Por bruno.dutra

Nos últimos anos, estes cinco países (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) contribuíram para mudar o mapa da educação no mundo, levando milhões de crianças, adolescentes e jovens para escolas e universidades, constatou um relatório recente da Unesco. Mas os países emergentes estão apenas no início de uma longa jornada. Eles encaram desafios imensos nesta seara. Quantitativamente conquistaram muito, mas em termos qualitativos há muito chão pela frente.

Dois deles, China e Índia, têm tradição milenar em educação e sonham recuperar o seu passado. A universidade budista de Nalanda (hoje no estado indiano de Bihar), fundada no século V, antecedendo em 600 anos a Universidade de Bolonha (Itália), era um dos principais centros de ensino daquela época: abrigava 10 mil alunos que vinham de várias partes do mundo. Sobreviveu até o século X.

O sucesso emergente depende em boa parte da melhoria do nível educacional de suas populações. Afinal, que crescimento pode ser sustentado sem mão-de-obra qualificada? Todos os países do Brics reconhecem que precisam se esforçar mais para terem uma educação de qualidade. Irina Bokova, diretora-geral da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), observa que ao trabalharem juntos pela melhoria da educação, o Brics semeia o terreno para o crescimento. A organização lançou no dia 22 de setembro o relatório “Brics: Construindo a Educação para o Futuro: prioridades para o desenvolvimento e para a cooperação internacional”.

O relatório mostra que os cinco países hoje têm um sistema escolar capaz de incluir todas as suas crianças. Isso não significa que todas elas completam a educação primária ou se matriculam no momento certo. Na Índia, que entre os Brics é o país com piores indicadores sociais, uma em cinco crianças estavam fora da escola em 1999. Hoje, o país tem praticamente todas as suas crianças matriculadas. Com 137.7 milhões de alunos (dados de 2011), a Índia tem o maior sistema de ensino primário do mundo. Na educação secundária houve um grande avanço em todos os países, embora menos abrangente do que na educação primária.

Mas em relação ao nível superior, o desenvolvimento está em um estágio inicial nos países do Brics, com exceção da Rússia. De qualquer forma, o total de universitários aumentou radicalmente. Entre 1999 e 2012 , o número de estudantes do ensino superior quintuplicou na China, praticamente triplicou no Brasil e na Índia, e mais do que dobrou na África do Sul. Em 2012, dos estudantes matriculados em universidades do mundo todo, 39% vinham da China, da Índia, da Rússia e do Brasil. Mas apesar dessa expansão, apenas uma em cinco pessoas na Índia e uma em quatro na China frequentam a universidade.

O problema da qualidade persiste. Muitas “fábricas de diploma” se proliferaram na Índia, por exemplo. O resultado é a baixa taxa de aproveitamento dos que obtêm diploma. Em 2012, havia 1.5 milhão de vagas para estudantes de Engenharia, quase quatro vezes mais do que em 2000. Mas 75% dos formandos saíam com um preparo tão fraco que não eram aproveitados no mercado de trabalho.

O relatório da Unesco afirma que boa parte do progresso ocorrido na área se deu pelo fato de todos os países do Brics terem dado prioridade à educação. Mas o próprio ritmo acelerado de crescimento nos últimos anos representou um desafio, exigindo dos países presteza na tentativa de melhorar a educação de sua população. Entre essas iniciativas recentes, a Unesco cita, no caso brasileiro, a lei que prevê a destinação de 75% dos royalties do petróleo para o investimento na educação.

Neste ano, a Índia aprovou uma lei pela qual empresas que atinjam um certo patamar de patrimônio líquido, volume de negócios e lucro líquido sejam obrigadas a investir pelo menos 2% de seus ganhos em atividades sociais, incluindo a promoção da educação. A China e a Rússia criaram vários programas para investir em educação pré-primária, reformando jardins de infância e dando incentivo financeiro para famílias matricularem seus filhos desde pequenos.

“Houve um progresso fenomenal nessa área nos últimos anos”, constata Bokova. Porém as desigualdades em meio ao crescimento emergente fazem com que haja disparidades entre as escolas: as crianças mais pobres amargam baixa qualidade educacional. E isso acontece apesar de os investimentos serem cada vez maior em todos os países. O estudo da Unesco mostra que o Brasil é o segundo país que gasta maior cota do Produto Interno Bruto (PIB) em educação entre os cinco principais emergentes.

O investimento era de 5,8% do PIB em 2012. Em primeiro lugar, está a África do Sul, com 6.6%. Em terceiro, a China (3,7%), seguida da Índia (3.4%) e da Rússia (4.1%). As cotas do PIB investidas em educação na Índia e na China são baixas , mas isso é compensado pelo alto nível de produção desses gigantes asiáticos.“Os investimentos devem focar a qualidade e não a expansão do sistema educacional”, alerta a Unesco.


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