Por marta.valim

A estrutura com quatro grandes contêineres pretos e quilômetros de cabos elétricos, ao lado de uma das entradas do Maracanã, está quase pronta. Com capacidade instalada de 4 megawatts (MW), foi contratada para garantir o fornecimento de energia às emissoras de televisão que vão cobrir a Copa de 2014, evitando que qualquer pane na rede de distribuição de eletricidade prejudique a exibição das marcas patrocinadoras do megaevento. É uma das maiores das que serão montadas nos 12 estádios da Copa, que vem movimentando o mercado de geração temporária de energia no Brasil.

“A transmissão (dos jogos pela TV) é um ponto crítico do evento. Na Copa da Alemanha, por exemplo, a final foi assistida por 70 mil pessoas no estádio e por 700 milhões de pessoas pela TV”, comenta Thiago Moraes, diretor de marketing da Aggreko, contratada pela Host Broadcast Series (HBS), responsável pela transmissão, para garantir o suprimento de energia. “Então, todos os contratos de direitos de transmissão e patrocínios dependem de suprimento confiável de energia, para que todos tenham retorno sobre o investimento”, completa o executivo.

Com um contrato de US$ 20 milhões, a Aggreko está concluindo a instalação, nos estádios e no centro de mídia, de uma capacidade instalada de 50 MW, o equivalente para abastecer 50 mil residências. O centro de mídia, localizado no Riocentro, na zona Oeste do Rio, terá a maior estrutura, com capacidade instalada de 12 MW. Palco dos jogos considerados críticos (abertura, semifinais e finais), Arena Corinthians, Mineirão e Maracanã, terão uma capacidade de 4 MW, cada — no estádio carioca, a empresa optou por instalar 1 MW adicional como reserva.

Presente em 47 países e fornecedora de cinco edições da Copa e nove Olimpíadas, a empresa mobilizou pessoal e grupos geradores em outras partes do mundo para atender ao contrato. Serão deslocados para o Brasil 40 funcionários do exterior, para se juntar à equipe de 60 brasileiros que ficarão dedicados à Copa do Mundo. Segundo Moraes, metade da frota de geradores usada no megaevento veio de outros países especialmente para a ocasião.

A energia fornecida pela Aggreko se limitará a abastecer as emissoras de TV. Outras empresas do ramo também veem aproveitando oportunidades com a Copa, que terá geradores de segurança para garantir o fornecimento de energia aos estádios, em contratos conhecidos como overlay. Uma delas é a mineira A Geradora, que garantiu a energia da transmissão de TV na Copa das Confederações, em 2013, e este ano fechou contrato para fornecer equipamentos para cinco estádios. De acordo com Cândido Terceiro, diretor Comercial e de Marketing da empresa, serão instalados, em média, entre 60 a 70 grupos geradores de todos os portes por arena — somando capacidade de 20 MW, cada.

Terceiro não revela o valor dos contratos. Sua operação, porém, difere da Aggreko, que vai gerar energia mesmo se a distribuidora local estiver fornecendo. No caso de A Geradora, pequenos volumes serão gerados para cobrir a necessidade de sistemas de geração, mas grande parte da energia foi contratada em esquema de backup, para ser acionada em caso de corte no fornecimento tradicional. Com uma frota total de 4 mil MW, Terceiro diz que ainda disputa novos contratos para a Copa, mas só tem capacidade para pegar mais um contrato — mesmo com a proximidade do jogo de abertura, há arenas ainda negociando fornecedores.

Em ambos os casos, a geração será feita com motores a diesel, mais poluentes e caros do que combustíveis concorrentes, como o gás natural. O diretor da Aggreko diz que a Fifa vai medir as emissões para garantir a recuperação de carbono após o evento. Terceiro, por sua vez, afirma que vem negociando com a entidade procedimentos para otimizar o consumo de combustível em seus contratos. “As especificações iniciais preveem o consumo de 1 milhão de litros em cada contrato, mas estamos trabalhando para reduzir para algo entre 400 mil e 500 mil litros”, conta o diretor de A Geradora.

Medo de racionamento aumenta consultas 

Se a Copa do Mundo tem se mostrado uma grande oportunidade de negócios para empresas de geração temporária — que têm entre seus clientes tradicionais as indústrias de óleo e gás, mineração e construção civil, entre outras — há grande expectativa sobre os rumos do setor elétrico, que pode agitar ainda o segundo semestre. Aggreko e A Geradora confirmam que há um grande número de consultas de empresas interessadas em avaliar disponibilidade e custos de contratação do serviço em caso de racionamento de energia.

“As consultas aumentaram significativamente. Acredito que vamos ter bastante trabalho depois da Copa”, diz Terceiro. Segundo ele, parte das empresas quer saber quanto custaria suprir 20% de seu consumo, volume equivalente ao corte imposto no racionamento de 2001. Moraes, da Aggreko, também percebeu o aumento das consultas mas diz que ainda não há fechamento de contratos por medo de racionamento de energia.

Mesmo assim, ele comemora um crescimento anual de 10% do faturamento da companhia no Brasil, com maiores operações em óleo e gás e mineração. O executivo não abre os números por país, mas diz que a América Latina é hoje responsável por 15% do faturamento global do grupo, que chegou a US$ 2,5 bilhões em 2013.

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