Por monica.lima

São Paulo - Um movimento recente no Brasil pode ajudar a reverter o hiato de iniciativas e investimentos que existe entre o ainda nascente mercado brasileiro de empreendedorismo e o Vale do Silício, principal polo mundial de inovação tecnológica. Desde meados de 2013, grandes multinacionais de tecnologia e telecomunicações estão reforçando no país uma prática já adotada no famoso vale americano: o investimento em start-ups locais.

Nesse modelo, grandes companhias adquirem uma participação em empresas novatas — em diferentes estágios de maturação —, por meio de fundos próprios de investimento e de participações. O acordo envolve ainda outros recursos, como o acesso à tecnologia das chamadas empresas-mãe, além de iniciativas de aceleração, consultoria e maturação desses projetos. Esse tipo de aporte já existia no Brasil, mas o perfil era diferente: ao invés de grandes empresas, predominavam investidores individuais.

“O Brasil ainda não possui muita tradição no mercado de start-ups, mas, em contrapartida, tem um enorme potencial pela frente. Por isso, decidimos criar um projeto diferenciado para o país”, diz Franklin Luzes, diretor da Microsoft Ventures no Brasil.

Lançada globalmente há cerca de um ano, a Microsoft Ventures aposta em um modelo que cobre diferentes etapas de evolução de uma start-up. Com um portfólio local de 20 empresas, uma das ações para o Brasil foi a criação de um fundo de participações, em março deste ano, no qual a gigante de software é sócia majoritária, ao lado do Banco Espírito Santo.

O fundo em questão investe entre R$ 120 mil e R$ 3 milhões em empresas novatas com menos de R$ 2 milhões de receita e potencial de internacionalização em um espaço de dois a três anos. “O fundo procura atender a uma lacuna que identificamos no mercado brasileiro, que inclui as empresas que já passaram pelo processo de aceleração mas ainda têm dificuldade para atrair investimentos de maior porte”, explica Luzes. Com R$ 30 milhões já captados, o fundo avalia agora uma segunda fase de captação, que em um estudo preliminar, pretende levantar entre R$ 50 milhões e R$ 70 milhões.

O mesmo fundo criou a Acelera Partners, holding que tem como objetivo desenvolver uma rede de aceleradoras de start-ups em todo o país e que já conta com um primeiro aporte na Aceleratech. Hoje, essa estrutura já cobre o eixo Rio-São Paulo. A ideia agora é expandir para outros centros, como as regiões Sul e Nordeste, diz Luzes.

“Além do acesso à tecnologia de ponta, um dos grandes ganhos para uma start-up nesse modelo de investimento é o fato de que ela tem acesso a toda capilaridade e aos clientes da empresa-mãe, o que a transforma automaticamente numa empresa global”, diz Marcelo Nakagawa, diretor de Empreendedorismo da Faculdade de Informática e Administração Paulista (Fiap).

Esse é o caso da Cerensa, empresa do portfólio da Microsoft que oferece um software de controle de impacto ambiental. O aplicativo permite o controle da emissão de carbono. Hoje, a start-up tem na carteira clientes como a Odebrecht e já atende a 150 obras da companhia no Brasil e no exterior. “Nossa proposta é incentivar projetos que tenham um impacto local e resolvam problemas do país, mas que num segundo momento, sejam capazes de virar grandes empresas em escala global”, afirma Luzes, da Microsoft.

Os benefícios não estão restritos às empresas novatas. Para as multinacionais, esse modelo de investimento traz, entre outros ganhos, a possibilidade de encurtar o caminho para inovações que estão sendo desenvolvidas e que se relacionam diretamente ao mercado em que atuam. “Nós percebemos que a inovação interna não consegue suprir 100% das nossas necessidades. Por isso, decidimos buscar projetos de start-ups, que em grande parte dos casos não estão limitados por questões como os retornos de curto prazo que uma empresa de grande porte deve dar aos acionistas e ao mercado”, diz Carlos Pessoa, diretor da Wayra Brasil, aceleradora criada globalmente pela Telefónica no fim de 2011.

Os investimentos da Wayra envolvem um aporte total de R$ 300 mil, dividido entre a compra de participação de 5% a 10% nas start-ups e a oferta de infraestrutura física e tecnológica. Com um portfólio atual de 30 empresas no Brasil, o foco da Wayra está nos projetos ligados a segurança digital, comunicação entre máquinas, pagamentos móveis, educação e saúde. Um dos destaques é a Bov Control, que desenvolveu um sistema de controle remoto do rebanho pecuário via smartphones. “Como todo investidor, temos expectativa de saída dos negócios. Mas nossa visão é de longo prazo. Com o desempenho das nossas empresas, o valor que investimos no Brasil já triplicou desde que começamos a atuar por aqui”, afirma.

A Intel Capital, braço de investimentos da Intel também enxerga boas perspectivas para o Brasil. “Esse movimento de fundos corporativos é global e está se refletindo no Brasil por conta do tamanho do mercado local de tecnologia e telecom”, afirma Ricardo Arantes, diretor de investimento da Intel Capital no Brasil. “Todo investimento que fazemos está diretamente ligado a uma estratégia da Intel.

A Intel Capital possui investimentos em 17 empresas brasileiras. Em média, a participação gira entre 10% e 40% e os aportes variam de US$ 1 milhão a US$ 10 milhões. Entre os investimentos recentes estão a WebRadar, especializada em big data, e a MinhaVida, empresa de mídia digital.

Os projetos ligados à mobilidade são uma das prioridades da Qualcomm Ventures. “Uma das perguntas que fazemos é se aquele determinado negócio vai ampliar o mercado em que atuamos ou ajudar a criar um novo segmento nesse mesmo mercado”, diz Carlos Krokon, diretor da Qualcomm Ventures para a América Latina.

Há dois anos no Brasil, a Qualcomm Ventures tem 8 investimentos no país e possui modelos de aporte para diferentes estágios – de empresas em estágio inicial a projetos que já geram receita —, além de investir em coinvestimentos com outros fundos. Um dos destaques do portfólio é a EmpregoLigado, start-up que desenvolveu um sistema para celulares básicos que oferece vagas para funções operacionais — como atendentes de call center —, via mensagens de texto.

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