A nova ordem financeira

Os que desdenhavam das cúpulas do Brics, afirmando que se limitavam a conversas sem efeito, verão agora o primeiro resultado institucional do grupo: o Novo Banco de Desenvolvimento

Por O Dia

O tema do encontro deste ano é “Parceria dos Brics: um fator pujante do desenvolvimento global” com o foco mais em uma agenda econômica. As previsões negativas e sombrias sobre o futuro dos Brics, boa parte vindas dos países ricos, não foram poucas. Mas o fato é que há uma expectativa grande e uma aposta de que a nova instituição vai ajudar as economias emergentes a conseguir investimentos necessários para infra-estrutura, já que as atuais instituições de Bretton Woods deixaram muito a desejar. Apesar do fato de o Brics ter sido criado para discussões informais em questões de desenvolvimento global, o grupo aumentou o seu leque de atuação e passou a seguir mais uma política de integração econômica.

Segundo Amar Bhattacharya, economista do Programa de Desenvolvimento e de Economia Global do Brookings Institution, a infra-estrutura continua sendo o grande entrave dos emergentes e pobres: 1,4 bilhão de pessoas não tem acesso à eletricidade, quase 1 bilhão não contam com água potável e 2,6 bilhões não sabem o que é sistema sanitário. Energizado com a criação do banco, o Brics ganhará uma cara nova, como observou o subsecretário-geral político do Ministério das Relações Exteriores, embaixador José Alfredo Graça Lima.

Ex-dirigente da Infosys, gigante da Tecnologia da Informação, e do ICICI, o maior banco privado da Índia, Kamath deixou claro que o banco que dirigirá, com sede em Xangai, não limitará o escopo de suas operações aos países-membros do grupo. O banco não carrega o nome Brics de propósito: para permitir a participação de novos países no clube de economias emergentes no futuro. Mas a ideia inicial é de que a instituição financie, por um dois anos, somente os Brics antes de aceitar novos membros.

O banco terá um capital autorizado inicial de US$ 100 bilhões, sendo que o capital social inicial será de US$ 50 bilhões, a serem compartilhados entre os membros fundadores. Em janeiro do ano que vem, a instituição elegerá cinco iniciativas apresentadas pelos países do Brics. O banco vai garantir a possibilidade de realizar financiamentos na moeda local do país em que a operação acontecerá.

Também entrará em vigor em 30 dias o Tratado para o Estabelecimento de um Arranjo Contingente de Reservas do Brics. Os recursos deste fundo serão acessados pelos países do bloco em momentos de crise, quando algum deles enfrentar pressões em sua balança de pagamento. O fundo financeiro vai ter um capital inicial de US$ 100 bilhões, com aporte de US$ 41 bilhões da China, US$ 18 bilhões do Brasil, da Índia e da Rússia, cada um, e US$ 5 bilhões da África do Sul. O mecanismo vai reforçar a confiança dos agentes econômicos e financeiros mundiais e amenizar o risco de contágio de eventuais choques que possam afetar as economias do bloco.

Ao mesmo tempo, na última segunda-feira, representantes de 57 países cofundadores do Banco Asiático de Investimento em Infra-estrutura (AIIB), com um capital aprovado de U$100 bilhões e liderado pela China, assinaram, em Pequim, o acordo sobre a criação da instituição, que deverá começar a funcionar no fim deste ano, com o foco em projetos na Ásia. As duas instituições são fruto dos passos de tartaruga das reformas, há tanto tempo exigidas pelos emergentes, das entidades multilaterais de financiamento como Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial, e Banco de Desenvolvimento Asiático, vistas como dominadas pelos interesses europeus, americanos e japoneses.

Mais ainda: com o objetivo de garantir a segurança energética do Brics, o grupo irá discutir uma associação no setor, com a criação de um banco de reservas de combustível e um instituto de políticas de energia para fazer pesquisas integradas e análises dos mercados globais. O centro industrial de Ufa — um nome que soa engraçado aos ouvidos brasileiros, mas que significa “águas escuras”, localizado nas encostas ocidentais dos montes Urais — estará agitadíssima na semana que vem. Isso porque a cidade russa vai sediar outro importante encontro: o da Organização para Cooperação de Xangai, fundado por China, Rússia, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão e Uzbequistão, e que agora abraçará dois países rivais:

Índia e Paquistão. Esta organização é vista como um instrumento de reforço da Eurásia e desta estratégia multinacional de desenvolvimento da China do século XXI. Uma forma de contrabalançar a aproximação dos Estados Unidos com os países do Sul da Ásia.

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