Mineradora brasileira cresce com gás de xisto nos EUA

Mineração Curimbaba, maior produtora mundial de propante de bauxita, expande produção para abastecer à crescente indústria de petróleo e gás não convencionais nos EUA

Por O Dia

Enquanto a indústria nacional teme a perda de competitividade com a redução do preço do gás natural nos Estados Unidos, a pequena cidade de Poços de Caldas, no sul de Minas Gerais, vem colhendo frutos com o desenvolvimento de jazidas não convencionais de petróleo e gás nos Estados Unidos. Com apenas 156 mil habitantes, Poços de Caldas sedia o maior produtor mundial de propantes de bauxita, pequenas pelotas usadas no processo de fraturamento hidráulico de poços produtores. A Mineração Curimbaba projeta este ano um crescimento de 15% em sua produção voltada para o setor de óleo e gás, que vem ganhando importância frente a outras atividades da companhia.

“Tínhamos uma atividade mais voltada para abrasivos (grãos utilizados para remover partículas de outros materiais por atrito), mas agora o foco está mais voltado para os propantes”, conta Rafael Curimbaba, executivo responsável pela área de novos negócios da empresa. No ano passado, a mineradora produziu 284 mil toneladas e este ano, diz o executivo, a expectativa é chegar a 326 mil toneladas — até abril, foram 108 mil toneladas. Toda a produção é exportada para os Estados Unidos e para a Argentina, que também começa a desenvolver jazidas não convencionais de petróleo e gás.

A Mineração Curimbaba projeta este ano um crescimento de 15% em sua produção voltada para o setor de óleo e gásDivulgação


Com controle familiar, a mineradora foi fundada em 1940 por Benedito Curimbaba e passou por uma remodelação em 1961, quando ganhou o nome atual. São hoje 11 unidades no Brasil e no exterior, com quase 3 mil empregados, e planos de expansão internacional para acompanhar o crescimento do mercado. Hoje, o fornecimento de propantes para a indústria de óleo e gás já representa 50% do faturamento da mineradora, que gira em torno de R$ 1 bilhão por ano, em números não consolidados.

Rafael Curimbaba não abre os números sobre cada unidade, mas dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) compilados pelo portal Data Viva, do governo de Minas Gerais, indicam que as exportações de minério de alumínio de Poços de Caldas somaram US$ 109 milhões em 2012. Deste total, 52,36% tiveram como destino o mercado americano e 33,6% foram embarcados para a Argentina — o restante é dividido entre Emirados Árabes Unidos, Omã e outros, com menor participação. A empresa emprega hoje cerca de 800 pessoas na cidade.

“Em jazidas convencionais, são usadas cerca de 400 a 500 toneladas de propante por poço. Para não convencionais, pode-se ir a 300 mil toneladas por poço. E isso explica o boom no mercado mundial de propantes”, comenta Curimbaba. Os propantes são misturados à água e injetados em alta pressão na rocha formadora do petróleo, que tem pouca porosidade, com o objetivo de abrir fraturas para permitir o escoamento do óleo e do gás — daí o nome “fraturamento hidráulico”.

Projeções da consultoria especializada Freedonia apontam que a demanda norte-americana deve chegar perto de 50 milhões de toneladas em 2017, movimentando o equivalente a US$ 10 bilhões. Os propantes de bauxita devem abocanhar cerca de 10% deste mercado, dizem especialistas. O produto pode ser feito ainda à base de areia e argila. A escolha pela matéria-prima depende da pressão que se pretende injetar nos poços: os produtos de bauxita suportam maior pressão, enquanto os de areia, que dominam as vendas globais, são usados para poços menos complexos. No Brasil, há um grande produtor de propantes de areia, a Mineração Jundu, que também exporta para empresas de perfuração de poços petrolíferos nos Estados Unidos.

O mercado mundial de propantes é liderado pela Carbo Ceramics, com sede no Texas, um dos principais destinos das exportações mundiais do produto. A segunda posição é disputada pela Mineração Curimbaba e a francesa Saint Gobain, que tem uma linha de produtos mais variada do que a concorrente brasileira. O mercado, porém, vem sendo invadido por fornecedores chineses: segundo dados da organização independente US International Trade Comission citados pela agência Reuters, as exportações de propante da China para os Estados Unidos cresceram mais de 12 vezes entre 2008 e 2011.

No Brasil, ainda não há grande consumo dos produtos, dado o estágio ainda embrionário da exploração de jazidas não convencionais de petróleo e gás. Até agora, foram realizados apenas testes de fraturamento, com pressão inferior à usada pela indústria americana — além de poços de revitalização de reservatórios antigos da Petrobras. Empresa mais adiantada nas pesquisas, a canadense Gran Tierra planeja novos poços na Bahia no ano que vem. A mineira Orteng avalia se dará continuidade a um poço na Bacia do São Francisco ainda este ano.

Polêmica, a tecnologia de fraturamento hidráulico é vista com ressalvas por ambientalistas e chegou a ser banida em alguns países, diante dos riscos de contaminação de lençóis freáticos por produtos químicos injetados nos poços. No Brasil, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) publicou recentemente regulamentação estabelecendo parâmetros de segurança e análise de riscos antes da perfuração de poços, que podem retardar um pouco o desenvolvimento das jazidas, na avaliação de executivos do setor.

Nos Estados Unidos, com vasta infraestrutura de transporte de gás e mercado de bens e serviços consolidados, o desenvolvimento de jazidas não convencionais ganhou o status de revolução energética, ao garantir, em pouco tempo, uma explosão nas curvas de produção de petróleo e gás — reduzindo preços, melhorando a balança comercial e incentivando a geração de empregos e negócios em um momento de crise econômica.

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