Por monica.lima

Rio - Até adentrar o universo corporativo, aos 36 anos, o americano Fred Cook era dono de um currículo incomum, que incluía trabalhos como motorista de bêbados, porteiro de hotel quatro estrelas e vendedor de artigos falsos de couro italiano, entre muitos outros “empregos ruins”, como ele mesmo admite. De cada uma dessas ocupações, Cook extraiu lições profissionais que o levaram à presidência da GolinHarris, empresa de relações públicas com 50 escritórios espalhados pelo mundo, inclusive no Rio de Janeiro e em São Paulo. Hoje, aos 64 anos, Cook se orgulha de ter trabalhado com gigantes do mundo empresarial, como Steve Jobs e Jeff Bezos. E, também, de ter ajudado a apresentar ao mundo as Tartarugas Ninja, o Pokemón e a melancia sem caroço.

Essas credenciais aparecem na contracapa do livro “Improvise: unconventional career advice from an unlikely CEO”, recém-lançado nos Estados Unidos. O título — que pode ser traduzido como “Improvise: conselhos profissionais não convencionais de um CEO improvável” — resume uma trajetória bem pouco ortodoxa. “Cursei uma escola mediana e quase não me formei. Adiei a faculdade por três anos para viajar pelo mundo. Nunca fiz qualquer curso na área de negócios. Não sei jogar golfe e ando de motocicleta em vez de ter um belo carro”, conta o executivo, no Brasil para acompanhar um evento de comunicação e relações públicas.

Longe de seguir a cartilha tradicional dos livros de auto-ajuda empresarial, Cook se vale de episódios curiosos para mostrar que os caminhos para o sucesso profissional são muitos e variados. “Neste ano, 85% dos 3,2 milhões de estudantes americanos que vão concluir a graduação universitária voltarão para casa, e 22% não vão conseguir um emprego. Entre aqueles vão conseguir um emprego, 50% vão trabalhar como garçons, garçonetes ou baristas. Se você é um deles, você tem sorte”, diz Cook no livro. A sorte de trabalhar em empregos vistos, muitas vezes, como menos nobres está em poder experimentar profissionalmente. No capítulo “Work for tips” (“Trabalhe por gorjetas”), o presidente da GolinHarris fala do tempo em que trabalho como porteiro do Biltmore Hotel. “Se as pessoas têm um emprego em que dependem da gorjeta, como garçom ou barman, não devem ficar deprimidos com isso e sim aprender sobre o serviço ao cliente”, sustenta Cook. “E usar essa experiência quando se candidatarem a outros empregos para mostrar como aprenderam a resolver problemas.”

O ponto de conexão entre todas essas experiências é habilidade de improvisar, qualificada por Cook como essencial para que os recém-formados consigam se sobressair em meio à multidão. “Hoje em dia, o ambiente de negócios em que trabalhamos muda tão rapidamente que é impossível saber tudo o que vocês precisa para tomar uma decisão”, explica o especialista em marketing e posicionamento corporativo. “Você não tem todas as pesquisas disponíveis, não tem o tempo para analisar cada decisão. Então, você tem que, de alguma forma, descobrir o que fazer à medida em que o processo acontece. É como tocar de ouvido. Eu chamo isso de improvisar.”

Para “tocar de ouvido”, como propõe Cook, é preciso saber escutar e, muitas vezes, simplesmente ficar em silêncio, como aprendeu o então jovem estudante num encontro com um guru indiano, no Himalaia. Ao provocar o homem, que falava sobre seus próprios poderes espirituais, Cook levou um soco no queixo. “Algumas vezes, você deve calar a boca e ouvir”, conclui. Em média, uma pessoa diz 16 mil palavras por dia, informa ele no capítulo “Ouça um guru”. Na outra ponta, um ouvinte normal consegue se manter atento ao discurso por não mais que 27 palavras. O resultado é que muitas mensagens são perdidas no meio do caminho.

Desde 1986 na GolinHarris, o executivo teve a oportunidade de trabalhar — durante um curto período — com Steve Jobs na época em que a Pixar preparava o primeiro “Toy Story”, antes de a companhia ser adquirida pela Disney. “Steve comparecia a todas as reuniões relacionadas a relações públicas. Foi o CEO com mais experiência de mídia que eu já conheci”, afirma. “Com a revista ‘Time’, por exemplo, ele não só deu entrevista mas insistiu que deveria estar na capa.”

O fundador da Amazon, Jeff Bezos, é descrito por Cook como um empreendedor “sem medo”. “Ele experimenta tudo na sua vida pessoal e nos negócios. Jeff tentou um monte de coisas na Amazon e muitas vezes elas não deram certo. Abriu um site de leilões para competir com o eBay, mas foi um fracasso. Ele seguiu adiante e simplesmente foi fazer outras coisas”, diz Cook, que trabalhou com Bezos no projeto de uma loja online de vídeos.

ALGUMAS DICAS DE FRED COOK

Dirija para um bêbado: antes de enveredar pela área de relações públicas, Cook criou uma startup, a Sober Chauffeur, que fornecia motoristas para clientes embriagados evitarem multas e prisão. O negócio atraiu atenção da mídia americana e internacional mas fracassou. “Meu argumento é de que as pessoas devem começar seus próprios negócios. Especialmente quando são jovens, estão na faculdade ou acabaram de sair. Porque você aprende muito mais com um negócio próprio do que trabalhando como iniciante para outra pessoa”, aconselha.

Pergunte ao capitão: Partindo do Havaí, Cook percorreu a Ásia a bordo de um petroleiro norueguês como ajudante de cabine. “Meu conselho é: se alguém precisa perguntar algo ao capitão, não deve ter medo. Se quer alguma coisa, não deve ter medo de conhecer e conversar com o chefe ou com os integrantes seniores da companhia, e não ficar intimidado pelas pessoas que podem ter o maior impacto na sua carreira”, afirma.

Faça as regras: A maioria dos executivos chega ao topo se adaptando à cultura da empresa e atingindo metas financeiras trimestrais. Seguem um caminho mais do que conhecido. “O mundo dos negócios é cheio de regras. Alguns se dão bem seguindo essas regras. Outros, quebrando-as. Você tem de encontrar o balanço exato entre esses dois lados”, diz Cook, em artigo publicado no site “The Huffington Post”. Assim que conseguiu seu primeiro emprego numa agência de RP, aos 36 anos, Cook se candidatava para cada tarefa chata. “Depois de me tornar indispensável, em vez de pedir promoções, eu pedia oportunidades.”

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