americanos invadiram o país, em 2003, e vítima de uma queima de livros e manuscritos no pior estilo nazista.

Os militantes do Estado Islâmico estão destruindo cultura e conhecimento por onde passam. Segundo a Diretora Geral da UNESCO, Irina Bokova, o que está acontecendo no Iraque “são destruições de coleções de bibliotecas das mais devastadoras da história humana”. As universidades, nas cidades que os militantes ocupam, são fechadas. Se transformam em depósito de armas ou quartel general do Estado Islâmico. Os estudantes são expulsos. A vida para. O futuro vira uma mancha fora de foco.
Mas o que não se pode perder de vista é a realidade que os cidadãos do Iraque enfrentam há mais de uma década. A realidade que os cidadãos da Síria estão enfrentando. Muitos iraquianos que moram aqui nos Estados Unidos andaram explicando aos norte-americanos o significado de um antigo ditado do país. Ele diz mais ou menos o seguinte: “Que os livros sejam um sacrifício pelas pessoas”. Eles lembram que os livros, por mais valiosos historicamente, são feitos de papel. Não se comparam com os assassinatos bárbaros e com a perda de vidas que esses países têm amargado nos últimos anos.

Últimas de _legado_Notícia