O ano do poder brando

O “poder brando” chinês, ainda é bastante limitado. Mas os milenares chineses sabem que os resultados mais duradouros são semeados com bastante antecedência

Por O Dia

O ano novo chinês fez manchetes pelos números gigantescos de deslocamento de chineses dentro do país e pela polêmica sobre se este é o ano do carneiro, da cabra ou da ovelha. Mas um dos fatos mais importantes sobre este evento é o uso, por Pequim, dessa festividade, comemorada no mundo todo, para impulsionar o seu “soft power”. É o chamado “poder brando” que influencia outros, mas nunca é imposto pela força.

Quanto à polêmica sobre que animal representa o ano de 2015, que começou ontem (quinta-feira, 19), vale explicar que a confusão acontece devido ao caractere chinês “yang” que se refere a um dos 12 signos do zodíaco. Este caractere pode significar os três animais. Por serem submissos e criados para serem abatidos para o consumo, estes animais trazem um significado não auspicioso. No calendário lunar chinês, a cabra (ou carneiro, ou ovelha) está na oitava posição. As pessoas nascidas em 1919, 1931, 1943, 1967, 1979, 1991 ou 2003 são deste signo.

Quanto ao“poder brando” chinês, ele ainda é bastante limitado. Mas os chineses, com seu conhecimento milenar, sabem que os resultados mais duradouros são semeados com bastante antecedência. Os planos de Pequim são todos de longo prazo. Um dos maiores investimentos do país em seu “poder brando” é na popularização do ensino do mandarim por meio dos institutos Confúcio espalhados em todo mundo, inclusive no Brasil. Esses centros de ensino da língua e da cultura, bancado pelos cofres de Pequim, se proliferam cada vez mais. O sucesso econômico da China já é bastante conhecido mundialmente. Já a sua cultura, ainda é um enigma para a maioria.

Até alguns anos atrás a cultura chinesa no Ocidente estava limitada às “Chinatowns”. Isso começa a mudar. Um exemplo: o novo uniforme do time americano de basquete Golden State Warriors é um símbolo da tentativa chinesa de potencializar o seu “poder brando”. Na camiseta, caracteres chineses e o desenho da grande muralha. Nas mangas, uma cabra.

O Golden State Warrior não foi adquirido por nenhum bilionário chinês. Esta é a forma que Pequim, através da NBA (National Basketball Association), encontrou para marcar no imaginário do cidadão americano comum, a comemoração do ano novo lunar chinês. O time é um dos primeiros da NBA a abrir uma conta no Weibo, a plataforma de mídia social chinesa, e também a ter um site em chinês.

A celebração do ano novo lunar, o mais importante e mais longo feriado do país, é global hoje. A intenção de Pequim é popularizá-lo a cada ano, propagandeando-o não só em eventos esportivos mas também em produtos de consumo do dia-a-dia, como bebidas. Há alguns anos o Empire State Building, em Nova York, é enfeitado, durante o ano novo chinês, com luzes vermelhas e amarelas da bandeira chinesa

Há cinco anos o ministério da cultura chinês começou a usar a sua mão-de-obra na organização de eventos espetaculares para marcar o ano novo lunar em todo o mundo. Para isso, tem feito parcerias com empresários e organizações culturais no exterior. Em 2010, foram organizadas 65 atividades em 42 países durante o ano novo chinês. Este ano, Pequim patrocinou 900 eventos em 119 nações.

Em Nova York, na Time Square, uma imensa tela mostrava nessa semana uma campanha publicitária da Budwiser feita na China: “Um brinde aos sonhos”, dizia a mensagem, referindo-se aos sonhos coletados na China em uma campanha de marketing da fabricante de cerveja.  A mesma tela mostrou ainda uma propaganda do show de gala televisivo que a China organiza sempre para comemorar o seu ano novo. O programa foi transmitido pela CCTV, a televisão chinesa estatal, no dia 18, durante quatro horas e meia, com shows de dança, música, mágica, acrobacia e piadas. Pela primeira vez a CCTV concedeu direito de transmissão para televisões estrangeiras. Mais de dez transmitiram o show em línguas das mais variadas, como o inglês, o alemão, o árabe, e até o português.

No ano passado o festival televisivo, um poderoso instrumento de propaganda do Partido Comunista Chinês, foi assistido por 814 milhões de pessoas. Pequim não mediu esforços para propagandear o maior feriado do país. Usou até mesmo as plataformas de mídia social, como Google, Youtube e Twitter, proibidas na China, para aumentar o alcance global da cobertura do festival.

Dentro da China a festa do ano novo é grandiosa. A tradição de visitar familiares provoca o maior deslocamento humano do mundo. Em 40 dias, período da comemoração, são feitas quase 3 bilhões de viagens de trem, carro, ônibus e avião. Durante esta festividade em 2014, que foi o Ano do cavalo, os consumidores chineses gastaram US$ 100 bilhões, o dobro do que os americanos desembolsaram no feriado do Thanksgiving, segundo o jornal britânico “The Guardian”.

O presidente Xi Jinping, que assumiu o poder em 2012, está determinado a transmitir ao mundo a imagem de uma China moderna e grandiosa. Mas para isso, é preciso explicá-la aos ocidentais. Foi isso o que ele disse no ano passado, em um discurso no qual ressaltou a importância de a China impulsionar o seu “poder brando”. As vozes da China, segundo ele, deveriam ser ouvidas mundo afora. Suas características, ressaltou o presidente, devem ser bem explicadas de forma a retratar a China como um país civilizado, com “histórica rica, unidade étnica e diversidade cultural”.

Mas como todos os países que desejam exportar o seu “poder brando”, a China encara obstáculos: os seus pontos negativos percebidos pela audiência externa. Assim como os EUA são mal vistos pelas suas operações militares que provocam vítimas em outros países, a China também têm um imenso telhado de vidro. Suas disputas territoriais e marítimas com os vizinhos não ajuda a popularizar a sua imagem. Tampouco as violações dos direitos humanos em casa, que inclui o uso do porrete contra minorias étnicas como os tibetanos e os uigures.

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