Por diana.dantas

Em uma entrevista recente, Olivier Dabène, presidente do Observatório Político da América Latina e do Caribe (Opalc), comentou que o histórico dia 17 de dezembro, quando os presidentes dos Estados Unidos, Barack Obama, e de Cuba, Raúl Castro, anunciaram que iriam derrubar o muro entre os dois países, marcou mais do que o fim do último resquício de Guerra Fria nas Américas. Foi o sinal do que o estudioso chamou de “o grande retorno" de Washington à América Latina após anos de distanciamento. Em meio ao aumento da influência chinesa na América Latina, os EUA tentam mudar a dinâmica das suas relações com a região, que sempre teve um grande buraco: Cuba. Obama e Raúl já têm o seu primeiro encontro marcado: será daqui a pouco mais de dois meses, no Panamá.

A Cúpula das Américas, nos dias 10 e 11 de abril, atrairá os holofotes da mídia internacional como nunca antes. Este será o primeiro foro interamericano no qual os presidentes americano e cubano comparecem após 54 anos de rompimento de relações diplomáticas. Cuba nunca participou, já que a Cúpula das Américas é ligada à Organização dos Estados Americanos (OEA), da qual Havana foi excluída em 1962. Na Cúpula das Américas de 2012, Washington estava isolado, com os governos latino-americanos ameaçando boicotar novos encontros se Cuba continuasse sendo impedida de participar.

Nesta semana, San José, na Costa Rica, sediou a 3ª Cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), sobre o qual a China já exerce forte influência, a ponto de ter organizado, no início de janeiro, em Pequim, um encontro para inaugurar uma plataforma de diálogo com esta organização. A Celac foi criada em 2011, por impulso do falecido líder venezuelano Hugo Chávez e surgiu de um processo de afirmação política regional frente a Washington. A organização, que abriga 33 países, com um total de 600 milhões de habitantes, já iniciou um processo de aproximação com a União Europeia, e não inclui os EUA e o Canadá. Os diálogos UE-Celac e China-Celac pressionam os EUA para que mudem sua defasada política com relação à região.

Na Costa Rica, os líderes celebraram duas vitórias: as aproximações dos EUA com Cuba e da China com toda a região. A China, maior importadora de commodities do planeta, prometeu duplicar o intercâmbio comercial com a região e investir US$ 250 bilhões na próxima década. Hoje, o Banco de Desenvolvimento da China investe mais dinheiro na região do que o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento, lembrou Kevin Gallagher, professor de Políticas de Desenvolvimento Global da Universidade de Boston.

Quase que paralelamente à cúpula da Celac, o vice-presidente dos EUA, Joe Biden, era o anfitrião, em Washington, da Cúpula Caribenha de Segurança Energética, nos dias 25 e 26. Lá, Biden prometia aos governantes do Caribe que o seu país fará tudo para ajudá-los a investir em seus setores energéticos, especialmente em opções como fontes fotovoltaicas e eólicas.

A disputa geopolítica está no auge, revertendo previsões como a que o Observatório Político da América Latina e do Caribe (Opalc) fez recentemente, de que a região sofreria de “uma surpreendente fraqueza da diplomacia regional”. Em abril, na Cúpula das Américas, Obama vai procurar ocupar um espaço vazio na América Latina e no Caribe que hoje não tem mais um grande líder, como o ex-presidente Lula, que mediou vários conflitos. A tarefa é difícil porque os EUA têm um imenso déficit de confiança, devido ao seu histórico de apoio a golpes e a ditaduras militares.
Na segunda-feira, Fidel Castro, que hoje, aos 88 anos, está aposentado e não é visto em público há mais de um ano, divulgou uma carta na qual apoia a aproximação com os EUA, mas fez uma ressalva: a de que não confia no antigo rival. Curiosamente, a última vez que Fidel foi visto em público foi em fevereiro de 2014, justamente durante visita do presidente da China, Xi Jinping.

Durante a Celac, Raúl mandou o seu recado para Obama: que se esforce ao máximo para conseguir aprovar o fim do bloqueio em um Congresso dominado pelos republicanos; que tire Cuba da lista de países promotores de terrorismo; e que desocupe a base naval de Guantánamo, usada, entre outras coisas, para torturar suspeitos de terrorismo. O bloqueio a Cuba foi um bom pretexto para os latino-americanos desenvolverem um regionalismo sem os EUA, e a aproximação da China contribuiu ainda mais com isso. Se Obama não pode sozinho suspender o embargo, ele pode esvaziá-lo. Retirar Cuba da lista de países que apoiam o terrorismo é extremamente importante porque isso abre possibilidades novas para que a ilha seja candidata aos empréstimos do Banco Mundial.

Guantánamo, que os EUA ocupam desde 1903, também é um ponto importante no difícil processo de degelo, após tantos anos de inimizade. Os EUA pagam um aluguel simbólico de pouco mais de US$ 4 mil por ano pela polêmica base naval onde o governo de George W. Bush construiu o famoso centro de detenção e tortura. Por mais de cinquenta anos, Havana recusou aceitar o dinheiro do aluguel porque não reconheceu a legitimidade do acordo feito entre o governo cubano, antes da revolução, e os EUA. A conquista da confiança exige medidas concretas.


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