O 007 de Mumbai

A economia indiana cresceu 5.7% no primeiro trimestre, seu melhor desempenho desde o início de 2012

Por O Dia

A boa nova coincidiu com a comemoração dos 100 dias de governo do primeiro-ministro Narendra Modi, no último dia 2. Os indianos se animaram tanto que começaram a alimentar um velho sonho: o de alcançar a China, que cresce menos agora, a uma taxa de 7%. Mas os números auspiciosos tiveram pouco a ver com Modi, que ainda não tinha chegado ao poder quando a preparação do terreno para esse crescimento havia sido feita com ações que contribuíram para enfraquecer o ritmo inflacionário. O desempenho surpreendente da economia vem sendo creditado ao grande guru econômico da Índia que ficou famoso mundialmente por ter previsto a crise financeira de 2008: o presidente do Banco Central do país Raghuram Rajan.

Mesmo tendo nascido nas terra dos gurus, a mídia indiana gosta de comparar Rajan, 51 anos, a um charmoso personagem: Bond, James Bond. Ele assumiu o Banco Central indiano há um ano. Mas foi bem antes, em 2005, que ele proferiu a famosa palestra na qual previa a crise que assolaria o mundo três anos depois. Rajan era então um mero conselheiro econômico do Fundo Monetário Internacional. Ele mostrou sua bola de cristal aos convidados de um evento em homenagem a Alan Greenspan, o então presidente do Federal Reserve, o BC americano, que se despedia. Mas quem levaria a sério aquele desconhecido economista indiano?

Depois da desgraça de 2008, a mídia de seu país o adotou como o queridinho visionário. Quando, em 2013, Rajan assumiu sua cadeira no 18 º andar do prédio do Banco Central, na zona sul de Mumbai, o coração financeiro da Índia, o país era um dos mercados emergentes apelidados de os “cinco frágeis”, por sua vulnerabilidade. A moeda indiana, a rúpia, despencava. Os investidores batiam em retirada. Havia temores com relação à capacidade do país de financiar seu imenso déficit de conta corrente. Mas Rajan estabilizou a moeda e atraiu de volta os investidores.

Ele, que já tinha aura de mago, ganhou um toque de celebridade e passou a ser tratado como estrela de rock do sisudo mundo econômico indiano. A mídia passou a publicar imagens dele com um revólver na mão. “O James Bond dos bancos centrais recebeu licença para matar a inflação com altas taxas de juros e com um programa de reformas da política monetária”, alardeava o “The Times of India”.

Um colunista chegou a escrever o trocadilho: o “cara torna o Sensex (índice da bolsa de valores indiana) sexy”. Rajan já deu sua explicação para essa euforia toda: o fato de existir, à época, uma espécie de vazio na economia. Ele apenas ocupou um vácuo. Esse engenheiro passou vários anos nos Estados Unidos, onde fez doutorado no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, com a tese “Ensaio sobre os bancos”, seguido de um pós-doutorado na Universidade de Chicago. Desde a sua premonição, as pessoas atacam o “profeta” com a pergunta “Qual será a próxima crise?”. Os aduladores tentam massagear seu ego lembrando que ele pode seguir o rumo de um outro presidente do BC: o ex-primeiro-ministro Manmohan Singh, antecessor de Narendra Modi.

Hoje a Índia livrou-se da pecha de frágil. Com inflação em queda e aumento das reservas monetárias, o país, comemora Rajan, está menos vulnerável. Mas ele não é unanimidade. Recebe fortes críticas pela manutenção dos juros altos. Rajan se defende repetindo o mantra de que a receita para conquistar o crescimento econômico sustentável é trazer a inflação para níveis razoáveis e depois disso ter condições de cortar as taxas de juros.

Antes de voltar dos EUA, Rajan, diagnosticava a corrupção como um dos principais males de seu país, lembrando a obra do historiador Richard Hofstadter, que estudou a era dos escândalos no capitalismo americano. A inanição dos serviços públicos indianos contribui para essa praga. O país amargou escândalos famosos na área de mineração e no setor de telecomunicações no governo passado.

Com fama de boa praça, ele é um típico indiano que segue hábitos simples, gandhianos — como se diz por lá. Rajan é vegetariano e não bebe álcool. Pouco a ver com o sofisticado e esbanjador James Bond. Quase não sai para comer fora. Quando recebe uma visita, seja um jornalista, empresário ou acadêmico, não pode aceitar convites para almoçar ou jantar. É a norma da instituição. Assim, os bate-papos são sempre ali mesmo, acompanhados pela comida indiana preparada pelos cozinheiros do BC.

Ele nasceu em 1963 na cidade de Bhopal, que ganhou fama mundial pelo terrível acidente de vazamento de gás em 1984, o pior desastre industrial do mundo, que matou quase 4 mil pessoas. “Nasci a poucos metros do local da tragédia”, lembra. Seu pai? Ironicamente foi um funcionário da famosa RAW (Research and Analysis Wing), o serviço de informações do país. Ou seja, era um espião. Rajan lembra que o pai costumava dizer que Jonh le Carré estava certo ao dizer que um espião é como um burocrata qualquer, a não ser pelo fato de que faz coisas que as pessoas acham muito interessante. Lembra algo? Bond, James Bond.

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