Fundos apostam no Brasil

Com ativos de US$ 189 bilhões, o The Carlyle Group terá Brasil e China como foco de seus investimentos nos mercados emergentes

Por O Dia

Inflação perto do teto, juros em alta e baixo crescimento da economia brasileira têm tirado o sono de parte dos investidores estrangeiros, mas estão longe de abalar o interesse do The Carlyle Group pelo país. O gestor global de recursos — um gigante com US$ 189 bilhões em carteira — enxerga no Brasil fundamentos macroeconômicos suficientemente favoráveis para garantir uma expansão “dramaticamente alta” do mercado de private equity no país, ao longo dos próximos, conforme ressaltou ontem David Rubenstein, co-fundador e co-CEO do Carlyle, no Rio de Janeiro. Brasil e China são foco principal do Carlyle nos mercados emergentes, que hoje concentram 13% de todo o dinheiro investido em private equity no mundo, contra 5% em 1995.

Durante palestra no congresso da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (Abvcap), Rubenstein enfatizou que os níveis atuais de inflação, juros e desemprego no país não são motivo de preocupação para o Carlyle. “Brasil e China serão as duas estrelas da Private Equity 4.0”, afirmou ele, referindo-se a uma nova fase no mercado de private equity iniciada no ano passado, em que haverá tanto aumento no número de players globais como de firmas menores, com atuação local e em nichos específicos.

Rubenstein acredita que o total de companhias globais de private equity deve passar do patamar atual de sete ou oito para um total de dez a 12, ao longo dos próximos anos. “O Brasil recebe hoje mais de 50% dos dólares investidos em private equity na América Latina”, acrescentou o executivo, para quem a economia brasileira voltará a crescer a uma taxa de 5% ao ano. “Certamente houve uma redução no ritmo de crescimento, mas o país continua muito atraente.”

Diretor-gerente e co-head das operações do Carlyle no Brasil e na América Latina, Fernando Borges ressaltou a necessidade de descolamento entre a situação macroeconômica e a de investimento em private equity. Como exemplo desse descolamento, ele cita o fato de o Carlyle ter investido pesadamente na Europa durante o ano passado, apesar do fraco desempenho das economias na Zona do Euro. “O investidor de private equity é muito diferente daquele da Bolsa ou da renda fixa. Ele foi muito menos otimista com relação ao Brasil há dois, três anos e é menos pessimista agora”, disse Borges, que ontem foi eleito presidente da Abvcap. “Acreditamos no fundamento de longo prazo [DO PAÍS], independentemente de o PIB estar crescendo 4%, 2% ou 7%. O Brasil não é um lugar onde o PIB vai crescer 7%. Se você olhar historicamente, no país a economia tem crescido entre 2% e 3% nos últimos dez, 15 anos.”

Na avaliação de Borges, há oportunidades para investimento em private equity em setores que ainda registram baixa penetração de produtos e serviços entre os consumidores, como os de educação e saúde. “Saúde não para de ter investimento. Por que? Se você tem mais renda, você vai querer um plano privado, acessar um hospital melhor”, resumiu.

Já o segmento de óleo e gás, apesar das altas taxas de expansão, não é uma alternativa óbvia, na visão do principal executivo do Carlyle no Brasil. “Não é um setor fácil de investir, porque você tem de lidar com Petrobras. Ou seja, são setores que crescem muito mas concentrados num grande cliente”, justificou. Mesmo assim, a gestora de recursos está atenta às oportunidades no segmento. “Vamos investir especificamente em óleo e gás? Não sei. Talvez em setores que se beneficiam dessa indústria, como o de serviços”, complementou Borges.

Presente ao congresso, o ex-presidente da Abvcap e vice-presidente para a próxima gestão, Clovis Meurer defendeu a criação de mais incentivos à indústria de private equity no país, com alterações na regulamentação. “No Brasil, o investidor de venture capital que fica cinco, dez anos numa empresa tem a mesma tributação que o investidor que aplica na Bolsa”, comparou. Meurer defendeu que, quanto menor for o montante investido por uma empresa num projeto de private equity, menor deveria ser o imposto incidente. Ele sustentou ainda que a alíquota deveria ser inversamente proporcional ao tempo de duração do investimento em private equity. Dessa forma, quanto mais longo o prazo de permanência, menor seria o imposto.

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