Por diana.dantas

Moscou comemora sempre com toda a pompa o dia da vitória na Segunda Guerra Mundial, quando pelo menos 27 milhões de soviéticos foram mortos (em um total estimado de 70 milhões de vítimas). Foi o país que mais teve baixas no conflito. No sábado (9), o desfile de celebração do 70º aniversário da vitória contra os nazistas durante a “Grande Guerra Patriótica”, como chamam os russos, terá uma magnitude inédita: mais de 16 mil soldados, centenas de blindados e aviões desfilarão na Praça Vermelha. A assinatura da rendição aconteceu na noite de 8 de maio de 1945 em Berlim. Mas em Moscou, já era o dia 9.

A demonstração militar de Vladimir Putin neste ano será ignorada pelos líderes europeus e pelos americanos. Sinal de seu isolamento crescente devido ao envolvimento russo (negado pelo Kremlin) na crise da Ucrânia, armando os rebeldes pró-Moscou no Leste do país. Em 2005, no 60º aniversário da vitória, o presidente americano George W. Bush teve uma participação histórica na festa. A ele foi reservada a cadeira de honra ao lado de Putin, então no seu primeiro mandato. Também compareceram o presidente da França, Jacques Chirac, o chanceler alemão, Gerhard Schröeder, e o primeiro-ministro japonês, Junichiro Koizumi. Em 2010, tropas americanas e britânicas participaram do desfile na Praça Vermelha, pela primeira vez, evidenciando que a Guerra Fria, naquele ano, já começava a ser considerada coisa do passado. Foi um contraste gritante com a comemoração deste ano.

Desta vez, a chanceler Angela Merkel estará em Moscou apenas no dia seguinte à parada militar. No domingo, ela terá um tête-à-tête com Putin (em russo ou em alemão, já que ambos os líderes falam as duas línguas). Será um café da manhã, provavelmente regado a muito chai, blini (panqueca russa) e pão preto. Merkel é a líder ocidental que mais colocou os pés no freio das sanções econômicas contra Moscou. O fornecimento do gás russo foi um dos principais motivos.[THE WEST] A chanceler alemã escapou do desfile, mas visitará o Memorial da Guerra em Moscou. Seu ministro do Exterior irá a Volvogrado, a antiga Stalingrado, onde os soviéticos tiveram uma vitória decisiva na batalha mais sangrenta de todas as guerras da história. 

Mas além da Nova Guerra Fria com o mundo ocidental, a festa russa vem carregada neste ano de outra forte simbologia: a configuração das novas alianças que Moscou tem costurado na direção do Oriente. A mais importante delas, com a China, hoje o grande contraponto aos EUA na correlação de forças global. Se os líderes europeus não estarão ao lado de Putin, Xi Jinping, presidente da China, deverá estar. Agora, 60 soldados chineses desfilarão, pela primeira vez, ao lado dos russos. Xi chega em Moscou em meio a tensões crescentes na região da Ásia-Pacífico que têm ajudado a aproximar o urso russo do dragão chinês para fazer frente aos laços militares entre os EUA e o Japão.

A crise na Ucrânia veio a calhar para a China. Com Moscou escanteado pelos ocidentais, passou a precisar urgentemente de cultivar novos mercados. Em maio do ano passado, Rússia e China já haviam assinado um valioso acordo de fornecimento de gás russo, no valor de US$ 400 bilhões, por 30 anos, para os famintos chineses. Em novembro, Moscou e Pequim assinaram um outro acordo para a construção, a partir deste ano, de um segundo gasoduto, da Sibéria Ocidental para o Noroeste da China.

Neste ano os dois integrantes do Brics vão fechar ainda acordos que envolvem o badalado Cinturão Econômico da Rota da Seda, projeto do coração de Xi para integrar as economias da Ásia.Uma nova Eurásia surge com a China na liderança. Projetos chineses estão mudando a face da região mais do que qualquer coisa desde os tempos de Gengis Khan, o conquistador mongol do século XII. China e Rússia vão realizar, pela primeira vez, em meados deste mês, exercícios navais no Mar Mediterrâneo, nas barbas da Europa. Ambos têm na agenda também o desenvolvimento conjunto de uma avião de passageiros de longa distância e a criação de uma linha de trem de alta velocidade que ligará Moscou a Pequim.

Adversários no século XX, russos e chineses são agora aliados de primeira hora no século XXI. Inimigos desde os anos 60, quando a China denunciou a versão soviética de comunismo, os dois países só começaram a se reaproximar após a morte de Mao Tsé-Tung, em 1976. Agora, China e Rússia estão mais próximas do que em qualquer outro momento em meio século. Putin e Xi já se reuniram cinco vezes e autoridades chinesas afirmam que estão previstos pelo menos mais cinco encontros neste ano. A política externa de Pequim coloca o pragmatismo acima da ideologia. Seus diplomatas estão bastante treinados em explorar as diferenças entre Moscou e Washington para tirar vantagens para a China. A crise na Ucrânia foi um exemplo disso.

Quando o presidente Barack Obama assumiu o poder em 2009, estabeleceu seus objetivos de política externa: reaquecer a relação com a Rússia e fazer da Ásia o pivô de suas ações, para contrabalançar o poderio da China. Mas no fim de seu segundo mandato, é a China que reaquece os laços com Moscou e a Rússia que direciona todo o seu foco para a Ásia.

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