Os protestos verdes dos chineses

Em maio de 2013, um protesto contra um incinerador de lixo na cidade de Hangzhou, no Leste da China, deixou 39 feridos e as autoridades em pânico

Por O Dia

Tanto que os políticos locais avisaram ao governo central em Pequim que não iriam mais tocar o projeto do incinerador sem o consentimento da população. Foi uma demonstração de rebeldia rara por aquelas bandas. Mas reflete o medo da reação irada dos chineses, cada vez mais frequente. Eles não aceitam mais ver pacificamente a sua saúde ser destruída pela poluição atmosférica. Mais e mais chineses saem às ruas para exigir ar puro e água limpa. O país tem mais de duas centenas de protestos diários, muitos deles motivados principalmente pela defesa do meio ambiente. O rápido crescimento econômico e a industrialização dos últimos anos cobra agora o seu preço. Por tudo isso, a China está no epicentro das negociações sobre mudança climática.

Cenas de chineses com máscaras nos rostos, andando em ruas escuras, com o ar pesado e cinzento, já são comuns de se ver na televisão e em fotos. Quando a poluição atmosférica passa dos limites, escolas são fechadas e as crianças ficam em casa. Ônibus são retirados de circulação. A visibilidade nas ruas não ultrapassa alguns poucos metros. Em novembro do ano passado, um caso comoveu os chineses: uma menina de oito anos, da província de Jiangsu, perto de Xangai, foi diagnosticada com câncer de pulmão. O doutor Feng Dongjie, médico que a atendeu (o nome da garota foi mantido em sigilo), atribuiu a doença à poluição atmosférica de Jiangsu, que abriga muitas das maiores indústrias exportadoras de equipamentos eletrônicos, químicos e têxteis do país.

A menina foi a mais jovem habitante da China a receber o diagnóstico de câncer de pulmão. A notícia tornou-se viral na internet e foi publicada depois nos jornais do país, inclusive pelo “Diário do Povo”, do Partido Comunista. O câncer de pulmão é a principal forma dessa doença na China. Em apenas um hospital de Nanjing, a capital de Jiangsu, pacientes com câncer de pulmão costumam ocupar quase metade dos leitos do centro de cirurgia torácica.

Há uma média de 270 protestos diários no país (com mais de 100 pessoas cada um), segundo estudo divulgado neste ano pela Academia de Ciências Sociais da China. As principais razões que fazem os chineses saírem de suas casa para arriscar a pele em manifestações de rua sob um regime autoritário são a poluição ambiental, a corrupção e a aquisição forçada de terras, geralmente para projetos industriais. As emissões per capita de dióxido de carbono da China ultrapassaram as da União Europeia pela primeira vez.

A média mundial é de 5 toneladas por pessoa. A China hoje produz 7.2 e a UE emite 6.8 toneladas per capita. Já os EUA são os campeões, com 16.5 toneladas por pessoa. Os emergentes têm muitos desafios pela frente. Há 291 cidades de médio porte nesses países com populações entre um milhão a 10 milhões, de acordo com relatório do Projeto Nova Economia Climática.

A renda per capita dos habitantes dessas cidades varia entre US$ 2 mil e US$ 20 mil. Esses aglomerados urbanos serão responsáveis por mais de 25% do crescimento da renda global e mais de um terço do aumento de emissões relacionadas com energia nas próximas duas décadas. O Plano de Urbanização da China, divulgado em março, com validade até 2020, sinalizou uma forte mudança na direção de um caminho urbano alternativo, diminuindo as aglomerações nas cidades.

A defesa do meio ambiente na China não é mais um discurso de verdes. É de todos. Protestos semelhantes aos de Hangzhou tem obrigado as autoridades chinesas a mudarem seus planos. Os líderes políticos e empresariais já reconhecem que se construírem cidades melhores, terão um crescimento mais forte no futuro e a aprovação da população. Sabem que se ignorarem a proteção ecológica vão aumentar os conflitos internos que os deixam vulneráveis. Por isso, a China passa por uma radical mudança de suas políticas, investindo em tecnologias renováveis. O caso das tensões ambientais da China mostra que o que dirige as políticas relacionadas à mudança climática são as pressões internas sobre os governantes.

Paul Gilding, do Programa de Sustentabilidade da Universidade de Cambridge, autor do livro “A Grande Ruptura: como a crise climática vai acabar com o consumo e criar um novo mundo” (2011), diz que vamos assistir uma batalha competitiva interessante entre a China e os Estados Unidos nos projetos de inovação e de tecnologia. “A China agora está se dedicando a construir uma economia com baixa intensidade de carbono. Eles (chineses) querem salvar o mundo? Não, querem possuí-lo”, afirma Gilding, que foi diretor do Greenpeace Internacional.

Apesar de os EUA terem vantagem em sua história de sucesso em inovação e tecnologia, a China tem assumido a dianteira nesse processo, diz ele. “Nos últimos anos, a China vem tomando decisões cada vez mais incisivas no sentido de forçar mudanças de orientação ambiental em sua economia”, constata o autor. Os Estados Unidos, observa ele, estão sobrecarregados com custos militares. Gilding se pergunta o que acontecerá caso a maior economia do mundo fique “à deriva” na corrida das novas tecnologias energéticas.

Últimas de _legado_Notícia