Por bruno.dutra

A economia mundial comemora nesse ano os 80 anos do conceito de PIB (Produto Interno Bruto), criado por Simon Kuznets, Prêmio Nobel de Economia. Mas o próprio pai do PIB havia advertido: sua cria não deveria ser usada como termômetro para aferir o bem-estar de uma nação. Ou seja: tamanho do PIB não é documento quando se trata de avanços sociais. O mundo começa a dar ouvidos a Kuznets.

No último dia 4 foi divulgado resultado de um novo índice (criado no ano passado) que avalia o progresso social de 132 países. Idealizado por pesquisadores da Harvard Business School, o Índice de Progresso Social avalia 54 indicadores sociais e ambientais. Por essa medição, ficou claro que os países do BRICS ainda têm muito chão pela frente nos avanços sociais, apesar do crescimento econômico.

Quatro deles amargaram resultados medíocres ou ruins no progresso social na lista de 132 países: África do Sul (em 69º lugar), Rússia (80º), China (90º) e Índia (102º). Somente o Brasil apareceu razoavelmente bem na fita: ficou em 46º lugar, o campeão do grupo. Seu progresso social é superior ao seu PIB per capta (em 57º lugar). Ou seja, o “pibinho” não impediu que o Brasil avançasse no oferecimento de melhores condições de vida para a população, apesar de ainda ter muito o que avançar nesse campo.

Os EUA exibem o segundo PIB per capita mais alto, mas estão em 16º lugar, com problemas nos quesitos necessidades humanas básicas, saúde e bem-estar, além de educação. Sob o titulo “Nós não somos o numero1!”, o New York Times publicou um artigo, no qual o autor admite que “nossa força econômica e militar não se traduz em bem-estar para a média dos cidadãos”.
Não significa que não exista relação entre PIB per capita e progresso social. Existe.

Por exemplo, Nova Zelândia, a primeira colocada, tem um PIB per capita de US$ 25.875. O Chad, que ficou por último, tem um PIB per capita de US$ 1.870. Mas, embora um PIB per capita alto esteja ligado ao progresso social, “essa conexão está longe de ser automática”, explica Michael Porter, professor da Harvard Business School, que anunciou o índice.

O historiador J. R. McNeill, autor do livro “Something New Under the Sun: an Environmental History of the Twentieth Century World”, diz que o “fetiche do crescimento” tomou conta da imaginação no século XX, tanto dos capitalistas quanto dos comunistas. Ambos rezaram no mesmo altar do crescimento econômico porque este disfarçava uma série de pecados. Segundo ele, enquanto a economia mundial cresceu 120 vezes desde 1500, a renda média dos indivíduos cresceu apenas 9 vezes.

O indiano Amartya Sen, prêmio Nobel de Economia em 1998, é uma das inspirações desse novo índice. Seu mantra: o crescimento é incompleto sem progresso social. O crescimento é importante e pode melhorar o padrão de vida das pessoas, diz ele. Mas o problema é adotar o crescimento como objeto de fetiche. Ele detalha magistralmente os desafios do crescimento indiano em seu último livro “An Encurtam Glory”, escrito juntamente com o economista belga Jean Drèze.

Nas últimas duas décadas, a Índia cresceu e sua renda per capita é duas vezes maior do que a de Bangladesh.Mas mesmo assim - ressaltam os autores do livro - a Índia perde em vários indicadores sociais (como expectativa de vida e sobrevivência infantil) para Bangladesh, apesar desse país continuar a ser um dos mais pobres do mundo e não ser nenhum modelo de desenvolvimento.

Com o crescimento do PIB e das rendas da classe média em países emergentes, a expectativa das populações desses países cresceu acentuadamente. As pessoas hoje esperam de seus governos mais atenção no progresso social e estão menos interessadas na pura exibição de números de crescimento do PIB. E os governos têm ouvido o clamor. Na Índia, por exemplo, está em gestação um novo sistema de medição de indicadores de atraso para determinar que estados precisam de ajuda especial. A China, que não está mais obcecada com os números do PIB, começa a priorizar a criação de empregos e a estabilização de preços.

A divulgação desse novo índice é mais um capítulo no debate sobre crescimento inclusivo. Michael Porter ressaltou a liderança brasileira nos BRICS: “O Brasil é relativamente mais eficiente em transformar crescimento econômico em progresso social. O país está comprometido com esta agenda há algum tempo”. Mas ele alertou que ainda há muito no que avançar no desenvolvimento social.

Segurança pública é um dos principais desafios brasileiros, segundo a pesquisa. O país também precisa melhorar muito o acesso ao ensino superior, entre outros desafios. Mas com relação ao quesito “bem-estar”– conhecimento básico, informação, comunicação, liberdade de imprensa, poluição, expectativa de vida, entre outros - o Brasil aparece à frente de todos os integrantes do BRICS e distante apenas duas posições dos Estados Unidos.

Amarty Sen observa em seu livro que nos últimos 20 anos o Brasil adotou iniciativas ambiciosas nas áreas da Saúde, Educação e Segurança Social, com “resultados impressionantes”, destacando o exemplo do Bolsa Família. Sen citou uma pesquisa do economista australiano Martin Ravallion sobre velocidade de redução da pobreza no Brasil, na Índia e na China entre 1981 e 2005. C

om crescimento do PIB per capita bem menor do que na Índia, o Brasil conseguiu fazer a lição de casa de forma muito mais eficiente, com redistribuição de renda, enquanto a desigualdade econômica na Índia se acentuou. PIB, pibão ou pibinho, o que vale são seus frutos sociais.

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