Por monica.lima

Com 40,29% dos domicílios dotados de computador conectado à internet em 2012, o Brasil atrai operadoras de satélite interessadas em oferecer o serviço de banda larga via satélite em regiões afastadas — e em outras não tão distantes — dos grandes centros. Pelo menos três empresas estrangeiras — O3b Networks, Hughes e Yahsat — estão investindo para oferecer o serviço no país por meio da tecnologia de Banda Ka, que assegura maior capacidade na transmissão de dados e menor latência (tempo de resposta). Subsidiária da Embratel, a brasileira Star One finaliza estudos para oferecer serviços adicionais, além da TV por assinatura, por meio de um satélite de Banda Ka.

As dimensões continentais do país tornam inviável comercialmente a expansão das redes de fibra ótica para localidades de menor densidade populacional e renda mais baixa. “A internet via satélite é uma alternativa não só para lugares remotos do país, mas também para regiões metropolitanas de grandes cidades, que muitas vezes não são atendidas de maneira satisfatória por outras tecnologias”, diz Eduardo Tude, presidente da consultoria Teleco. Foi justamente essa clientela potencial em zonas mal atendidas ou sem serviço de banda larga que chamou a atenção da americana Hughes. “Não tenho expectativa de vender nada na Zona Sul do Rio de Janeiro”, resume Rafael Guimarães, presidente da Hughes do Brasil.A subsidiária brasileira já conta com dois satélites próprios e prepara o lançamento de um terceiro dentro de dois anos. A previsão é de que em meados de 2016 a empresa comece a oferecer serviços de banda larga via satélite tanto no atacado como no varejo. O modelo de negócios será similar ao adotado pela Hughes nos Estados Unidos, onde a empresa tem cerca de um milhão de clientes residenciais (pessoas físicas). Lá, o produto mais vendido tem velocidade de 12 megabits por segundo (Mbps) e custa aproximadamente US$ 60 por mês. “Estamos preparando a nossa retaguarda para a venda direta ao consumidor final”, esclarece Guimarães. A concorrência dos acessos fixos de banda larga conectados a redes móveis (4G, principalmente) não preocupa o executivo: “Nos Estados Unidos, onde a rede 4G já tem dois anos e muito mais capilaridade, nosso negócio não foi afetado.”

Já nos próximos meses — agosto ou setembro — o mercado brasileiro deve ganhar um novo concorrente no serviço de banda larga via satélite: a O3b. A empresa tem entre seus sócios o Google, a HSBC Principal Investments e a operadora europeia de satélites SES, cuja participação majoritária é de 47%. “Acabamos de abrir um escritório no Rio de Janeiro e há duas semanas contratamos um diretor-geral para a operação brasileira. Estamos concluindo as obras do nosso gateway (sistema que interconecta o satélite às redes terrestres de comunicações)em Hortolândia”, informa Omar Trujillo, vice-presidente de Vendas para a América Latina e a África da O3b.

Com uma constelação de oito satélites, quatro deles lançados na semana passada, a O3b tem um plano de negócios orçado em US$ 1,6 bilhão que inclui ainda a entrada em operação de mais quatro satélites no primeiro trimestre do próximo ano. “Vamos atuar apenas no atacado, prestando serviços para governos, empresas de mineração e petróleo, operadoras de celular e provedores de serviços satelitais”, explica Trujillo. Na África, a O3b já tem como cliente a operadora Orange. Na Ásia, presta serviços para a Portugal Telecom, no Timor Leste. Em terras brasileiras, a companhia chegou a fechar acordo com uma operadora da Região Norte, mas atrasos na conclusão do gateway de Hortolândia somados a outros problemas levaram à revisão do contrato.

Pioneira na oferta de banda larga para o mercado de consumo, ainda em 2002, a brasileira Star One descontinuou o serviço após cinco anos. “Na época, tivemos adesão de consumidores domésticos interessados em nossos serviços, mas num baixo volume. Desde então, o mercado corporativo é o que mais contrata serviços de satélite”, diz Gustavo Silbert, diretor executivo da Embratel responsável pela área de satélites. Com base em pesquisas que apontam um aumento nos próximos anos das demandas de dados, aplicações e de banda larga via satélite, a Star One se prepara com a construção de dois novos satélites (C4 e D1). “O que se espera é que com o uso da Banda Ka, que traz algumas novas possibilidades para aplicações de acesso banda larga, a demanda cresça ainda mais. Existem estimativas que indicam crescimentos médios de mais de 12% nos próximos oito anos”, conta Silbert.

Mais sensível aos efeitos de chuvas e nuvens do que outras tecnologias, a Banda Ka também é parte da estratégia da operadora de satélites Yahsat para entrar na América Latina, via Brasil. Sediada nos Emirados Árabes Unidos,a empresa planeja lançar seu terceiro satélite (o Al Yah 3) em 2016, ampliando sua cobertura comercial de Banda Ka para outros 17 países e 600 milhões de usuários, incluindo o Brasil. O novo satélite também reforçará a cobertura da operadora no Oriente Médio, na África, no Sudoeste da Ásia e na Ásia Central. No Brasil, o objetivo é fornecer o serviço de banda larga via satélite para residências e empresas, abrangendo um mercado consumidor potencial formado por 95% da população.

Segundo dados compilados pela Teleco junto às operadoras e à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), havia no país 21,7 milhões de acessos de banda larga ao fim do primeiro trimestre deste ano. Dados Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que, dos 62,8 milhões de domicílios existentes no país em 2012, 25,3 milhões tinham computador com acesso à web.

De acordo com o instituto Data Popular, os domicílios de classe alta (A e B) e média (C) somam 50,7 milhões no país, conforme indicam dados tabulados a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD), do IBGE. Subtraindo os 21,7 milhões que já possuem serviço de banda larga, o mercado potencial seria — em tese — de quase 30 milhões de domicílios.

Banda Ka tornou mais barato serviço de dados

A oferta de serviços de banda larga via satélite a preços acessíveis ao consumidor médio só foi possível a partir da popularização da Banda Ka. A tecnologia começou a ser utilizada nos Estados Unidos há cerca de dez anos, barateando o custo do serviço. “Até pouco tempo atrás, a conexão de dados via satélite tinha baixa velocidade, era mais usada por empresas”, recorda Eduardo Tude, da Teleco.

Mais suscetível às interferências de fatores climáticos, a Banda Ka tem limitações para uso em comunicações críticas, como é o caso de algumas redes de dados corporativas de empresas, diz Gustavo Silbert, da Embratel. “Tudo indica que os custos de uso da Banda Ka deverão ser mais baixos, permitindo sua popularização para aplicação não críticas”, acrescenta o executivo.

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