Por monica.lima

A movimentação no hall do edifício grã-fino da Columbus Circle, em Manhattan, não deve ser comum. Caso contrário a senhora que levava uma sacola de supermercado não teria parado para perguntar que fila era aquela. “Quem vai tocar aqui hoje? ”, quis saber. O teatro do complexo do Lincoln Center dedicado ao jazz aparentemente não costuma provocar tanta curiosidade. Mas na noite da última quinta-feira o chamariz era um dos nomes mais respeitados do gênero hoje, nos Estados Unidos: Wynton Marsalis.

Interessante. A praça do Lincoln Center tem três grandes teatros. O do American Ballet Theater, o da New York Philarmonic e o do Metropolitan Opera House. O chamado Jazz at Lincoln Center fica seis quadras adiante, no quinto andar de um edifício que abriga butiques sofisticadas e o supermercado mais caro de Nova York. Elevado ao patamar da grande arte, o jazz, música que representa com tanta força as origens africanas da cultura americana, às vezes soa como quem ainda precisa provar que merece o prestígio e o respeito que tem.

Processo. Construção. Tijolo por tijolo. O presidente Barack Obama repete, sempre que pode, que a democracia é uma obra inacabada. Em andamento. Condenada à imperfeição. É um sistema político que se renova no embate. Avança e recua em cada batalha. O público numeroso que chamou a atenção da moradora nova-iorquina foi ao Jazz no Lincoln Center, na quinta-feira passada, atraído pela estreia de Blues Simphony, uma sinfonia em sete movimentos na qual Wynton Marsalis se propõe dois desafios: provar que uma orquestra sinfônica também pode ter “groove”, como se diz por aqui. Ou seja, ter molejo, balanço, um certo requebrado.

Com os sete movimentos ele arrisca um passeio pela história da música americana, pelas influências que os escravos trazidos da África foram generosamente distribuindo por todo continente. Um épico jazzístico para 100 instrumentos.Segundo o próprio Marsalis, uma obra em permanente construção, aberta a mudanças nas mãos de diferentes músicos. Se nas bandas de jazz a improvisação é a alma da performance, a Sinfonia do Blues não poderia se pretender uma peça de música clássica, eternizada na partitura. Sentado em uma das últimas filas de músicos da Orquestra de Compositores Americanos, Wynton Marsalis fez um curto solo de trompete que confirmou a fama de maior mestre do instrumento da atualidade e arrancou uma ovação da plateia.

Mas quem abriu a noite e com certeza pegou muita gente de surpresa foi Courtney Bryan. Contemporânea de Marsalis em Nova Orleans, os dois foram inclusive colegas de escola. Bryan é organista de uma igreja batista de Nova Jersey. Formada em música pela Universidade Rutgers, ela aprimorou os estudos de composição na Universidade de Columbia e faz pós doutorado no Centro de Estudos Afro-Americanos da Universidade Princeton. Courtney Bryan também levou o público a um encontro com a história americana através da música. Um encontro bem mais tenso. Menos harmonioso. Ela conjuga no tempo presente o embate entre as diferentes sensibilidades musicais africana e europeia que deu origem ao Blues, pai do Jazz.

Para compor “Sanctum”, que abriu a noite, Courtney Bryan diz que se inspirou nas gravações de dois sermões: “The Praying Slave Lady” (poderia ser traduzido com “A escrava que rezava”), de Shirley Caesar, considerada a voz feminina número um do gospel americano, e “The Eagle Stirs His Nest” (“A Águia Revolve o próprio ninho”), do reverendo C.L. Franklin, pai da cantora Aretha Franklin, ativista do movimento de direitos civis nos anos 60 e dono de uma bela e conhecida voz. Na melhor tradição dos escravos que colhiam algodão nas plantações do sul dos Estados Unidos e cantavam para sobreviver emocionalmente, para manter alma livre, para resistir, Courtney Bryan diz que “Sanctum” invoca o consolo em meio à perseguição e às tribulações atuais, que não são poucas.

Na sinfonia se ouvem sussurros, suspiros e gemidos de Marlene Pinnock, a avó negra de 51 anos que foi espancada por um policial de Los Angeles, na beira de uma estrada. A cena foi gravada por um cidadão que passava pelo local na hora. Courtney também gravou as vozes dos manifestantes de Ferguson, no Missouri, depois da morte do jovem negro Michael Brown que estava desarmado quando foi morto a tiros por um policial branco.

No sermão de Shirley Caesar, uma escrava insiste em continuar orando apesar das ameaças de espancamento do dono branco. Quando ele levanta o braço para baixar o chicote, os espíritos interceptam o gesto. “Hands up, don’t shoot”, a palavra de ordem das manifestações dos últimos oito meses, por causa da violência policial lembra que Michael Brown possivelmente foi morto com as mãos para o alto como quem pede ao policial que não atire. Ninguém sabe ao certo se isso aconteceu de fato. Mas o símbolo ficou porque tem eco na realidade da minoria afro-americana do país. A violência da suspeita constante, os abusos a que ela é submetida, o eterno lugar secundário, o questionamento sempre presente a respeito do direito de ocupar determinadas posições. Essas vozes estão literalmente e simbolicamente presentes em “Sanctum”.

Courtney Bryan disse ao blog da Orquestra Americana de Compositores que trabalha sempre com a ideia de rebelião e cura através do som, que se sente irremediavelmente atraída por histórias como as de Michael Brown, Marlene Pinnock, Eric Garner (o nova-iorquino que morreu asfixiado quando um policial branco deu um golpe de gravata no pescoço dele) e tantas outras.

A estreia da peça sinfônica da compositora que reúne sagrado, laico, rebelião e cura emocionou a plateia do Lincoln Center. Ao lado da Blues Sinfony de Wynton Marsalis, não deixou a menor dúvida a respeito de onde vêm a força e a profundidade das raízes musicais dos Estados Unidos.

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