Por bruno.dutra

Com pleitos em sete países (quatro no primeiro semestre e três no segundo), o continente vive um de seus momentos políticos mais produtivos. Apenas 2006 foi mais agitado, com 10 eleições presidenciais em 18 países. Mas após uma década de forte crescimento, a região encara uma complicada combinação de desaceleração de suas economias e aumento das expectativas sociais. A nova safra de governos terá de atender a essas demandas. Há uma classe média cada vez maior, alavancada pelo crescimento econômico dos últimos dez anos, mas ela passa a exigir mais de seus políticos e está descontente com a qualidade dos partidos. Os pobres, cada vez mais conscientes, reivindicam, por sua vez, o aprofundamento de programas sociais.

O mês de outubro concentrou três eleições na América do Sul: Bolívia (no dia 12), Brasil (nos dias 5 e 26) e Uruguai (no dia 26 e provavelmente um segundo turno no dia 30 de novembro). O boliviano Evo Morales teve uma reeleição fácil, com mais de 60% dos votos. Morales é o governante senior do continente hoje, tendo assumido em 2006. O êxito nas urnas, com seu grande capital simbólico, foi resultado de uma gestão econômica exitosa, de maciços investimentos em programas sociais que têm mudado radicalmente (e para melhor) a sociedade boliviana, e da adoção de um discurso menos polarizador e mais inclusivo, que resultou na ampliação de seu leque de apoio.

O Uruguai e o Brasil vivem cenários semelhantes, com eleições acirradas. Se o Brasil define seu destino no domingo, o Uruguai, coincidentemente no mesmo dia, terá o seu primeiro turno. As pesquisas indicam que o candidato governista, o ex-presidente Tabaré Vazques (2005-2010), da Frente Ampla do presidente Pepe Mujica, e seu rival Luis Lacalle Pou se enfrentarão novamente no dia 30 de novembro. Mujica tornou-se famoso no mundo após lutar por bandeiras polêmicas e progressistas que muitos outros políticos de esquerda não têm coragem de levantar: aprovou a lei da maconha, do aborto e do casamento gay.

O festival democrático latino-americano deste ano começou em El Salvador, em março, com a eleição de Sánchez Cerém, ex-guerrilheiro da Frente Farabundo Martí para Libertação Nacional (FMLN). No mês seguinte foi a vez de a Costa Rica ir às urnas, elegendo o candidato de centro-esquerda Luis Guillermo Solís. Em maio os panamenhos escolheram o centro-direitista Juan Carlos Varela, vice-presidente do país, mas que rompeu seus laços com o presidente Ricardo Martinelli, mais à direita.

Depois foi a vez da Colômbia, um dos países que mais crescem no continente, mas que ainda amarga a existência de uma guerrilha que já dura décadas. E foi justamente o tema das negociações de paz com os guerrilheiros que pegou fogo na campanha, com o presidente Juan Manuel Santos, candidato à reeleição, investindo nessa proposta para tentar tirar o país do impasse. Foi difícil para Santos, de centro-direita, mas ele conseguiu se reeleger derrotando por pouco o candidato da oposição ultra-direitista Oscar Iván Zuluaga, que fez oposição dura às negociações de paz. No ano que vem será a vez da Argentina ir às urnas. Se todos os países mantiverem seus calendários políticos, a próxima grande temporada de eleições será em 2018, quando seis países (incluindo Brasil) vão realizar pleitos presidenciais.

No último dia 14, o Instituto Brookings, um centro de pesquisas de Washington, organizou um painel sobre o momento que a América Latina vive hoje e sua perspectiva política. Arturo Valenzuela, professor de governo da Universidade Georgetown, lembrou que após o crescimento das economias latino-americanas, as expectativas atingiram altos níveis. A expectativa é de que o PIB da região cresça a menos de 2% este ano. Sua avaliação é de que a região está numa encruzilhada para consolidar os maiores ganhos da década passada. A forma como serão encarados os vários desafios que virão pela frente vai moldar o futuro da região nos próximos anos e desta safra de governos latino-americanos. Vivemos um dos melhores momentos da América Latina – o período mais longo de governos democraticamente eleitos.

De 1930 a 1980, 42% de todos os governos latino-americanos mudaram através de golpes militares, constatou Valenzuela. Nos anos 80, essa percentagem caiu para 20%. Mas continua a haver uma grande diferença de consolidação das instituições democráticas na região, com o caso da Venezuela de Nicolás Maduro despontando como uma grande preocupação.

Kevin Casas-Zamora, secretário de Assuntos Políticos da Organização dos Estados Americano(OEA) ressalta que pesquisas recentes mostram que mais da metade dos cidadãos da região não são nem de esquerda, nem de direita. A opinião pública está cada vez mais crítica em relação a legendas, aos sistemas partidários extremamente fragmentados. Casas-Zamora diz que um dos fatores que explica essa fraqueza partidária, é que a sociedade civil está muito mais forte na região, com redes sociais que mudam profundamente a natureza da representação política na América Latina.

Os partidos políticos não foram capazes de aproveitar essa onda. A classe média nunca foi tão grande no continente. Pela primeira vez este segmento é maior do que os grupos de baixa renda. E é justamente essa categoria que demanda qualidade de serviços públicos. Por tudo isso, a América Latina tem renovado seu interesse por um tema fundamental para a sua saúde democrática: as reformas políticas.

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