Por monica.lima
Publicado 25/04/2014 12:16

Google e Facebook sabem onde estão seus futuros mercados.  As duas empresas planejam agora empregar drones para oferecer seus serviços em áreas da Ásia, América Latina e África. Reivindicando mais voz na governança da internet, a Índia sugeriu o conceito de “Equinet” . Ou seja, a internet como um meio que beneficie pessoas de todas as camadas da população, sem distinções.

O mundo tem 3 bilhões de internautas. O próximo bilhão virá dos países emergentes e em desenvolvimento. Uma nova arquitetura justa da internet mundial – que começou a ser desenhada nessa semana em São Paulo _ não poderá deixar de contar com uma relevante participação do Sul Global. Pelo menos, não deveria. Afinal, onde a internet vai florescer mais é no mercado emergente.

Não foi à toa que o encontro Netmundial tenha sido realizado no Brasil, com mais de 100 milhões de internautas. O país transformou-se na capital mundial da governança da internet por alguns dias. Vem daqui um bom exemplo de modelo multissetorial, através do Comitê Gestor da Internet, com a participação equilibrada de representantes do governo, das universidades, da iniciativa privada e de ONGs. O Brasil acabou de oferecer ao mundo uma constituição da internet democrática, defensora dos direitos dos internautas, o Marco Civil.

O próximo debate sobre governança da internet está marcado para setembro na Turquia. Mas nesse caso, é um país que, como vários outros emergentes, anda às turras com a liberdade na rede. Outros encontros importantes sobre o funcionamento da Internet aconteceram recentemente em Bali, em Montevideu, em Baku e em outras cidades de países periféricos.

Ainda é cedo para saber como será essa nova arquitetura cibernética, mas Virgílio Almeida, secretário de Políticas de Tecnologia da Informação do Ministério da Ciência, que esteve à frente do Netmundial, ressaltou em uma entrevista alguns dias antes do evento que as economias emergentes deverão ter uma maior representação no novo modelo de governança.

Com a riqueza aumentando em mercados emergentes nos últimos anos, seus habitantes adquiriram rapidamente o gosto e o hábito de usar telefones celulares e a tecnologia da internet. A Índia, por exemplo, abriga a terceira maior concentração de usuários de internet no mundo, após EUA e China. Só o Facebook abocanha mais de 100 milhões de usuários no país, o segundo maior mercado da rede social, depois do americano. A Índia tem 220 milhões de internautas. São menos de 20% de sua população. Mas esse número é cada vez maior: cresce 28% ao ano. Mais da metade desses internautas acessa a rede pelos celulares. Na Nigéria, com uma população de 155 milhões, há 75 milhões de internautas, quase 33% do total de seus habitantes. Também ainda tem chão pela frente.

Google e Facebook sabem onde estão seus futuros mercados. As duas empresas planejam agora empregar drones para oferecer seus serviços em áreas da Ásia, América Latina e África. A internet não é apenas uma fonte de informação, conectividade e entretenimento nos países emergentes. Também é um veículo de desenvolvimento. A contribuição da internet para o PIB dos países desenvolvidos é de 5% a 9%, segundo estudo da consultoria Boston Consulting Group.

Os internautas emergentes adoram acessar a rede social e são cada vez mais adeptos das novas tecnologias, segundo estudo recente do Pew Research Center. “Em um curto período, a internet e as tecnologias de celulares se tornaram parte da vida do dia-a-dia nos países em desenvolvimento e emergentes,” diz o estudo.

Reivindicando mais voz na governança da internet, a Índia sugeriu o conceito de “Equinet” . Ou seja, a internet como um meio que beneficie pessoas de todas as camadas da população, sem distinções. “É muito significativo para a Índia, já que temos o mais alto número de internautas depois da China e dos EUA. Até o fim do ano vamos passar os EUA”, explicou Govind, chefe da Nixi (National Internet Exchange), entidade que coordena os endereços de internet no país.

Mas vários emergentes tem sérios problemas com questões ligadas à liberdade na rede. Um dos exemplos mais evidentes vem de Pequim. Campeã mundial em número de internautas (618 milhões de usuários), a China bloqueia muitos sites de notícias e serviços de mídia social, como Facebook, Twitter e YouTube. Seu exército de censores rotineiramente filtra informações consideradas inadequadas pelo governo, que silencia vozes dissidentes. Na Rússia e em algumas ex-repúblicas soviéticas o Vkontakte, rival do Facebook, tem mais de 100 milhões de usuários: é parcialmente controlado pelo oligarca Alisher Usmanov, próximo do Kremlin.

Censura e autoritarismo de alguns, bisbiolhetice de outros. O NETMundial foi proposto por Dilma Rousseff logo após a explosão das denúncias de espionagem da NSA americana sobre empresas e autoridades governamentais, inclusive sobre a Petrobras e Dilma. A espionagem foi definida por Tim Berners-Lee, criador da Web, em seu discurso de abertura do NETmundial, como “mais perigosa do que a censura porque não a vemos acontecer”.

Decisões importantes haviam sido tomadas antes de os debates começarem em São Paulo. A principal foi a ‘desamericanização’ das entidades de coordenação da rede global. Os países europeus pediam, desde 2009, o fim da concentração de poder nas mãos dos EUA no que se refere à governança da internet. Isso acontece hoje através do controle da Icann (Corporação da internet para Designação de Nomes e Números). Mas o contrato da Icann com o governo americano, que expira no ano que vem, não deverá ser renovado.

Um modelo multissetorial tem sido o mais apoiado, inclusive pelo Brasil e pela Índia, as duas maiores democracias emergentes. Mas há divergências, com China e Rússia preferindo o chamado modelo multilateral, focado no poder decisório dos governos, sem a participação de representantes de iniciativa privada e de ONGs, ou especialistas. O encontro de São Paulo foi um pequeno passo para reiniciar a internet. Mas pode ser o início de um grande salto que vai mudar a forma como a rede é governada e usada.

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