O incrível caso da Fifa

A velocidade com que o castelo de cartas vai desabando é impressionante. O todo poderoso Joseph Blatter conseguiu se reeleger três dias após a prisão de dirigentes da Fifa. Mas logo anunciou a renúncia. E já há quem diga que ele vai passar a bola adiante antes mesmo de uma nova eleição no fim do ano

Por O Dia

É difícil imaginar o próximo truque da cartola da Fifa a ser revelado ao mundo. Em uma velocidade estonteante, as mágicas dos chefes supremos do futebol e dos políticos próximos a eles se mostraram de um alcance inimaginável. Elas não se limitam a transferências de dinheiro com objetivos espúrios. Mas sérias decisões de governo, como venda de armas, projetos de investimento direto, fraude na contagem de votos e sabe-se lá o que mais também vieram à tona. Da lista de práticas criminosas ou questionáveis não escapa uma das quatro grandes empresas mundiais de auditoria, a KPMG, que embarcou no mundo do futebol um ano depois da posse de Joseph Blatter, como auditora oficial da Fifa.

Nas duas últimas semanas, as denúncias se multiplicaram. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos começou a investigação colocando em dúvida a escolha do Qatar como sede da Copa do Mundo de 2018 e a vitória de África do Sul para 2010 depois de descoberta a transferência de US$ 10 milhões para um programa de incentivo ao futebol em Trinidad e Tobago. Com certeza, o governo da África do Sul tem muita preocupação com o nível do futebol dos irmãos de Trinidad. Mas as autoridades não se sensibilizaram. O FBI também entrou nas investigações. Polícias de diferentes países embarcaram na possibilidade de limpar o futebol e agora já são seis as Copas na berlinda policial.

A velocidade com que o castelo de cartas vai desabando é impressionante. O todo poderoso Joseph Blatter conseguiu se reeleger três dias após a prisão de dirigentes da Fifa. Mas logo anunciou a renúncia. O calor do fogo chegou perto demais. E já há quem diga que ele vai passar a bola adiante antes mesmo de uma nova eleição no fim do ano. Greg Dyke, presidente da FA (a CBF britânica), disse, ao jornal “The Guardian”, apostar que Blatter não dura mais de dois meses em liberdade. Será preso em breve.

Os US$ 10 milhões, ponta do novelo que vai agora se desenrolando, já foram localizados. A BBC publicou documentos que mostram a transferência do dinheiro da África do Sul, via FIFA, para contas de Jack Warner, político e empresário de Trinidad e Tobago que foi presidente da Concacaf. O homem procurado pela Interpol, indiciado no processo americano, prometeu contar tudo e garantiu ter documentos para provar o envolvimento de Blatter em transações financeiras da Fifa. Mas isso é apenas o começo. Dez milhões na conta das trapaças da Fifa realmente não é nada.

De acordo com as contas oficiais, entre 2011 e 2014 a FIFA faturou US$ 5,7 bilhões com a venda de direitos de marketing e de transmissão de jogos. O “The New York Times” quer saber: e a responsabilidade da empresa de auditoria que fiscaliza essas contas desde 1999, um ano depois da posse de Blatter? Ela nunca viu nada, não percebeu a estranha movimentação de dinheiro na entidade? A acusação de corrupção é tão ampla e tão profunda que fica difícil imaginar como os auditores teriam analisado as contas sem arregalar os olhos.

É como disse um jornalista por aqui: “Um dia isso ainda vai dar um filme e tanto!”. Com certeza. Quem vai fazer o papel do ex-chanceler alemão Gerhard Schroder removendo as restrições à venda de armas para a Arábia Saudita, em troca do voto do país a favor da candidatura da Alemanha para sede da Copa de 2006? O jornal “Die Zeit” garante que essa foi a cartada decisiva. Com a liberação da venda de armas aos sauditas e as promessas de investimentos da Volkswagen e da Bayer na Tailândia e na Coréia do Sul, a Alemanha venceu a disputa com um voto de vantagem.

A avalanche de denúncias não para. O “Sunday” de Londres diz que a escolha da África do Sul não foi apenas comprada. Foi também roubada. De acordo com o jornal, quem deveria ter levado, naquele ano, era o Marrocos. Segundo o jornal, um vídeo secreto, apresentado no passado à direção da FIFA, mostra o ex-membro do Comitê Executivo da FIFA Ismail Bhamjee contando a um repórter (que não se identificou como jornalista) como acontece a contagem dos votos e o porquê da dúvida a respeito do resultado. Um grupo de oficiais da FIFA se fecha em uma sala e conta os votos sem que ninguém veja o que está acontecendo. Bhamjee alega, no vídeo, que conversou com os colegas da FIFA na época. Eles disseram em quem tinham votado e a conta não batia com a contagem secreta. Segundo Bhamjee, o Marrocos teria vencido a disputa por dois votos. Mas o resultado oficial deu 14 votos à África do Sul e 10 ao Marrocos.

Não é apenas a organização do futebol mundial ou o abuso de um ou outro dirigente que estão em jogo. É todo um esquema financeiro que movimenta bilhões em publicidade, direitos de transmissão, e alimenta bancos em paraísos fiscais. Não se trata apenas de um corrupto notório que compra dois apartamentos caros em Manhattan — um para ele e outro para os gatos dele —, como é o caso de Chuck Blazer, que confessou os crimes e usou microfone escondido para incriminar os comparsas. No fim das contas, trata-se da circulação de um grande volume de dinheiro que muitas vezes deixa cofres públicos, outras não, e passeia pelo mundo sem pagar impostos. Um dinheiro que corrompe não apenas o esporte.

Em Trinidad e Tobago, Jack Warner, encurralado pelas provas de movimentação irregular de dinheiro, perguntou: “Se eu passei 30 anos na FIFA roubando todo esse dinheiro, quem me deu o dinheiro?”. Um jornalista arriscou a resposta? “Blatter!”. Warner retrucou: “E por que ele não foi indiciado?”.
Pode ser apenas uma questão de tempo. E de pouco tempo.

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