Por marta.valim

Por Fernando Alvarus ([email protected])

Tente responder rápido: você deixaria sua filha namorar um surfista? A resposta, provavelmente, seria não. O velho estereótipo do vagabundo passando o dia inteiro na praia, o cabelo queimado pela parafina, ainda prevalece. E se você soubesse que ele pode ter um salário maior que o de um engenheiro no Brasil?

Um surfista profissional considerado mediano, tem rendimentos de cerca de R$ 11 mil mensais. Se ele estiver entre os 36 melhores do mundo, espécie de Série A do surfe, as cifras são consideravelmente maiores. Adriano de Souza, 6º colocado no ranking, teria um rendimento estimado em US$ 38 mil (algo em torno de R$ 84 mil) por mês, sem contar patrocínios indiretos e fornecimento de equipamento.

Considere-se apenas a premiação dos campeonatos que fazem parte do circuito mundial da Associação dos Surfistas Profisisonais (ASP), ou World Tour, como também é conhecido: só para entrar no mar, os surfistas da elite mundial já recebem quase R$ 18 mil por evento — e em 2014 estão programados 11 deles.

Gabriel Medina, paulista, 20 anos liderou o World Tour até a terceira etapa, acumulando US$ 137 mil nos quatro primeiros campeonatos do ano, valor em torno de R$ 300 mil. As etapas começam com 36 atletas, que se enfrentam em baterias. Os perdedores vão sendo eliminados, mas, ainda assim, têm direito a remuneração. O primeiro colocado de cada evento recebe US$ 100 mil, o segundo US$ 40 mil, o terceiro US$ 20 mil, até os últimos 25 colocados, ganhando US$ 8 mil cada um.

Entre os atletas estrangeiros, os valores podem ser ainda mais impressionantes. A jovem promessa havaiana, John John Florence, de 21 anos, recebe, desde o ano passado, US$ 4 milhões anuais de seu patrocinador principal, a Hurley, submarca da Nike.

O que parecia ser um divertimento de garotos desocupados tem demonstrado ser um bom investimento. Tanto que a ZoSea, empresa ligada a esportes, comprou, no final de 2012, os direitos de imagem e transmissão de todos os eventos da ASP. Passou a administrá-los apenas neste ano. As cifras não são reveladas, mas os gastos das grandes marcas de surfwear — que sempre financiaram os campeonatos — girava em torno de US$ 30 milhões por ano. Destes, pouco menos de US$ 1 milhão apenas para a transmissão de cada campeonato via internet (veja quadro ao lado).

Com a entrada em cena da ZoSea, estas marcas pagarão apenas para ter seu nome associado aos eventos, como no caso do Billabong Rio Pro, competição que tem a companhia australiana como madrinha. Em 2014, cada marca pagará US$ 500 mil por evento; a partir de 2015, US$ 1 milhão. Todas as despesas (e receitas) pertinentes aos campeonatos, assim como a logística de cada competição, passam a ser de responsabilidade da ZoSea. No caso da Billabong, a transferência dos custos para a ZoSea pode ter feito a diferença entre quebrar e continuar existindo. Atingida pela crise mundial em 2008, a empresa chegou a valer US$ 3,5 bilhões em 2007. Mas viu seu valor despencar desde então, obrigando-a fechar 158 lojas e cortar 75% dos fornecedores em todo o mundo. Segundo o jornal inglês “The Guardian”, a perda anual foi de US$ 700 milhões.

Outras três grandes do surfwear bancam etapas do circuito: Quicksilver e RipCurl, australianas, e Hurley, americana. Duas outras provas, em Fiji e na África do Sul, e até o evento do Rio continuam sem patrocinador principal. Mas o que a administração anterior da ASP não havia conseguido em 30 anos de existência, coube a ZoSea: levar para o surfe marcas de outros segmentos. Em 2014, a marca Samsung Galaxy co-assina todos os eventos. Paul Speaker, ex-diretor de Marketing da Liga de Futebol Americano dos EUA e hoje homem forte da ZoSea, não revela quanto a Samsung desembolsará pelo contrato.

