Por diana.dantas

O novo cartão de visitas da diplomacia chinesa é o seu sistema ferroviário de alta velocidade. Pequim negocia hoje com pelos menos 28 países — incluindo Estados Unidos, Reino Unido, Rússia, Índia e Brasil — projetos de exportação de tecnologia neste setor. O primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, que chega ao Brasil na segunda-feira (18), é a autoridade chinesa encarregada de entregar no mundo todo este cartão de visitas, o que vem fazendo há algum tempo, já com resultados concretos. A China foi o único país do mundo a desenvolver grandes e complexos projetos ferroviários na década passada. Alguns deles foram implementados em locais difíceis como o Tibete, região apelidada de o “teto do mundo”. Em apenas 15 anos, de 1999 ao final de 2014, a China já havia construído a maior rede de ferrovias de alta velocidade do mundo, com 16 mil quilômetros.

Li Kequiang vem conclamando os departamentos governamentais a impulsionarem as exportações do setor ferroviário. A venda destes equipamentos vai ajudar a gerar uma nova oportunidade de crescimento no comércio internacional chinês, explicou o governo. As duas maiores empresas do setor ferroviário chinesas, a CNR e a CSR, anunciaram um plano de fusão no dia 30 de dezembro. A China Railway International foi estabelecida no início do ano para coordenar o desenvolvimento dos projetos no exterior.

Além dos países vizinhos, Li foi à Europa, à África e à America Latina, sempre batendo na tecla de que a tecnologia chinesa no setor é segura e economicamente competitiva. Em maio de 2014, Li fez a sua primeira visita como primeiro-ministro à África, visitando Etiópia, Nigéria, Angola e Quênia. Em um de seus discursos, o premiê disse que poderia ver um “futuro brilhante” para o continente quando as capitais africanas se conectarem por trens-balas. E a China, continuou ele, “ajudaria este sonho se tornar realidade.”

Na última quarta-feira (13), foi anunciado que a China Railway International venceu um contrato no valor de US$ 390 milhões para participar da construção de uma ferrovia de alta velocidade entre Moscou e a cidade de Kazan, capital da República Russa do Tartaristão. O projeto é para ser completado até a próxima Copa do Mundo, em 2018, que a Rússia vai sediar. Para se ter uma ideia da diferença que fará, quando o projeto ficar pronto, uma viagem entre Moscou e Kazan, com o trem-bala, será de três horas e meia. Hoje o trajeto leva 14 horas. Mas o projeto de ouro de chineses e russos é o trem-bala que ligará Pequim a Moscou em uma viagem de apenas dois dias.

A visita de Li Keqiang ao Brasil durará dois dias, quando discutirá dezenas de projetos no valor de US$ 53 bilhões, com o foco no setor energético. Mas um dos assuntos que estará na mesa de negociações será o de uma imensa ferrovia com a participação peruana e brasileira. A participação do Brasil será em um trecho transoceânico que servirá de corredor entre o Atlântico e o Pacífico. O projeto, de quase US$ 10 bilhões, promete mudar o sistema logístico da região. A soja brasileira, por exemplo, chega à China pelo porto de Santos (uma viagem de 30 dias) ou por Belém, através do Canal do Panamá (35 dias). A viagem entre o porto de Lima e a China também leva um mês. Mas a vantagem é de que a soja não precisará viajar dentro do país. Sairá por trem do Mato Grosso, a região produtora, já no caminho para o Peru.

Na quinta-feira (14), o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, desembarcava na China para uma visita de três dias. No estilo bem asiático, o presidente Xi Jinping fez questão de retribuir a mesma atenção que Modi dispensou a ele em setembro, quando o governante indiano fez questão de levar o colega chinês à sua terra natal, o estado do Gujarat, quebrando os protocolos diplomáticos que restringiam as visitas oficiais à capital Nova Délhi. Modi agora foi recebido em Xi’an e Xi Jinping fez questão de lembrar que esta foi a primeira vez que ele recebeu qualquer mandatário estrangeiro em sua cidade natal. Cortesias asiáticas à parte, os dois estavam ali para discutir acordos bilionários. Entre eles, um projeto de trem-bala que ligará Delhi, a capital indiana, no norte do país, com Chenai, capital do estado de Tamil Nadu, no sul da Índia. A China quer aproveitar ao máximo a visão modernizadora de Modi para vender seus projetos ferroviários. Chineses e indianos já concordaram em apressar a implementação de uma ferrovia de alta velocidade que ligará Chenai a Bengaluru, a antiga Bangalore, capital da tecnologia da informação da Índia. Um detalhe importante da diplomacia dos trilhos é que chineses têm facilitado as negociações com uma atitude flexível com países que têm dificuldades financeiras, permitindo-os fazer o pagamento de sua parte no investimento em recursos locais.

Mas os chineses - com sua visão de longo prazo - já perceberam que com suas capacidades tecnológicas e de engenharia avançando tão rapidamente, os projetos em países em desenvolvimento não serão suficientes para satisfazer suas ambições de crescimento. Por isso, começaram a bater na porta de países ricos, como os EUA. Eles desembarcaram na Califórnia em outubro para discutir a possibilidade de participar de um projeto de trem-bala local. Zhang Yujing, presidente da Câmara de Comércio Chinesa de Importação e Exportação de Maquinaria e Produtos de Exportação, que liderou a delegação, explicou que o objetivo da missão era a de aprender a política de ferrovias de alta velocidade e sentir a atmosfera de investimentos na Califórnia. Do Alasca à Argentina, e da África à Austrália, a diplomacia dos trilhos tornou-se o tema central do engajamento internacional de Pequim. Os dias em que as exportações chinesas dependiam de trenzinhos de brinquedos já são coisa do passado.

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