Quando US$ 15 mil valem bilhões

Além de lutar contra a cultura do V.I.P (Very Important Person), o Partido do Homum Comum promete serviços públicos baratos ou de graça para os mais carentes, como água, eletricidade e até Wi-Fi

Por O Dia

Os britânicos costumavam ironizar Mahatma Gandhi chamando-o de o “faquir nu”. Era uma referência ao “dhoti” que ele usava, um pedaço de pano de algodão branco que ele enrolava nas pernas , típico dos camponeses indianos. No início de sua carreira como advogado, Gandhi chegou a vestir ternos bem cortados, hábito que ele adquiriu em seus tempos londrinos. Mas o líder pacifista que ajudou a conquistar a independência de seu país era um carismático mestre da comunicação e entendia muito bem que o simbolismo na Índia é vital. Desde então, os políticos indianos seguiram seu exemplo. Mesmo os mais corruptos (e olha que há muitos) vestem-se de forma simples.

Quem entra no Parlamento não vai encontrar gravatas, resquícios dos colonizadores britânicos. Só quem faz negócios usa esse assessório ocidental. O plenário é coberto de branco, símbolo da simplicidade (embora os políticos indianos, como em vários outros lugares do mundo, estejam enriquecendo cada vez mais na política). Mas mesmo assim eles jogam o jogo da simbologia gandhiana e usam roupas típicas, sejam kurtas (túnicas compridas) ou lunghis, espécies de sarongs ou saias compridas amarradas na cintura que os homens vestem do sul da Índia. Em seus pés, sandálias ou chinelos. Até mesmo o ex-ministro das Finanças da Índia vestia-se com uma lunghi e camisa brancas, com sandálias. Uma ex-ministra da Ferrovia, hoje ministra-chefe do estado de Bengala Ocidental, só se cobre com saris de algodão e chinelos de dedo de borracha. Sinais de vaidade e de exibicionismo são um não-não na terra de Gandhi.

Quem tenta atropelar essa tradição, cai com a cara no chão. O primeiro-ministro Narendra Modi tentou ignorar isso e ainda está com curativos no rosto, tentando se levantar de seu maior tombo político: o massacre nas eleições da Assembleia de Délhi, estado importante por abrigar a capital do país e ser o centro político da Índia. O resultado, divulgado na terça-feira, foi uma espécie de terremoto que chacoalhou o chão dos partidos tradicionais indianos. O novo Aam Admi (Partido do Homem Comum), do ativista anti-corrupção Arvind Kejriwal, conquistou 67 das 70 cadeiras da casa, atropelou o BJP de Modi e o Congresso da dinastia Nehru-Gandhi (neste caso, o sobrenome Gandhi não tem nada a ver com o do Mahatma). Além de lutar contra a cultura do V.I.P (Very Important Person), o Aam Admi promete serviços públicos baratos ou de graça para as comunidades mais carentes, como água, eletricidade e até Wi-Fi. Foi apelidado de “Syriza indiano”, por ser também, como a legenda grega, um partido anti-establishment. Kejriwal, que no inverno protege a cabeça com um cachecol, no estilo dos motoristas de riquixás, e têm como símbolo uma vassoura, para varrer a corrupção, têm conquistado os indianos.

Mas o que as roupas têm a ver com isso? Tudo. Modi cometeu um pecado em seus nove meses no poder: deixou-se dominar pela vaidade extrema e se preocupou mais em exibir-se do que em cumprir as promessas feitas, como a melhoria real da carcomida infraestrutura do país. Durante a campanha eleitoral, Modi se projetou como filho de um chaiwallah (vendedor de chá), um indiano simples de casta baixa, e que apesar disso havia conseguido transformar seu estado, o Gujarat (o mesmo de Mahatma Gandhi) liderando um milagre econômico com sua agenda de desenvolvimento e trabalho duro durante 12 anos como ministro-chefe. O eleitorado comprou a história de Modi. Em um país onde milhões estão desesperados para sair da pobreza, o simbolismo de um filho de um chaiwallah liderar a nação capturou a imaginação do povo. Mas hoje, os indianos parecem desconfiar de que era “para inglês ver”. O tempo dirá.

Modi continua usando o simbolismo no poder, mas da forma errada. No dia 25 de janeiro, o primeiro-ministro indiano recebeu o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, para um chá nos jardins da Casa Hyderabad, em Délhi, local que costuma abrigar as visitas ilustres. Enquanto Modi contava a Obama histórias sobre a “vida difícil” que teve quando criança, os fotógrafos perceberam algo incomum: as riscas de giz douradas do terno azul escuro de Modi eram na verdade inscrições minúsculas de seu próprio nome. Mesmo antes de Obama voltar para casa, a foto de Modi com o terno “egocêntrico” já tinha se tornado viral na internet, com os jornais nacionais e internacionais divulgando a imagem. Feito em Londres, segundo a mídia, o terno teria custado US$ 15 mil, mais de dez vezes o ganho anual de um indiano médio. Provavelmente Modi queria enviar a mensagem de que tinha chegado à cena internacional, tomando chá com o homem mais poderoso do mundo. A veste de US$ 15 mil correu a boca do povão, especialmente nos locais onde água potável e toaletes são um luxo. O terno transformou-se em um poderoso símbolo da vaidade extrema do primeiro-ministro.

No ano passado, Modi tinha feito aparições no estilo de estrelas de rock no Madison Square Garden em Nova York, em Sydney e Melbourne, na Austrália. Tudo organizado pelos ricos indianos no exterior que idolatram Modi, por considerá-lo um líder que promove a imagem da “Índia rica e que chegou no cenário global”. Modi é o queridinho do mercado e dos bilionários, o líder que eles acreditam que fará a Índia voltar a crescer a quase dois dígitos. Mas Modi parece não ter entendido a lição de Gandhi. Na simbologia política, US$ 15 mil podem valer bilhões.

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