Por bruno.dutra

Eu juro por Deus, o diabo que existe dentro de mim me diz para tirar o meu sapato e atirar em vocês. Mas aí eu olho para o meu sapato, olho para vocês e, francamente, não vale a pena”. O desabafo da turca Aylin Nazliaka, na última terça-feira, vinha do fundo d’alma. Famosa e respeitada defensora dos direitos femininos, a deputada do Partido Republicano do Povo explodiu contra os conservadores deputados que reagiram agressivamente a um projeto de lei seu que defendia o direito de voto às mulheres que vivem em abrigos, vítimas da violência doméstica. Essa é uma das pragas que atingem o país, onde quatro mulheres são mortas diariamente por seus parceiros.

A explosão desencadeou uma onda de protestos na internet. As criativas mulheres turcas postaram fotos no twitter de suas sandálias, de havaianas às de salto alto. A campanha “#O Chinelo está vindo” foi iniciada anteontem, com imenso sucesso. A frase é uma referência à usada pelas mães turcas para reprimir o mau comportamento dos filhos.

A mulherada turca já havia chamado a atenção do mundo dias antes com outra manifestação virtual: inundaram o Twitter com fotos suas sorrindo. Era um desafio à recomendação de políticos conservadores de que elas não deveriam rir em público. "Voces querem impor às mulheres o que devemos vestir, o que devemos comer, que cor de batom podemos usar, se podemos rir nas ruas ou não”, protestou Aylin.“Vocês sabem que três em cada quatro mulheres são mortas a cada dia e que há 40% de aumento na violência contra as mulheres. Os que ditam como as mulheres devem se vestir, são os mesmos que encorajam esses assassinatos”, completou.

O projeto de lei de Ayllin foi rejeitado no parlamento pelo majoritário AKP, partido do governo conservador de Recep Tayyip Erdogan, que no domingo passado venceu a primeira eleição direta para presidente da Turquia.A corajosa Aylin é uma das vozes que incomodam Erdogan, apelidado de “Sultão”, pelo seu jeitão autocrático.Primeiro-ministro há 12 anos, ele concorreu a presidente — cargo que ele promete fortalecer, para amentar seus poderes. As pretensões desse sultão do século 21 não são pequenas. Depois de cultivar sua imagem como a de um menino pobre que ascendeu ao poder, Erdogan promete agora construir uma “Nova Turquia”, projetando-a mais ainda no exterior.Mas terá muito o que fazer. Pesquisa do Fórum Econômico Mundial, por exemplo, situa a Turquia em 120º lugar entre 136 países no quesito igualdade de gêneros.

No livro “The Rise of Turkey: The 21st Century’s First Muslim Power” (“A ascenção da Turquia: A Primeira Potência Muçulmano no Século 21”), Soner Cagaptay, acadêmico turco do Instituto Washington, oferece um detalhado relato da metamorfose turca nos anos Erdogan. Potência emergente regional que inspira outros países islâmicos, a Turquia fez reformas que na última década impulsionaram seu crescimento, criando uma grande classe média. O PIB per capita saltou de US$ 4 mil, em 2003, para quase US$ 11 mil em 2013. A previsão de crescimento para este ano é de 3% a 3,5%, um paraíso comparado com os vizinhos europeus. Tudo isso foi feito durante o governo do “sultão” Erdogan.

Mas ao mesmo tempo, o país tem pela frente vários desafios, como o embate entre liberais e as forças conservadores que tentam reprimir as mulheres e a liberdade de imprensa e na internet. Erdogan conseguiu se eleger mesmo depois de ter passado o rolo compressor nos maciços protestos de 2013, que começaram como uma manifestação pacífica de defensores do meio ambiente contra a demolição do Parque Taksim Gezi, em Istambul.

Não bastasse isso, ele e seu filho Bilal foram envolvidos em um escândalo de corrupção. Mas Erdogan convenceu seu fiel eleitorado sunita de que tinha sido vítima de uma conspiração internacional. Em maio do ano passado, 301 trabalhadores turcos morreram em um acidente de uma mina na cidade de Soma, fruto de negligência da empresa controladora do estabelecimento. Erdogan foi flagrado diante de uma câmera brigando com cidadãos revoltados.

A cena, em uma democracia ocidental, funcionaria como uma pá de cal no sonho de se reeleger. Mais ainda: no dia 11 de junho de 2013, os militantes do grupo extremista sunita Estado Islâmico cercaram o consulado turco em Mossul, segunda cidade do Iraque. Fizeram 48 reféns, incluindo o cônsul. O governo havia falhado em proteger seus cidadãos, mesmo diante das evidências de que os radicais atacariam a representação diplomática turca. Vitorioso nas urnas, com mais de 50% dos votos, Erdogan ganhou o apelido de “Teflon Tayyip”.

Integrante da Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan), a Turquia sempre desempenhou papel importante na seara internacional.O país fica em uma posição mais do que estratégica — na fronteira da Europa com o conturbado Oriente Médio. Os turcos sempre serviram como ponte entre o Ocidente e o mundo islâmico. Hoje, dos cafés dos países árabes às salas de reuniões do G-20, a Turquia é uma potência emergente que continua importando. E muito.O exemplo histórico da Turquia foi usado há dias pelo Papa Francisco para desestimular a ideia do Califado que o Estado Islâmico (EI) declarou em uma área conquistada entre o Iraque e a Síria. Califado refere-se a Califa, líder político-religioso dos muçulmanos, visto como uma espécie de sucessor do profeta Maomé.

O Papa — exasperado com a violência do EI contra minorias religiosas, inclusive cristãos — pediu o apoio de líderes muçulmanos, como Erdogan, para que condenassem o Califado dos radicais. O Pontífice lembrou Mustafa Kemal Atartuk, fundador da República turca, que aboliu o califado em 29 de outubro de 1923. Atartuk modernizou as estruturas sociais e políticas do país, daí ser chamado “o pai dos turcos”. Com seu culto à personalidade, Erdogan faz de tudo para atrelar sua imagem ao histórico líder, símbolo da defesa do secularismo na Turquia. Mas, para Soner Cagaptay, os dois tem só uma coisa em comum: o desejo de levar a marca Turquia para o mundo.

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