Veneza 'brinca' de ser Catalunha

Duas regiões da Itália fazem referendo legal neste domingo para ter mais autonomia em relação a Roma

Por O Dia

Veneza - Em Veneza é difícil encontrar cartazes sobre o referendo de autonomia convocado para amanhã nas regiões do Vêneto e da Lombardia, mas quase todos os habitantes do cartão-postal dizem que vão votar para pôr fim à "má gestão" do Estado, embora rejeitem qualquer comparação com a questão da Catalunha. Ao contrário do que acontece na Espanha, a consulta deste domingo respeita a Constituição e está longe de abrir uma crise.

Veneza fica no Vêneto%2C próspera e visitada região do Nordeste da ItáliaAFP

Para os venezianos, o problema fundamental tem a ver com os impostos que, segundo eles, não beneficiam o bastante seu território. "Isso poderia não ser um problema se essas taxas fossem bem investidas, mas a verdade é que em nível nacional se gastam mal 30 bilhões de euros por ano", lamenta o presidente da região, Luca Zaia, que convocou o referendo consultivo com o qual pretende reivindicar competências adicionais em matéria de Educação, Saúde e infraestruturas, por exemplo.

Zaia e o colega lombardo, ambos membros da ultradireitista Liga Norte, querem recuperar a metade do saldo fiscal da região. Um discurso que ganha adeptos e recebe o apoio da centro-direita, incluída a Força Itália, de Silvio Berlusconi, das organizações patronais e dos sindicatos.

"É justo que os impostos que pagamos se gastem em nosso território e não na Sicília", afirma Giuseppe Colonna, um veneziano de 84 anos. "Aqui a administração gere bem as coisas, enquanto "que há uma má gestão dos recursos por parte de Roma", considera Nicola Tenderini, um aquarelista de 52 anos.

Na loja ao lado, Andrea Vianello, que vende alimentos, ratifica a mensagem: "Queremos continuar ajudando a Itália e as regiões mais desfavorecidas, mas gostaríamos de ter um pouco mais de dinheiro". Segundo ele, a autonomia está no DNA de Veneza, que foi uma república independente durante quase um milênio, antes da queda, em 1797.

No Vêneto, que se orgulha da taxa de desemprego de 6,7% em relação a uma média nacional de 11,2%, contribui com 10% do PIB italiano graças a uma extensa rede de pequenas e médias empresas. Embora a vitória do 'sim' seja inquestionável, há dúvidas em torno da participação, sobretudo na Lombardia, onde a consulta suscita pouco interesse.

Para os verdadeiros separatistas, muito minoritários, o referendo é um primeiro teste. "Permitirá que a gente se reúna como venezianos", explica Alessio Morosin, fundador do Independência Veneta. "Sabemos que não permitirá alcançar os objetivos esperados, tanto por motivos políticos como orçamentários, já que o Estado tem uma dívida de mais de 2,3 bilhões" de euros. Quando comprovarem o fracasso, os venezianos deverão "fazer uma eleição mais radical" frente a um Estado que os explora, afirma.

 

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