Por douglas.nunes

Você vai à China? China, China? China Comunista?
Passei minha imprudência sob o olhar da inveja e medo de tudo quanto é amigo, família e colega. Talvez fosse a última vez que estivessem me vendo com vida. Se eu não morresse lá, de lavagem cerebral, morreria aqui de cirurgia para extirpar o vírus comunista que eu traria nos meus cabelos, roupas e principalmente na ALMA!”

1980. Primeira edição do inesquecível “Henfil na China”. Brasília havia retomado suas relações diplomáticas com Pequim apenas seis anos antes. Mas a ideia de que a China era uma sucursal comunista de Marte na Terra ainda permeava a imaginação dos brasileiros, em plena ditadura militar. O “Império do Meio” ainda inspira certos pesadelos ocidentais — bastante reais — como o de que seria um dragão que devoraria o planeta com seu poderio econômico e avalanche de produtos baratos.

Mas o país governado hoje pelo presidente Xi Jinping tem investido energia na tentativa de construir uma imagem positiva. Quer apagar a ideia de que é um voraz bicho-papão e de que seu gigantismo é esmagador para outras economias menores. No caso da América Latina, 2014 foi eleito pelos chineses como o ano do salto qualitativo nas relações. O ministro dos Negócios Exteriores da China, Wang Yi, passou uma semana na América Latina preparando terreno para a visita do presidente Xi Jinping em julho.

O périplo de Wang Yi começou em Cuba e continuou pela Venezuela, Argentina e Brasil, onde foi recebido pela presidente Dilma Rousseff no Palácio do Alvorada, no sábado passado. Em 2013 o próprio presidente Xi Jinping já havia viajado por vários dias na região (México, Costa Rica e Trinidad e Tobago). Sua primeira visita ao Brasil — para participar da 6ª Cúpula do Brics, em Fortaleza — acontecerá em meados de julho, um mês antes do aniversário de 40 anos de restabelecimento das relações diplomáticas entre China e Brasil.

Há cinco anos a China foi alçada à condição de principal parceiro comercial do Brasil. No ano passado, o fluxo comercial entre os dois países ultrapassou a casa dos US$ 90 bilhões pela primeira vez. A América Latina transformou-se em uma região-chave para os chineses. Na última década, a China tornou-se a principal fonte de crescimento das exportações de matérias-primas latinoamericanas, especialmente cobre, petróleo, minério de ferro e soja. Mas há um lado ruim nisso, motivo de ressentimentos por aqui: a semelhança com o tradicional modelo colonialista de exportação de matéria-prima de baixo valor agregado em troca de produtos industrializados.

O ministro Wang Yi apontou na direção de mais trocas de longo prazo. “Nós queremos estabelecer parcerias de longo prazo especialmente com a Venezuela e com o Brasil”, anunciou, referindo-se ao petróleo. A influência chinesa na economia da região acontece cada vez mais através de investimentos. O Brasil, por exemplo, é hoje o quarto principal destino de investimentos estrangeiros chineses no mundo. “Dos mais de US$ 90 bilhões de investimentos chineses no exterior em 2013, US$ 16,5 bilhões foram aplicados na América Latina e no Caribe, o que significa que há um grande espaço a ser explorado”, afirmou o ministro chinês. Seu país vai investir mais em projetos de infraestrutura, especialmente rodovias, estradas de ferro e de geração de energia. A China pretende criar um fundo para aumentar o seu investimento na região.

Hoje, o maior emprestador da América Latina é a China: no ano passado bancos chineses emprestaram US$ 15 bilhões, enquanto o Banco Mundial disponibilizou US$ 5,2 bilhões e bancos comerciais estrangeiros, US$ 17 bilhões. Entre 2005 e 2013 foram emprestados mais de US$ 100 bilhões, segundo estudo da Base de Dados China-América Latina, divulgado conjuntamente pela think-tank Diálogo Inter-Americano e a Universidade de Boston. Grande parte dessa montanha de dinheiro (85%) foi aplicada em projetos de infraestrutura, mineração e energia, segundo Kevin Gallagher, da Universidade de Boston. Mais da metade dos empréstimos chineses para a América Latina foi engolida pela Venezuela, que retribui com o seu precioso petróleo.

Uma previsão otimista feita pelo ministro Wang Yi aponta para uma relação mais equilibrada entre a América Latina e a China. Ele ressaltou que as reformas econômicas implementadas pelo governo chinês — que pretendem incentivar o consumo doméstico — abrirão mais as portas para participação de empresas latinoamericanas no mercado chinês. Se isso de fato acontecer, será um avanço. Algumas gigantes brasileiras já estão consolidadas por lá, como a Vale, a Embraer, o Grupo Votorantim e a BRFoods.

A China não só exerce influência econômica cada vez maior como tem um grande interesse em estabilizar a região. Um dos sinais disso é o anúncio de mais um mecanismo de diálogo: será lançado no fim do ano, em Pequim, o Fórum de Chanceleres entre China e os 33 países-membros da Celac (Comunidade dos Estados Latinoamericanos e Caribenhos). Esse fórum deverá reunir-se de três em três anos. A ideia é trabalhar conjuntamente em variados projetos e ampliar as áreas de cooperação com a região.

A Celac — que tem potencial de se transformar em uma importante força política — nasceu há dois anos como contraponto à OEA (Organização dos Estados Americanos), fortemente influenciada pelos EUA. A OEA foi criada em 1948, no auge da Guerra Fria. Servia como uma muro contra uma potencial influência soviética na região. Participam da Celac todas as nações da região, inclusive Cuba, excluída da OEA. Diferentemente da OEA, a entidade não inclui os EUA e o Canadá. Mas conta com o entusiasmo da “hermana” China.

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