Estudo garante que modo mais ‘natural’ de cultivo é lesivo para o planeta

Alimentos cujos produtores juram ter respeitado os ciclos da natureza e não foram modificados geneticamente nem passaram por agrotóxicos fazem parte de uma agricultura nada sustentável, atesta a pesquisa

Por O Dia

Rio - Ser orgânico é ‘cool’? Estudo publicado recentemente na ‘New Scientist’ garante que a atitude, cada vez mais comum nas grandes cidades, pode fazer bem à sua saúde, mas prejudica o planeta. Alimentos cujos produtores juram ter respeitado os ciclos da natureza e não foram modificados geneticamente nem passaram por agrotóxicos fazem parte de uma agricultura nada sustentável, atesta a pesquisa. “Está na moda aderir ao orgânico pelo atrativo da palavra, mas ninguém tem ideia de como é produzido”, sentencia o engenheiro agrônomo Marco Antonio Oltra, professor associado de Fisiologia Vegetal na Universidade de Alicante, na Espanha, segundo publicou ontem o ‘El País Brasil’.

Na plantação orgânica%2C produz-se sem acelerar os ciclos do campo e se evita o uso de agrotóxicos. Grandes deslocamentos ainda são rarosDivulgação

Para Oltra, uma produção totalmente orgânica não abasteceria toda a população: “Somos sete bilhões de pessoas diante de 1% de produção orgânica. Mudar para uma agricultura orgânica faria com que metade da população mundial deixasse de comer. Só se cultiva assim em regiões onde faltam meios para a agricultura técnica, como na Índia ou em alguns países africanos. Mas não são levados pelo respeito ao meio ambiente, embora o consumidor ignore isto. Muitos consumidores associam o orgânico ao bom”, opina o especialista.

Embora não se perceba, a agricultura orgânica demanda a utilização de mais terras por causa de seu baixo rendimento em relação à convencional, o que leva à degradação de ecossistemas como as florestas nas zonas tropicais. Pesquisa publicada na Nature em 2012, baseada em meta-análise (procedimento estatístico avançado) de todos os dados publicados, concluía que a produção orgânica produz entre 5% e 34% menos que a convencional.

“Para satisfazer as necessidades da crescente população (em 2050 terá chegado a oito bilhões), segundo a FAO), haverá a necessidade de mais superfície para o cultivo, e isso significa que, se forem respeitadas as normas da agricultura orgânica, seria preciso desmatar. No entanto, com a agricultura convencional, tecnologicamente muito avançada, seria possível cultivar até em desertos”, afirma Emilio Montesinos, microbiologista, catedrático em Patologia Vegetal e diretor do Instituto de Tecnologia Agroalimentar da Universidade de Girona. 

Propaganda ‘omissa e enganosa’

A agricultura orgânica é vinculada constantemente à recuperação dos sabores de antes, o que o consumidor relaciona com um alimento mais saudável. Oltra discorda. “É uma ideia errada: se um tomate comprado em uma grande superfície não tem gosto de tomate não é pelo tipo de agricultura de que provém, mas porque, ante uma demanda de produtos visualmente perfeitos (escolhemos o tomate por sua cor e não pelo seu sabor), os produtores convencionais priorizam a aparência do alimento, sacrificando seu sabor”.

Para o bioquímico José Miguel Mulet, o rótulo orgânico só diz que os que se utilizou é natural, mas não que seja melhor nem pior. “Tampouco informa se foi aplicada alguma das numerosas exceções que o regulamento prevê. Só faz referência ao fato de ter sido produzido de acordo com as normas, mas nada sobre impacto ecológico, como o rastro de carbono”, afirma.

Outro motivo pelo qual as pessoas escolhem produtos orgânicos é porque se preocupam com a saúde. Mulet considera que comer orgânicos não é mais saudável: “A qualidade nutricional é semelhante tanto no convencional como no orgânico, outra questão é a segurança alimentar, onde fica claro que os maiores alertas se deram no orgânico, a começar pela crise de 2011, que causou 47 vítimas”. 

Maior rastro ecológico

Quando se fala dos gases do efeito estufa, a primeira coisa que vem à mente é a imagem de uma metrópole superpovoada ou a das fumegantes chaminés de uma indústria. Mas a produção agrícola também pesa. “E a orgânica implica maior emissão de dióxido de carbono do que a convencional. É preciso levar em conta os trabalhos do campo, a mão de obra e a menor eficiência da fertilização”, explica Montesinos.

Outro aspecto importante se refere ao custo energético dos produtos fitossanitários. O especialista exemplifica: “Em alguns cultivos orgânicos se requer menos energia, mas às vezes se utilizam compostos derivados, autorizados, de cobre, com tremendo impacto ambiental. Embora sejam considerados naturais, não procedem em primeiro plano de extrações diretas de mineração, mas da reciclagem de cabos elétricos, entre outros. Essa reciclagem tem um considerável consumo energético e emissão de CO2.”

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