Por bruno.dutra

Wu Ping desembarcou na China no início de setembro, acompanhado de quatro policiais chineses. Ele havia se refugiado na Colômbia depois de ter comprado, em seu país, mercadorias no valor de US$ 650 mil sem ter dinheiro para pagá-las. Sua prisão e deportação foi resultado de uma operação conjunta entre a polícia colombiana e a da província de Zhejiang, no Leste da China. Ping é um dos primeiros chineses acusados de cometer delitos econômicos que foi deportado da América Latina nesta cruzada anti-corrupção patrocinada pelo presidente chinês Xi Jinping, segundo o jornal colombiano “El Espectador”, que traz a história de Ping em um artigo publicado na edição do dia 12 de outubro.

Wu, no entanto, é cachorro pequeno, como observa o próprio diário colombiano. Ou, como se diz na China do presidente Xi Jinping, ele é uma “mosca”. A guerra chinesa contra a corrupção, no entanto, pretende caçar também muitos “tigres”. Delitos econômicos de grande porte vem sendo cometidos por altos funcionários do aparato estatal e por empresários milionários que surgiram nos últimos anos. Vários peixes grandes desaparecem do país sem deixar rastro e o governo chinês tem lançado a sua rede para capturá-los. Um dos argumentos favoritos dos advogados dos fugitivos econômicos para escapar da deportação é que na China os direitos humanos não são respeitados. Por isso, a integridade física dos seus clientes ficaria ameaçada se retornassem ao país de origem.

A captura aos corruptos no exterior está sendo intensificado sob o governo de Xi Jinping, que batizou as operações de “Caça às Raposas”: a identificação dos fugitivos econômicos, a sua localização no exterior e sua repatriação com a ajuda da comunidade internacional. Uma das promessas que fez ao assumir o poder em 2012 foi a de combater a corrupção. As prisões feitas nos últimos meses sinalizam que ele procura mostrar aos cidadãos chineses que está começando a cumprir o que prometeu.

A caça aos corruptos vem acontecendo à chinesa: com a humilhação pública, especialmente dos presos mais famosos. A mídia do país cobre casos desde pequenas sardinhas, como Wu Ping, até os de tubarões expurgados do Partido Comunista Chinês (PCC), por caírem em desgraça. O caso mais espalhafatoso foi o de Bo Xilai, ex-ministro e ex-dirigente do partido, que chegou onde chegou por ser filho de um revolucionário camarada de Mao Tse-Tung durante os anos da revolução.

Bo Xilai foi prefeito da cidade de Dalian e governador de Liaoning, província no Nordeste da China. Ele ampliou os programas sociais e propagandeava o que ficou conhecido como “Modelo Chongqing”, uma série de políticas econômicas e sociais adotadas naquela cidade, de onde ele foi secretário do PCC. Por essas e outras virou o queridinho de expoentes da chamada “nova esquerda chinesa” (de maoistas a social-democratas), desiludida com a economia de mercado e o crescimento da desigualdade. Ele ganhou muita projeção e há quem diga que isso teria sido a razão maior de sua desgraça: ele foi acusado de embolsar propinas de empresários no valor de US$ 3,56 milhões. Mas sua história parece cabeluda: sua mulher foi acusada de matar o empresário britânico Neil Heywood.

O caso teve repercussão internacional. O governo chinês queria exposição máxima de seus acusados de corrupção e em agosto o julgamento de Bo Xilai foi acompanhado minuto a minuto pelos internautas plugados no Weibo, o Twitter local. A foto de Bo Xilai algemado, ao lado de dois policiais, tirada por um fotógrafo da agência Xinhua, ganhou um prêmio nacional. As humilhações públicas na China são uma forma de punição muito antiga, mas ficaram famosas durante os anos da Revolução Cultural de Mao-Tse-Tung (1966-1976). Os acusados, muitos deles perseguidos políticos, eram obrigados a desfilar nas ruas. Na China antiga era punição comum raspar barba, cabelo e bigode do criminoso. A atitude era inspirada nas ideias de Confúcio de que os atributos físicos de uma pessoa, por serem heranças dos seus pais, são praticamente sagrados.

Nesta semana, o general Xu Caihou, 71 anos, batizado de “o grande tigre militar”, ex-vice-chefe da Comissão Militar Central, reconheceu ter aceitado “maciças propinas” e agora também enfrentará os tribunais e provavelmente a humilhação pública. Outro peixão que caiu na rede de Xi Jinping foi Zhou Yongkang, ex-chefe da Segurança Pública do país, o equivalente ao cargo de diretor da CIA. Desde que assumiu o poder, em 2012, Xi Jinping já caçou 30 “tigres”. Em 2013, os tribunais de justiça chineses julgaram 23 mil casos de corrupção, segundo a comissão disciplinar do PCC.

A campanha anti-corrupção é a aposta mais ousada do presidente chinês, que ao mesmo tempo promete tocar importantes reformas na economia do país. Na semana passada, a 18ª Plenária do Comitê Central do PCC tomou uma série de medidas para reforçar o Sistema Judicial do país. Um artigo publicado na quinta-feira (30) pelo jornal “Diário do Povo”, ligado ao partido, dizia, que o mundo, depois de “ter reconhecido o modelo econômico de desenvolvimento chinês”, vai “reconhecer o Estado de Direito socialista com características chinesas”. Resta saber quais são exatamente estas características.

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