O desafio das Durgas

A maior manifestação da desigualdade de gêneros na Índia é a preferência avassaladora por filhos homens: é muito comum o aborto de fetos femininos

Por O Dia

No calor de mais de 40 graus do verão de Nova Délhi, um casal entra em um táxi. O homem pede para o motorista parar em frente a um caixa eletrônico onde ele ia pagar uma conta. A mulher fica dentro do carro esperando. O homem abre a porta do carro, diz que volta em cinco minutos. O motorista imediatamente desliga o ar-condicionado. Ignora a mulher que está ali no banco de trás. Afinal, a ordem do dono do ponto de táxi era de economizar o ar-condicionado quando os clientes não estivessem dentro do veículo. Para o motorista, a mulher era invisível.

No mesmo dia, a mulher é apresentada pelo marido a um colega, a quem ela faz algumas perguntas. Ele responde. Mas sempre olhando para o marido dela. Demora um pouco para se acostumar com a invisibilidade. Mas com o tempo se aprende que é melhor ser ignorada do que ser agredida.

Há dois anos a Índia se destaca no noticiário internacional pelas notícias sobre violência contra a mulher, desde o violento estupro coletivo de uma moça em um ônibus na capital indiana, na noite de 16 de dezembro de 2012, que resultou na morte dela: os agressores a penetraram também com um bastão de metal, arrebentando seus intestinos. A ira popular fez com que o governo mudasse a lei, tornando-a mais rígida.

Dois anos depois, mais notícias de assédio e estupros revoltam os indianos. No início deste mês um vídeo tornou-se viral na Índia e no exterior: o de duas irmãs, Arati e Pooja, assediadas por homens dentro de um ônibus reagindo e atacando seus agressores. As duas contaram que ninguém no ônibus tentou ajudá-las.

Alguns dias depois, uma mulher acusa um motorista de um dos táxis do serviço online americano Uber de tê-la estuprado, o que levou o governo a cancelar a licença de funcionamento de todas as empresas deste tipo em Délhi. Isso porque constatou-se que o motorista já havia cometido o mesmo crime duas vezes antes, mas havia sido liberado. E para ganhar o direito de entrar para o serviço, comprou um atestado falso de que não tinha antecedentes criminais.

“O serviço online de táxis Uber serve melhor a mulher urbana indiana do que o governo”, constatou o jornalista indiano Manu Joseph, autor do romance “The Illicit Happiness of Other People”, em um artigo que escreveu nesta semana para o “The New York Times”. O maior aliado do estuprador, diz Manu, é a autoridade governamental corrupta.Manu conta que nos últimos meses as mulheres estavam entusiasmadas com o aplicativo. As moças acreditavam que podiam voltar para casa de noite, em segurança, coisa que normalmente só é possível se ela está em um carro particular na companhia de um homem de confiança. Após o anoitecer, as mulheres em Nova Délhi que tomam táxis comuns, ônibus, metrô, ou riquixás, se arriscam.

Ainda há uma percepção de que as mulheres são cidadãs de segunda classe na Índia, onde ironicamente se reverencia deusas poderosas, como Durga. A maior manifestação da desigualdade de gêneros na Índia é a preferência avassaladora por filhos homens: é muito comum o aborto de fetos femininos. Em alguns vilarejos do norte da Índia, hoje, a falta de mulheres obriga homens solteiros a “importa-las” de outros estados ou de países vizinhos. As filhas, quando se casam, tradicionalmente abandonam as casas dos pais e “migram” para a família dos maridos. Mais tarde vão tomar conta dos sogros: todo o investimento financeiro com a educação, alimentação e saúde da filha, raciocinam muitos, é perdido. Criar uma filha, diz um velho ditado indiano, é como “regar o jardim do vizinho”. Nas cerimônias de casamento, o sacerdote hindu repete à mulher a prece milenar: “Que você seja mãe de 100 meninos”.
 
Mas o problema é complexo. As mulheres indianas vivem em vários séculos ao mesmo tempo. Há as privilegiadas da elite: cientistas, advogadas, escritoras, diretoras de bancos e executivas de multinacionais. Elas cresceram ouvindo histórias de suas avós, que saíam às ruas, chamadas pelo líder pacifista Mahatma Gandhi, para protestar contra a dominação britânica, enquanto seus maridos mofavam na cadeia. E há as Dalits (“oprimidas”, na base da pirâmide de castas), e as indígenas, vítimas preferenciais da violência sexual cometida por homens de castas altas na Índia rural. Mas mesmo entre elas, há as que abandonaram seus vilarejos e pegaram em armas.

Umas entraram para a guerrilha maoista. Outras formaram gangues, como a famosa Phoolan Devi, cuja vida virou um filme belíssimo (“Rainha Bandida”, 1994, do cineasta Shekhar Kapur): uma mulher de casta baixa que foi estuprada por dezenas de homens de casta alta e se vingou. Ela matou todos eles. Em 2007, outra mulher de casta baixa virou notícia ao formar a “Gangue de Rosa”, porque todas vestem saris desta cor: com bastões, elas espancam homens que agridem mulheres.

Hoje, na Índia globalizada, novos empregos em call centers atraem cada vez mais mulheres, que só voltam para casa de noite. A presença crescente delas no espaço público, antes território exclusivo dos homens, provoca reações violentas. A silenciosa revolução feminina na Índia apenas começou.

Últimas de _legado_Notícia