A herança de Francisco

Jeb Bush critica o papa por achar que ele deveria se ater à salvação das almas e ignorar as injustiças do mundo real. Mas o papa, felizmente, não tem dado ouvidos a este tipo de opiniões

Por O Dia

Será o papa Francisco o primeiro de uma dinastia de pontífices dos países emergentes ou em desenvolvimento? Leonardo Boff, hoje com 77 anos, um dos grandes nomes da Teologia da Libertação, acredita nessa ideia, como explicou em uma entrevista ao jornal argentino “Clarín”, em março.

Segundo ele, a herança que Francisco vai deixar é uma dinastia de papas do Terceiro Mundo, da Ásia, África e América Latina. “Isso vai trazer sangue novo para a velha cristandade europeia, que está morrendo lentamente. Sua herança será uma igreja menos centrada em Roma e mais baseada em uma imensa rede de comunidades pelo mundo. Não será apenas uma Igreja Ocidental, mas global”, disse Boff.

Há dois anos e três meses no Vaticano, Jorge Mario Bergoglio é um pontífice pioneiro em vários aspectos: foi o primeiro a adotar o nome de Francisco de Assis e o primeiro papa da América do Sul. Ele abraça claramente a sua identidade argentina (fã de futebol e do tango). Na primeira semana de julho, Francisco estará no nosso continente, em uma vista ao Equador, Bolívia e Paraguai. Cada vez mais admirado pela esquerda latino-americana, o papa vai homenagear, em La Paz, o sacerdote espanhol Luis Espinal, assassinado em 1980 por paramilitares de direita. Fará isso depois de ter beatificado uma das maiores figuras da Igreja Católica progressista na América Latina: o arcebispo Dom Oscar Romero, conhecido como o Bispo dos Pobres, um dos maiores críticos do regime militar apoiado pelos Estados Unidos durante a guerra civil em El Salvador. Dom Romero foi assassinado também em 1980, enquanto celebrava uma missa. A beatificação, cerimônia na qual o papa declara digna de veneração alguma pessoa falecida, é o passo anterior à santificação.

“É um papa sóbrio, que tem consciência de que não é época de uma igreja com pompa, mas uma que esteja perto dos pobres”, elogiou o ex-presidente uruguaio José Mujica, um ex-guerrilheiro de 77 anos, famoso por sua simplicidade, recebido por Francisco no Vaticano em maio. Neste mês foi a vez de Francisco receber o presidente colombiano Juan Manuel Santos, a quem se ofereceu para ajudar nas negociações de paz com a guerrilha das Forças Armadas revolucionarias da Colômbia (Farc), que acontecem em Havana desde novembro de 2012.

O papa tem jeito para a coisa. Seu feito maior na diplomacia até agora foi a costura da histórica reaproximação entre Estados Unidos e Cuba, anunciada em 17 de dezembro passado. O próprio presidente cubano Raúl Castro agradeceu a Francisco pessoalmente quando esteve com ele no Vaticano, em maio. “Se o papa continuar nesse caminho, eu vou voltar a rezar e retornar à Igreja. Não estou brincando”, disse Castro. Em setembro, entre os dias 19 e 22, o papa terá a chance de testemunhar pessoalmente o efeito que o degelo tem provocado sobre a ilha durante a sua primeira visita ao país socialista. No dia seguinte, Francisco encontrará o presidente Barack Obama nos EUA.

Lá, ele enfrentará os católicos conservadores alinhados aos republicanos como Jeb Bush, o pré-candidato à Casa Branca (irmão e filho de ex-presidentes). Eles não gostaram de sua primeira e corajosa encíclica sobre o meio ambiente, recheada de críticas ao capitalismo e ao consumismo desenfreado. Por causa destas constatações óbvias, há quem o acuse até de ser comunista. O papa não poupou os países ricos e disse que os que mais sofrerão os efeitos do aquecimento global são os mais pobres. Ele apontou a ação humana (com desmatamentos e emissão de gases poluentes) como uma das causas das mudanças climáticas. O processo de elaboração da encíclica “Laudato Si” durou dois anos. Cientistas, religiosos e ativistas ambientais foram consultados. Um deles, Leonardo Boff.

Sinal dos novos tempos no Vaticano. Boff era visto como um perigoso subversivo pelo papa anterior, Bento XVI. O teólogo foi processado e condenado a um “silencio obsequioso” de um ano nos anos 80 pela Congregação para a Doutrina da Fé, então dirigida pelo alemão Joseph Ratzinger, que depois tornou-se o papa Bento XVI. Para Boff, a encíclica remete ao que vem sendo discutido na América Latina. Ele cita expressões como “grito da terra” e “grito dos pobres” como exemplos dessa inspiração.

Se os conservadores torceram o nariz, os progressistas americanos a aplaudiram. O website “Salon”, por exemplo, publicou o artigo “Papa Francisco versus capitalismo vampiro: a verdadeira razão pela qual a encíclica da mudança climática é revolucionária”. Um jesuíta que se preparou para ser químico e que tem apenas um pulmão foi quem deu gás e vida nova ao cansativo debate global sobre o meio ambiente, diz o texto. O debate ecológico, que conservadores americanos acreditam ter sido “raptado” por “comunistas”, está diretamente ligada às injustiças sociais. Os especialistas ouvidos pelo Vaticano observaram que 55% da energia disponível no mundo é usada por apenas 1 bilhão dos 7,2 bilhões de habitantes do planeta. E os impactos negativos sobre o meio ambiente são sentidos por 3 bilhões que não têm acesso à energia.

Mesmo assim, Jeb Bush critica o papa por achar que ele deveria se ater à salvação das almas e ignorar as injustiças do mundo real. Mas o papa, felizmente, não tem dado ouvidos a este tipo de opiniões. No último dia 21, Francisco atacou duramente os fabricantes de armas e os empresários que investem na indústria armamentista, chamando-os de “hipócritas”. Eles não podem se chamar de cristãos, disse o pontífice. Boa parte deles, são do país de Bush. Aos governantes europeus, Francisco também mandou ser petardo, cobrando deles que respeitem os imigrantes que procuram abrigo no velho continente. Para Francisco, “pessoas e instituições” que fecham as portas para estes refugiados deveriam buscar o perdão de Deus. Em março de 2013, a fumacinha branca anunciou não apenas o novo papa. Foi um prenúncio de um pequeno terremoto no Vaticano, que fez com que o eixo da Igreja se deslocasse mais ao sul.

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