Por lucas.cardoso

Dacca - Após sua prudência verbal em Mianmar, o papa Francisco pediu nesta sexta-feira, em Bangladesh perdão aos refugiados rohingyas, após ouvir o relato de 16 deles e pronunciar o nome desta comunidade pela primeira vez desde o início de sua viagem à Ásia.

O pontífice esperou estar em Daca para usar a palavra "rohingya", utilizada pela comunidade internacional, mas considerada tabu em Mianmar. "A tragédia de vocês é muito difícil, muito grande, mas tem um lugar em nossos corações", ressaltou publicamente o papa. "Em nome de todos aqueles que os perseguem, que lhes fizeram mal, principalmente na indiferença do mundo, eu peço perdão!", lançou.

Papa é recebido por autoridades e multidão de fiéis em aeroporto de MianmarAFP

"A presença de Deus hoje também se chama rohingya", declarou ao término do encontro com os muçulmanos que fugiram da onda de violência em Mianmar, país vizinho e de maioria budista. "Deixe-nos continuar a fazer a coisa certa e a ajudá-los. Vamos continuar a trabalhar para garantir que seus direitos sejam reconhecidos", ressaltou o papa, acrescentando: "não deixemos que nossos corações se fechem, não vamos virar o rosto".

O êxodo desta minoria constituiu o fio condutor da viagem de Francisco, iniciada na segunda-feira em Mianmar e que termina no sábado à tarde em Bangladesh. Após um encontro interreligioso em Daca, uma delegação de refugiados rohingyas, incluindo mulheres e crianças, formaram uma fila para falar com o pontífice, que os escutou, com tristeza.

Francisco segurou as mãos dos refugiados em sinal de apoio, pousou a palma de sua mão na cabeça de uma menina, enquanto ouvia seus relatos traduzidos por um intérprete. Mohammad Ayub, de 32 anos, contou  que seu filho de três anos foi morto na violência no estado de Rakhine, o epicentro da crise em Mianmar.

"O papa é o líder do mundo. Ele deve dizer a palavra rohingya, porque nós somos o povo rohingya" e isso "há várias gerações", insistiu pouco antes do encontro.

Shawkat Ara, uma menina de 12 anos, chorou ao encontrar o papa. "Meus pais foram mortos, não tenho mais alegria", declarou. Hazera Begum, uma mulher rohingya, falou sobre o estupro que sofreu.

Hafez Mohammad Nurullah, 27 anos, explicou que se tornou o porta-voz das reivindicações de seu povo: "queremos recuperar nossa cidadania birmanesa. É a quinta vez que minha família foge para Bangladesh para escapar das perseguições".

Mais de 620.000 pessoas desta minoria muçulmana apátrida entraram em Bangladesh desde o fim de agosto. Eles tentam escapar da violência do exército de Mianmar, que a ONU chamou de "limpeza étnica".

Os refugiados vivem na miséria, em acampamentos do tamanho de cidades, onde sua sobrevivência depende da distribuição de alimentos.  Em Mianmar durante quatro dias, pediu aos budistas birmaneses "que superem todas as formas de intolerância, preconceito e ódio", evitando, contudo, mencionar diretamente os muçulmanos rohingyas.

Neste país, a xenofobia e o ódio dos muçulmanos têm aumentado e uma grande maioria dos habitantes consideram os rohingyas, que eles chamam de "bengalis", como imigrantes ilegais.

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