Por diana.dantas

A América Latina parece órfã ultimamente. Instabilidade política e econômica, ações repressivas, violência e corrupção assombram algumas de suas principais economias: a Venezuela de Nicolás Maduro, o México de Enrique Peña Nieto e a Argentina de Cristina Kirchner são os exemplos mais notáveis. E isso acontece em um momento em que, contraditoriamente, Estados Unidos e Cuba fazem história com sua reaproximação após meio século de Guerra Fria. Uma notícia que foi recebida com aplausos e que sinaliza um futuro promissor. Mas e quanto ao resto? A salsa e o tango estão desafinados.

Com a política externa do governo Dilma Rousseff mais do que apagada, a voz que mais se ouviu em meio à confusão venezuelana-mexicana-argentina tem sido a do veterano uruguaio Pepe Mujica, apelidado de o “presidente mais descolado do mundo”, por sua simplicidade. Mas ultimamente Mujica parece estar agoniado. Em novembro, ele provocou um abalo nas relações com o seu colega Enrique Peña Nieto ao afirmar que o México era um “Estado falido”, referindo-se à conivência de autoridades políticas e policiais com o narcotráfico, fato evidenciado pelo desaparecimento de 43 estudantes no estado de Guerrero, em setembro do ano passado. Eles foram entregues pelas forças de segurança local para serem trucidados por uma poderosa gangue de traficantes.

A situação dramática do México mereceu as atenções mundiais nesta semana durante a glamourosa cerimônia do Oscar, com o diretor mexicano Alejandro González Iñárritu, grande vencedor da noite com o filme “Birdman”, aproveitando o seu triunfo para denunciar a corrupção e impunidade em seu país. Em seu discurso de agradecimento, o diretor pediu que o país tenha enfim “o governo que merece” e depois da festa desabafou, dizendo-se angustiado: “A insatisfação, injustiça, corrupção, e impunidade atingiram níveis insuportáveis no México”. Desde segunda-feira a hashtag #ElGobiernoQueMerecemos é um tópico que lidera o Twitter no México, que muitos internautas usam para criticar o governo de Peña Nieto.

Outro país que vem angustiando o uruguaio Pepe Mujica é a Argentina, que, segundo ele, deveria acompanhar (a integração sul-americana) e “não acompanha porra nenhuma”, disse com sua habitual irreverência, referindo-se ao Mercosul. Em abril de 2013, Mujica havia sido flagrado, sem saber que seu microfone estava ligado, reclamando da teimosia extrema da presidente argentina. Quando surgiram as notícias de que o promotor Alberto Nisman — que investigou o atentado à AMIA em Buenos Aires, em 1994 — havia sido encontrado morto em seu apartamento, no mês passado, o que desencadeou mais uma crise política para o governo de Cristina Kirchner, Mujica desabafou novamente: “Sinto dor pela República da Argentina. Somos países gêmeos, que nasceram da mesma placenta. Quando a Argentina vai mal, nós também vamos mal. Façamos votos para que a Argentina saia deste trauma e desta dor”. Ele pediu prestreza à Justiça argentina no esclarecimento do caso para que sociedade possa manter a confiança nesta instituição. Ontem, quinta-feira, o juiz argentino Daniel Rafecas rejeitou a denúncia apresentada pelo falecido promotor contra Cristina, segundo a qual ela teria acobertado ex-governantes iranianos pelo atentado contra a associação judaica em troca de petróleo.

A caótica Venezuela é o caso mais preocupante e parece ter deixado os organismos latino-americanos — como Unasul, OEA, Celac e Alba — em estado de catatonia. Nesta semana, Mujica veio a público novamente para alertar para o perigo de tentativas golpistas de um extremo ou de outro no complicado palco venezuelano. Primeiro ele se referiu à parte mais radical da oposição, que poderia tentar derrubar o governo de Maduro. Depois, o uruguaio alertou para a possibilidade de um golpe de esquerda promovido por militares.

Maduro tem ordenado a prisão de líderes oposicionistas, inclusive a do prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, acusado por suposto crime de conspiração, o que provocou protestos de organismos de defesa dos direitos humanos, como a Human Right Watch. Perguntado sobre essa polêmica detenção, Mujica, um ex-guerrilheiro Tupamaro que foi preso político durante os anos da ditadura uruguaia, disse que “no geral nenhuma prisão me agrada”. Na Venezuela não há apenas escassez de produtos básicos. Há também uma falta crônica de diálogo e bom senso. E o pior é que os vizinhos, apesar de preocupados, não conseguem ajudar.

O presidente uruguaio termina amanhã, sábado, os seus cinco anos de mandato. No domingo, o experiente Tabaré Vázquez, que foi presidente do país pela mesma Frente Ampla antes de Mujica, assumirá o comando do país. Após sua posse, que servirá para discutir o drama latino-americano, Vázquez se reunirá com o vice-presidente americano Joe Biden, com o presidente de Cuba, Raúl Castro, e com o próprio Nicolás Maduro. Só resta rezar para que a nova conjuntura do continente consiga curar as feridas abertas da América Latina.

Você pode gostar