A ascensão da geoeconomia

O “New York Times” constatou que a promessa de investimento chinês “é de tal proporção que provavelmente confirma o declínio da influência americana no Paquistão”

Por O Dia

No próximo dia 28 de maio, a Chatham House, antes conhecida como Royal Institute of International Affairs, vai realizar o debate “China, Estados Unidos, e a ascensão da geoeconomia”. Os participantes vão discutir o contraste entre as duas maiores potências econômicas globais: enquanto a China exercita seus músculos econômicos em busca de objetivos geopolíticos, os EUA parecem ter esquecido o papel histórico da geoeconomia na política externa, diz o convite da ONG, com sede em Londres. Esta é uma “lição valiosa” que Washington precisa urgentemente reaprender, constata. Um exemplo bem atual desse cenário aconteceu nesta semana, quando o presidente chinês Xi Jinping visitou o Paquistão, onde assinou acordos de investimento no valor de US$ 45 bilhões nas áreas de infraestrutura e energia.

Xi desembarcou em Islamabad na segunda-feira (20) para uma visita de dois dias, a primeira de um presidente chinês em nove anos. Cartazes com fotos dele e do primeiro-ministro Nawaz Sharif e do presidente Mamnoon Hussain enfeitavam as avenidas da planejada Islamabad, construída para ser a capital paquistanesa nos anos 60. As fotos dos líderes simbolizavam o que foi batizado na Ásia de “Aliança Chipak”, que dá calafrios na vizinha e rival Índia.

Há muito tempo a China encara o Paquistão como um aliado leal, recompensando Islamabad com a venda de armas e de tecnologia nuclear para fins pacíficos. Incrivelmente, a visita do líder chinês foi cercada de um linguajar poético brega, um contraste com as duras relações entre o Paquistão e os EUA, pautadas pelo simples troca-troca e por muita tensão: Washington envia dinheiro e armas, e Islamabad abre seu território para as atividades anti-terrorismo, que inclui o uso de drones na fronteira com o Afeganistão, que provocam muitas mortes de civis e fazem os paquistaneses irem às ruas constantemente para protestar contra os americanos.

A ajuda de Washington a Islamabad inclui pagamentos de US$ 1,5 bilhão por ano desde 2010, mas isso não contribuiu para aquecer os laços. Os dólares foram canalizados para o exército paquistanês, a instituição mais forte do Estado. Mesmo assim a relação continua marcada pela desconfiança mútua, e os EUA são o país menos admirado pelos paquistaneses, segundo pesquisas de opinião.

Já a relação com a China foi celebrada nesta semana com frases como “uma amizade mais alta do que as montanhas, mais profunda do que os oceanos e mais doce do que mel”. Antes de deixar Pequim, Xi disse que se sentia como se estivesse indo “visitar a casa de seu próprio irmão”. Impossível pensar em um Barack Obama dizendo o mesmo.... Islamabad reagiu à camaradagem do líder da segunda maior economia do mundo enviando uma frota de jatos paquistaneses JF-17, construídos juntamente com a China, para acompanhar o avião de Xi Jinping desde que entrou no espaço aéreo do país até chegar em Islamabad.

O projeto-chave do plano de investimento é o Corredor Econômico China-Paquistão (CPEC, na sigla em inglês), de 3 mil quilômetros. O clima de euforia em Islamabad se explica pelo fato de que o projeto bancado por Pequim está ligado ao desenvolvimento e não à guerra anti-terror. O “New York Times” constatou que a visita de Xi e a promessa de investimento “é de uma proporção que os EUA nunca ofereceram na última década de relações (com o Paquistão), um gesto que provavelmente confirma o declínio da influência americana no país”.

O CPEC será localizado onde se encontram o badalado Cinturão Econômico da Rota da Seda e a Rota da Seda Marítima do Século XXI, ambos planejados por Pequim. As autoridades chinesas descrevem o corredor como o projeto emblemático de uma política mais ampla que tem como objetivo conectar a China fisicamente a seus mercados e fontes energéticas na Ásia, na Europa, no Oriente Médio e na África.

Mas apesar da poesia barata que envolveu a visita de Xi a Islamabad, é claro que nem um centavo desse investimento é resultado de uma ação de caridade de Pequim. “A China vai construir, feliz da vida, qualquer estrutura, sejam estradas ou ferrovias, que a ajude alcançar o seu objetivo”, explica Michael Kugelman, professor do Centro Woodrow Wilson, de Washington.

Ao mesmo tempo, as novas rotas da seda vão intensificar a competição com a Índia e em grau menor, com os EUA. Além de novas estradas, o projeto incluirá a construção de 1.800 quilômetros de estrada de ferro e uma rede de oleodutos para conectar Kashgar, na região chinesa de Xinjiang, ao porto paquistanês de Gwadar, no Mar das Arábias. O custo estimado de todo o projeto é de US$ 75 bilhões, dos quais US$ 45 bilhões vão assegurar que o corredor se torne operacional até 2020. Gwadar fica estrategicamente perto do Golfo Pérsico e do Estreito de Ormuz, pelo qual passa 40% do petróleo mundial. A construção desde porto foi acertada com os chineses em 2013. Alguns analistas apostam que ele poderá se transformar no futuro em uma base naval chinesa no Oceano Índico, permitindo a Pequim monitorar as atividades navais indiana e americana.

Mas além do interesse geoeconômico, a China também está de olho em conter, assim como os EUA, o terrorismo que nasce no Paquistão e ultrapassa fronteiras. Os militantes do Taliban que atuam nas montanhas afegãs e paquistanesas têm ligações com líderes separatistas uigures em Xinjiang, fonte de fortes dores de cabeça para a China, cada vez mais preocupada com a sua segurança interna.

A ajuda chinesa proporcionará ao Paquistão tornar-se um centro econômico da região, já que as estradas e ferrovias do projeto vão ajudar a integrar três motores de crescimento da área: o Sul da Ásia, a Ásia Central e a China, explicou em entrevista à AFP, Ahsan Iqbal, ministro paquistanês encarregado dos projetos. Iqbal vai no ponto-chave da questão: “a real oportunidade deste corredor é que muda o escopo da relação da geopolítica para a geoeconomia”.

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