Por monica.lima

As notícias, aparentemente, não têm conexão alguma. Bertrand Olotara, de 44 anos, foi capa do jornal britânico “The Guardian”. Fez sucesso na internet com a carta que escreveu ao presidente Barack Obama defendendo o aumento do salário mínimo nos Estados Unidos. Ele cria cinco filhos sozinho desde que veio da República do Congo tentar a vida. Acorda às quatro e meia da manhã todos os dias, inclusive sábados e domingos, porque tem a “sorte” de ter dois empregos. Mas, com dois salários, não ganha o suficiente para alimentar a família. Se vê obrigado a recorrer ao Food Stamp, programa do governo federal que dá uma espécie de ticket refeição às famílias de baixa renda. Olotara acha que o mínimo deveria garantir a alimentação da família. Ele acha que recorrer ao programa de assistência público é um mau exemplo para os filhos.

Olotara leva nos ombros a vergonha que os deputados e senadores deveriam sentir. De segunda a sexta, ele serve refeições na lanchonete do Senado, em Washington. Alimenta quem poderia, com um voto, mudar a incompreensível realidade dos pobres do primeiro mundo. Digo incompreensível porque, diante da abundância primeiro mundista, não é fácil aceitar que existam tantas famílias por aqui em situação igual ou até bem pior que a de Olotara. Há quarenta anos, o trabalho no Senado daria conta das necessidades básicas. E ele teria mais tempo para se dedicar aos filhos.

Mas os americanos não estão sozinhos... A organização Trussel Trust distribui cestas básicas na Grã-Bretanha e deu o alarme na semana passada. Constatou um aumento considerável e constante da clientela. Enquanto os números macroeconômicos da economia britânica apontam uma recuperação depois da crise mundial de 2008-2009, a economia real, para a população de baixa renda, vai se cristalizando com um novo padrão: trabalhar duro, em geral dobrado, e receber menos. Pela estimativa mais conservadora, mais de um milhão de pessoas na Grã-Bretanha precisam dos bancos de comida para se alimentar hoje.

Quem são esses funcionários que não conseguem comer com o salário que recebem? São trabalhadores que pegam um ou dois empregos de meio expediente em atividades terceirizadas. A crise de alimentação na Grã-Bretanha é assunto que vem à tona desde 2013 quando foram publicados os primeiros estudos ligando o aumento da miséria, do número de pessoas sem teto, à reforma do seguro social que cortou e limitou vários programas federais. Com a retórica de que “o importante é botar o povo de volta no mercado de trabalho”, o governo britânico apertou o cinto e abandonou os mais pobres à própria sorte.

A filosofia do estado mínimo, do cada um por si, da terceirização sem limites segue em frente mundo afora como se a solução para os problemas econômicos criados pela elite financeira fosse arrancar ainda mais de quem já não tem de onde tirar.

Voltando a Washington e ao determinado pai Olotara... Ele não é funcionário do Senado, com carteira assinada e os benefícios de praxe. Ele trabalha para uma multinacional contratada para cuidar da alimentação dos políticos. Na segunda jornada, maneja a câmera frigorífica de uma grande cadeia de supermercados. Ironia. De uma maneira ou de outra, Olotara passa o dia cuidando da comida alheia.

Olotara desembarcou em um país bem diferente dos Estados Unidos dos sonhos de tantos que sempre ouviram falar das passibilidades de uma classe trabalhadora exuberante, bem remunerada, que podia dar aos filhos uma vida melhor do que teve. Essa época ficou lá atrás. Conheci um típico representante desses bons tempos em Detroit. Na rua em que ele morava, há seis anos, restavam poucos vizinhos. Quase todas as casas estavam abandonadas e semi-destruídas. Mas, com o trabalho em uma montadora de automóveis, ele criou as filhas e mandou todas para a universidade. Hoje, para começar em uma dessas montadoras, ele ganharia o mesmo que um funcionário de uma cadeia de lanchonetes.

Os trabalhadores americanos foram terceirizados progressiva e rapidamente através de sucessivos acordos internacionais de comércio. Os empregos se deslocaram para o México, de lá para a Ásia e, em uma espiral negativa sem fim, alguns até voltaram aos Estados Unidos, com salários bem diferentes. O site de notícias HuffingtonPost cita um exemplo: a GE trouxe de volta da China para o Sul dos Estados Unidos uma fábrica de aquecedores de água com salários de US$ 13,00 por hora, enquanto, em uma planta semelhante da concorrente Whirlpool, em Ohio, a remuneração varia de US$ 12,40 a US$ 16,50. Mas o salário médio dos trabalhadores norte-americanos nesse setor já foi US$ 32,00 por hora.

Muito se fala por aqui sobre esse processo de exportação de empregos. Mas pouco se comenta a respeito da terceirização dentro das fronteiras do país, que tem o mesmo efeito desastroso. Os governos federal, estadual e municipal entraram na onda. Existem os presídios construídos e administrados por empresas. As escolas antes públicas que passam a verba municipal a gerenciadores de negócios (eles se referem aos alunos como “a clientela”) e por aí vai. Tudo embalado na imagem da eficiência versus a suposta incompetência do poder público. Mas é claro que, nessas escolas, sindicato não entra.

O resultado, a exemplo da exportação de empregos, são salários mais baixos e dependência da assistência pública ainda maior. Na Grã-Bretanha, reformou-se o seguro social e essa assistência, mais necessária do que nunca, foi reduzida. Aqui os conservadores aprovaram leis estaduais que enfraquecem ainda mais o já combalido sindicalismo. Em 25 estados da federação, já foi adota a lei diabolicamente batizada de “Direito de Trabalhar”. Em poucas palavras: antes, quando o sindicato era aceito pela maioria dos trabalhadores de uma empresa, ele passava a representar o conjunto dos funcionários. Agora não. Os empregados não são mais obrigados a pagar a contribuição sindical, mas o sindicato continua obrigado a estender benefícios a todos.

Sindicatos cada vez mais fracos. Leis que privilegiam o capital. Descompromisso das empresas com relação aos funcionários e à sociedade em geral. Terceirização generalizada. Assim, a maioria vai transferindo mais e mais renda para o setor financeiro, que em geral não paga pelos erros que comete. É assim que a democracia capitalista vai se tornando mais e mais capitalista e cada vez menos democrática.

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