Celular faz mal à coluna

Brasileiro passa em média 3 horas e 14 minutos por dia no celular, muitas vezes em posturas que são um risco à coluna cervical. Saiba como evitar esse problema

Por O Dia

Rio - Frustrado com as dores intensas que sente na parte de trás do pescoço, o publicitário Andre Molina, de 25 anos, chegou até a quebrar, por vontade própria, seu celular. O motivo? Ele sabia que o aparelhinho era a fonte de todo seu desconforto. “É uma dor que me deixa muito estressado, meu humor vai para as cucuias. Minha vontade é jogar o telefone na parede. Hoje, eu ponho ele cuidadosamente de lado”, brinca. Andre costuma abaixar a cabeça ao usar o smartphone — e tenta chegar ainda mais pertinho da tela por causa de sua miopia. É um gesto cada vez mais comum para o brasileiro, que passa em média 3h14 por dia conectado ao celular, segundo pesquisa realizada pela Millward Brown Brasil e NetQuest. Mas o ato, que hoje já se tornou natural, é antifisiológico e forma o chamado ‘pescoço de texto’.

Quanto maior a inclinação do pescoço, maior o peso da cabeça sobre a coluna — que pesa em média seis quilos e pode chegar a até 27 kg na posição de 60 graus. Este peso aumenta a pressão sobre a cervical e acaba sobrecarregando as vértebras da região. Insistir na má postura pode acarretar problemas como cifose e hérnia de disco. “Todo mundo que usa muito o celular estará sujeito a ter problemas. E quem já tem algum problema na cervical, se tem um desgaste articular ou no disco, vai ter mais propensão a uma lesão, que pode piorar com o uso do smartphone”, afirma a fisioterapeuta Ariane Pitrez.

O ortopedista Orlando Righesso Neto, da Sociedade Brasileira de Coluna (SBC), explica que o desconforto na cervical geralmente começa como uma dor muscular, de menor intensidade e duração. Aos poucos, a má postura vai desgastando a cartilagem das vértebras e pode gerar um bico de papagaio (ponta óssea onde já se perdeu a cartilagem) e, eventualmente, uma hérnia de disco (espécie de bolha na cartilagem). “Todas as lesões na cartilagem são irreversíveis. A pessoa vai ter que trabalhar para fortalecer o sistema de músculos que protege a coluna”, explica.

Segundo o médico, o alerta deve ser ainda maior em crianças e adolescentes, que estão em fase de formação da estrutura óssea. Números recentes da Avaliação de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês) apontam que os brasileiros na faixa etária de 15 anos navegam mais de três horas diárias durante a semana. “Se você começa a aplicar má pressão desde cedo sobre a coluna pode haver consequências como a cifose (de maneira simplificada, uma espécie de corcunda), a lordose (curvatura excessiva da coluna) ou da curvatura do pescoço”, destaca.

A fisioterapeuta Patrícia Lacombe chama a alteração na coluna devido ao uso excessivo de celular de ‘doença do futuro’. “Tenho percebido que as mudanças de hábito causam patologias relacionadas à postura. Quando comecei a trabalhar com isso, há 25 anos, era muito comum ter hiperlordose (alteração na parte de baixo da coluna) e, com o uso do celular, isso se transformou no oposto, na retificação da lombar”.

Ela ensina a prática da ginástica holística, método que atua simultaneamente sobre a respiração, o equilíbrio e o tônus muscular. Para Patrícia, é preciso estar consciente do uso do corpo, para evitar consequências no futuro. “Falta a educação sobre o corpo: você só cuida daquilo que conhece. As pessoas não aprendem as posturas corretas, como carregar a bolsa. Quando somos jovens, vamos apenas usando nosso corpo, e não podemos aproveitá-lo mais tarde”.

Conheça algumas das graves consequências do uso excessivo de celular à coluna:

Hérnia de disco. É um problema muito comum, com média de 2 milhões de casos no Brasil, mas não tem cura. Ocorre quando, na cartilagem, o centro gelatinoso acaba ‘vazando’, criando uma espécie de ‘bolha’. O diagnóstico tem que ser feito por um médico especialista. O tratamento contra a dor pode ser feito por quiropraxia, acupuntura, fisioterapia e até cirurgia.

Bico de papagaio. A osteofitose é causada pelo desgaste na cartilagem da coluna vertebral que provoca a calcificação das vértebras. Assim, surgem os osteófitos, uma ponta óssea no formato de um gancho. A alteração na coluna é irreversível, mas o tratamento com fisioterapia e exercícios físicos evita a expansão do problema.

Cifose e retificação da lombar. São alterações na curvatura natural da coluna. Na cifose, a parte de cima da costas fica voltada para a frente, formando uma espécie de ‘corcunda’. Casos mais graves podem gerar dor intensa e até dificuldades respiratórias. Com a retificação, a coluna perde a curvatura principalmente na parte inferior, gerando falta de mobilidade. Técnicas de RPG (Reposição Postural Global) podem ajudar a corrigir os problemas. 

COMO EVITAR A DOR

Use o celular de forma correta. Mantenha o pescoço o mais ereto possível e, evitando flexionar demais os braços, levante o celular ou tablet à altura do olhar. “Você deve levar a tela aos olhos e não os olhos à tela”, recomenda o ortopedista Orlando Righesso Neto.

Tecle menos, fale mais. Prefira ligações e mensagens de voz a digitar textos.

Apenas o essencial. Evite usar o celular além do necessário. Você não precisa usar os aplicativos toda hora nem por muito tempo. “Antigamente, as pessoas abriam a geladeira para pensar. Hoje, olham o Facebook de cinco em cinco minutos para passar o tempo”, diz Righesso.

Faça exercícios sem impacto. Pilates, RPG e yoga são atividades físicas que fortalecem o sistema de músculos que protegem a coluna e ajudam a manter uma posição adequada. Crossfit, esteira e levantamento de peso em excesso têm impacto sobre a coluna e devem ser evitados.

Controle seu peso. Quanto maior o peso corporal, mais sobrecarga na coluna.

Estique-se. Faça alongamentos de pescoço e movimentos de rotação com a cabeça para fortalecer sua musculatura. 

GINÁSTICA HOLÍSTICA

Os exercícios abaixo, recomendados pela fisioterapeuta Patrícia Lacombe, não têm contraindicação e ajudam a prevenir e aliviar dores cervicais. “As pessoas acham que precisam de coisas muito complexas. Mas os exercícios são simples e não levam mais que cinco minutos por dia”, afirma.

Com o corpo deitado, coloque duas bolinhas de tênis entre o pescoço e o ombro, na área de maior tensão. Levante os braços e mova-os de um lado para o outro.

Também em posição deitada, coloque uma bola macia (como uma bola de meia ou dente de leite) debaixo da cabeça. Faça pequenos movimentos de sim, de não e de círculos com a cabeça. Esse exercício deve oferecer relaxamento imediato.

Reportagem da estagiária Alessandra Monnerat sob a supervisão da editora assistente Rosayne Macedo.

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