Por marta.valim
Publicado 28/04/2014 12:29 | Atualizado 28/04/2014 12:35

Em seus pouco mais de vinte anos de vida, o Photoshop se consolidou como um símbolo de programa capaz de operar milagres e, em muitos casos, reconstruir totalmente qualquer imagem. Essa mesma capacidade de transformação pode traduzir o momento vivido pela americana Adobe, que tem o famoso software como um dos carros-chefe do seu portfólio.

Em meio a uma série de desafios, há alguns anos, a imagem da Adobe ganhou contornos críticos no mercado e a empresa se viu obrigada a ajustar o seu foco. Agora, a companhia começa a colher os frutos de um dos principais pilares dessa mudança de rota: a transição do formato tradicional de venda de licenças de uso de sistemas para o modelo de entrega de software na nuvem, no qual os programas são acessados pela internet e o usuário paga uma taxa — mensal ou anual, a partir de US$ 9,99 — pela aplicação.

“Há poucos anos, se um fotógrafo amador quisesse comprar o Photoshop, seria preciso investir muitas centenas de dólares. Agora, com um modelo mais flexível, estamos estimulando a experimentação e conquistando usuários que não conseguíamos alcançar antes”, diz Monte Wilson, vice-presidente da divisão de mídia digital da Adobe para as Américas.

Os números recentes do modelo de nuvem têm agradado analistas e acionistas. A Adobe fechou o último ano fiscal com 1,4 milhão de assinantes na Creative Cloud, plataforma que reúne softwares e serviços de mídia digital da companhia na nuvem. Um ano antes, esse volume era de 300 mil assinantes. No primeiro trimestre fiscal de 2014, a empresa atraiu 400 mil novos usuários para a plataforma.

O reposicionamento, no entanto, tem seu preço. Como parte da virada de um modelo baseado em grandes pagamentos anuais para um novo formato de receitas recorrentes, porém, de menor valor, a Adobe vem registrando quedas em seu desempenho. No último ano fiscal, encerrado em 30 de novembro, a companhia reportou uma receita de US$ 4,05 bilhões, contra US$ 4,4 bilhões um ano antes. No mesmo intervalo, o lucro líquido caiu de US$ 832,7 milhões para US$ 289,9 milhões. “Grande parte dessa queda era esperada. Temos uma estratégia de longo prazo para consolidar esse novo posicionamento e, em muitas ofertas, estamos à frente do que tínhamos planejado”, diz o executivo.

Embora não revele números locais, Wilson ressalta que o Brasil é um dos principais motores da nova fase. Segundo o executivo, o país registrou um crescimento significativo nos últimos dois anos, especialmente em ofertas como a Digital Publishing Suíte, plataforma de criação e distribuição de conteúdos e publicações para tablets. Nessa oferta, um dos segmentos de atenção para a Adobe é a participação em projetos de educação do governo envolvendo a distribuição de tablets para alunos da rede pública. Finanças, mídia e entretenimento, e varejo são outros setores com boas perspectivas. “Uma das nossas prioridades no país é trazer o maior número possível de clientes empresariais para a Creative Cloud. Nesse perfil de cliente, uma das áreas que mais crescem são as publicações corporativas e as ações digitais de relacionamento com os consumidores”, diz.

Para estimular a migração das empresas para a nuvem, a Adobe vem adotando uma série de estratégias. Há um ano, a companhia anunciou que o acesso a novas versões e atualizações de seus sistemas passaria a ser restrito aos clientes do modelo de assinaturas. A empresa também está apostando em contratos mais flexíveis, baseados no volume de uso das soluções pelos grandes clientes.

A Adobe também ampliou seu time local. Na virada do ano, a empresa dobrou sua equipe no país. “Queremos investir em uma estratégia de atender cada cliente de forma personalizada. Temos que entender as demandas e incorporá-las em nossas ofertas”, diz Marta Clark, vice-presidente da Adobe para a América Latina e Caribe.

Para os executivos, os efeitos positivos também já estão sendo sentidos entre as pequenas e médias empresas e de usuários finais, como desenvolvedores de aplicativos. Além de novos clientes nessas frentes, o modelo de nuvem está ajudando a Adobe a combater um velho problema que afeta a empresa e outras companhias de software no país: a pirataria.
“Como estamos facilitando o acesso, o uso de softwares pirata da Adobe está começando a diminuir”, afirma Fabio Sambugaro, gerente-geral da Adobe no Brasil. Apesar dessa tendência, diz o executivo, o volume de softwares pirata da marca no país ainda está acima do índice oficial da Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES), que é de 56%.

Os serviços da Creative Cloud são uma das armas para reduzir esse índice. Entre outros recursos, a plataforma permite que os usuários compartilhem seus conteúdos e processos criativos em diversos dispositivos e com outros profissionais. Ao mesmo tempo, é possível armazenar arquivos na nuvem. “Você não pode piratear esse tipo de oferta. Aos poucos, as pessoas estão percebendo que não se trata apenas de um produto, mas sim, de toda uma gama de serviços em torno desses sistemas”, diz Wilson.

Polêmica com Steve Jobs foi um dos marcos da mudança

A queda nas vendas de PCs, a migração dos consumidores e conteúdos para novas telas e dispositivos, e os novos comportamentos inerentes à internet são alguns dos motivos que forçaram o lançamento da Creative Cloud, em maio de 2012. “No nosso modelo antigo, era difícil acompanhar a explosão dos dispositivos móveis”, diz Monte Wilson, vice-presidente de mídia digital da Adobe para as Américas. “Com a nuvem, os usuários podem compartilhar experiências e trabalhar com seus pares. Ao mesmo tempo, ela nos permite ter lançamentos contínuos. Hoje, temos 40% a mais de ferramentas do que tínhamos nas ofertas tradicionais”, observa o executivo.

O marco do desafio enfrentado pela Adobe foi uma grande polêmica com Steve Jobs. Em 2010, o fundador da Apple divulgou um documento criticando o desempenho do Flash — linguagem da Adobe largamente usada em vídeos e animações na internet — em dispositivos móveis e rejeitando o uso da tecnologia no iPad e no iPhone. Como resultado, a Apple passou a investir no padrão HTML5 em substituição ao Flash. A mesma tática foi adotada por outras companhias.

Ao lado da aposta na nuvem, o reflexo de todo esse contexto foi uma reestruturação da Adobe. Em outubro de 2011, a empresa consolidou cinco divisões de negócio em apenas duas áreas: mídia digital e marketing digital. Com a nova organização, a Adobe acrescentou componentes à sua oferta de sistemas para criação e distribuição de conteúdos. Na área de marketing, a empresa incorporou softwares para gerenciar e medir a efetividade dos conteúdos, aplicativos e campanhas digitais. A ideia é que os dados coletados nesses processos alimentem novas ações, cobrindo assim, todo o ciclo criativo.

A Adobe investiu em aquisições para compor a nova oferta. Desde 2011, a empresa destinou cerca de US$ 1,43 bilhão nessa estratégia. As novas versões dos produtos foram outra aposta. No início do mês, por exemplo, a empresa lançou uma versão do Lightroom - programa de edição de imagens - justamente para o iPad. “Vamos investir cada vez mais na integração da Creative Cloud e da Marketing Cloud — nuvem da oferta de marketing digital —, pois cada vez mais os consumidores demandam conteúdos personalizados e a aplicação de ferramentas analíticas é a única maneira de possibilitar essa experiência”, diz Wilson.

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