Por monica.lima

Rio - Açúcar e etanol ainda eram o carro-chefe dos negócios quando a Cosan foi a Nova York, em 2007, captar recursos com a venda de ações para investidores norte-americanos. No prospecto da operação, a promessa de direcionar os recursos para expansão e modernização de usinas, para abastecer um mercado então em franco crescimento. Sete anos depois, prestes a concluir a operação de fusão de uma de suas subsidiárias com a América Latina Logística (ALL), o grupo aposta nos setores de energia e transportes para driblar a crise do setor sucroalcooleiro. “O etanol está em banho-maria”, diz Marcos Lutz, diretor-presidente da companhia, uma das maiores produtoras mundiais do biocombustível.

A ALL ainda é assunto proibido, devido ao período de silêncio que antecede a aprovação definitiva da operação, mas fontes dizem que a companhia acena com investimentos suficientes para triplicar a capacidade de transporte da malha responsável pelo transporte dos grãos produzidos no centro-oeste aos portos de Santos e Paranaguá. Lutz desconversa e diz apenas que um plano de negócios será apresentado após o “sim” dos acionistas da Cosan — o conselho de administração da operadora ferroviária já deu seu aval para formação da nova empresa, que nascerá com valor de mercado de R$ 11 bilhões e receita estimada em R$ 2 bilhões anuais.

Mas a postura agressiva da empresa não para por aí. A Cosan é vista como potencial compradora no segmento de gás natural. “Não estamos buscando isso agressivamente, mas vemos (aquisições de distribuidoras de gás canalizado) com bons olhos, principalmente aquelas que estão próximas à nossa área de concessão”, adianta Lutz. Motivados pela percepção de que o mercado mundial passará por um momento de superoferta do combustível, a companhia vislumbra ainda a entrada no segmento de transporte de gás, com investimento em gasodutos que liguem os produtores ao mercado da Comgás. “Com as reservas não convencionais e o pré-sal, os produtores vão se esforçar para buscar novos mercados. E estamos em um local privilegiado”, justifica.

A postura nos negócios é atribuída pelo mercado (para o bem e para o mal) ao perfil do controlador da companhia, Rubens Ometto Silveira Mello, que deixou a TAM no início da década de 1980 para tocar os negócios da família. Ometto encarou disputas familiares para impor sua visão de futuro dos negócios. Binho, como é conhecido, deixou a presidência da Cosan em 2009, mas ainda comanda o conselho de administração da companhia e é quem dá a última palavra sobre os passos estratégicos.

“Gosto mais de ‘coragem’ do que de ‘agressividade’. Um leão com um espinho na pata é agressivo mas improdutivo. Acho que coragem é a palavra mais adequada”, filosofa Lutz. “E Ometto é um empresário de coragem e visão de longo prazo.” A opção pela mudança de rumos, porém, não veio por acaso. Em 2009, após a crise financeira internacional, o setor sucroalcooleiro começou a afundar, por problemas relacionados ao alto nível de endividamento das empresas, agravados pelos baixos preços do açúcar e do álcool nos anos seguintes. “A Cosan surfou nos bons tempos do setor e, percebendo a crise, tomou a decisão estratégica de diversificar, se posicionando como empresa de energia e, agora, de logística”, comenta o analista-chefe da SLW Corretora, Pedro Galdi.

Mais uma vez, Lutz contesta: “Não gosto de falar em diversificação. Prefiro dizer que estamos focando em setores nos quais temos experiência.” A logística, diz, é fundamental para o escoamento da produção de etanol. A distribuição de combustíveis, por sua vez, é natural para conquistar mercado para o produto. Já o segmento de energia, completa, garante às usinas de cana-de-açúcar uma receita menos suscetível à volatilidade das cotações internacionais. O gás natural, segmento no qual atua há dois anos, veio a reboque, como um complemento dos negócios em energia.

Os planos para o futuro estão centrados neste tripé. Além dos ainda não divulgados investimentos na ALL, a empresa trabalha para ampliar sua presença no setor de combustíveis — no qual atua em parceria com a Shell, na empresa Raízen, que este mês anunciou a compra da rede de postos Latina, com operações na região sul — e busca fomentar a cogeração de energia em empreendimentos comerciais e residenciais, para aumentar as vendas de gás natural da Comgás.

A entrada em novos segmentos mais do que duplicou a receita do grupo desde a saída de Ometto do comando — em 2013, o faturamento ultrapassou os R$ 36 bilhões. A participação do etanol ainda é importante, cerca de 20% da geração de caixa, mas vem perdendo espaço para os novos negócios. No ano passado, Comgás e Rumo responderam por 57% do EBITDA. “Com a ALL, há um ganho de sinergia muito grande, que vai potencializar as exportações da empresa e garantir caixa adicional com a prestação dos serviços logísticos”, analisa Marcos Lima, especialista em fusões e aquisições da Go4! Consultoria em Negócios.

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