Mercado de pranchas

Números da Escola Superior de Ciências Econômicas e Comerciais (Essec), de Paris, afirmam que em 2009 foram vendidas mais de 3 milhões de pranchas em todo o mundo, correspondentes a US$ 1,2 bilhão. Mas, por tratar-se de atividade artesanal em 90% dos casos, os valores podem ser ainda maiores.

Na década de 1970 era comum surfistas trabalharem fabricando pranchas para complementar a renda ou financiar viagens para surfar. Muitos passavam a temporada de boas ondas no Havaí ajudando na oficina de um fabricante local de pranchas — conhecido no mundo do surfe como shaper. O carioca Ricardo Bocão, por exemplo, hoje sócio do canal de esportes Woohoo, da TV paga, ficou três meses em 1974 no arquipélago havaiano surfando e consertando pranchas. Não havia método definido para construir o equipamento dos surfistas, e a tradição era o aprendizado que passava de um para o outro.

Hoje, já existem máquinas capazes de construir uma prancha a partir de um modelo gerado no computador, mas são poucas as oficinas que as utilizam. O preço de um equipamento como este pode ultrapassar os US$ 30 mil, se incluído o software necessário.

Mas, mesmo automatizando o processo, os shapers mais experientes, que passaram grande parte da carreria trabalhando artesanalmente, têm o conhecimento necessário para promover alterações nos projetos, muitas vezes sutis, para obter resultados. A mudança no peso da prancha ou um acréscimo na espessura, fazem muita diferença no surfe de alta performance.

O santista Sylvio Zampol se dedica à fabricação de pranchas desde 1977 e, em 1989, depois de trabalhar com vários outros shapers, criou sua própria marca. Em 2004, Zampol desenvolveu com o sócio, Miguel Jorge, sua própria máquina de shape, que faz a usinagem dos modelos, deixando-os quase prontos. O toque final do shaper, no entanto, é fundamental.

Transmissão via Internet

O sistema de apuração e cálculo das notas dos surfistas numa bateria foi criado pelo brasileiro Mano Ziul, nascido em Niterói, Região Metropolitana do Rio. Em 1984, ele desenvolveu o sistema de informática que permite que os surfistas saibam, em poucos segundos, como foram julgados.

Cada surfista pode pegar até 15 ondas, sendo computadas apenas as duas em que receber as maiores notas. Um conjunto de cinco juízes avalia cada onda; as notas mais alta e mais baixa são eliminadas e uma média entre as três restantes define o resultado. Como os juízes são de nacionalidades diferentes, o critério tenta eliminar um possível favorecimento por compatriotas.

No pacote controlado por Manu Zuil, 22 anos de ASP e diretor de Tecnologia há mais de uma década, está a equipe que há pouco mais de dez anos transmite, ao vivo, todas as etapas do tour. São 18 profissionais operando seis câmeras em diferentes pontos da praia, de dentro d’água, em entrevistas com os atletas e, em algumas provas, até com drones sobrevoando o mar. Tudo isso está à disposição, também, dos juízes, que podem assistir ao replay de uma onda que consideraram polêmica ou difícil de pontuar imediatamente.

Mas a transmissão não se resume às imagens ao vivo: os internautas ainda acompanham a tabulação de notas de cada onda, em tempo real, podendo, inclusive, saber as notas dadas por cada um dos juízes, entre outras funcionalidades.

Está nos planos da ZoSea a criação de pay-per-view para o webcast dos eventos. O acesso gratuito, como é hoje, não deixaria de existir, mas um formato especial para os pagantes seria criado. A empresa está de olho numa audiência que bateu o recorde de todos as transmissões de eventos esportivos pela internet em 2013, segundo o site especializado Surfline.com. No último dia da etapa final do circuito, em Pipeline, no Havaí, mais de um milhão de internautas assistiram a prova em 70 países.

E a transmissão via webcast cabe como uma luva para o surfe. Diferentemente de uma partida de futebol, por exemplo, em que a bola rola com hora e dia marcados, as provas do surfe só acontecem quando os organizadores consideram que as condições de ondulação, maré e vento são as melhores possíveis. Por isso existe uma janela de competição, um intervalo de até 12 dias de espera. O que praticamente torna inviável assitir o surfe pela televisão.

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