Fabricantes nacionais de computadores lutam para continuar no jogo

Para resistir ao avanço dos estrangeiros, empresas nacionais de computadores e outros dispositivos investem em diversificação

Por O Dia

O ano era 2008. O Brasil vivia o boom inicial que alçaria o país à posição atual de quarto mercado mundial de computadores. A entrada de uma ampla gama de consumidores das classes C e D no mundo da informática estava por trás desse movimento. Nas lojas especializadas e afins, cerca de 60 marcas brasileiras disputavam a preferência dos compradores e representavam 40% das vendas da categoria na época, segundo a IT Data. Seis anos depois, a realidade é bem diferente. Seguindo uma tendência mundial, o mercado brasileiro teve uma queda de 10% em 2013 e, como reflexo das crescentes investidas das multinacionais no país, muitos fabricantes nacionais ficaram pelo caminho. Quem sobreviveu procura agora alternativas para continuar a respirar.

“Hoje, cerca de 30 marcas brasileiras ainda estão no mercado. A participação dessas empresas é de 20%, com o agravante de que apenas uma delas, a Positivo, responde por 15% do mercado. Os outros 5% estão distribuídos entre diversos fabricantes de pequeno porte”, diz Ivair Rodrigues, consultor da IT Data. A escala e o maior poder de barganha das gigantes multinacionais junto ao varejo e aos fornecedores de componentes explicam parte dessa tendência. “Quem ainda se sustenta no mercado está atuando em pequenas regiões ou em segmentos como governo e mercado corporativo”, afirma.

Diversificar o portfólio foi o caminho escolhido pela brasileira Accept. “Cada vez mais precisamos nos reinventar. Para qualquer fabricante, o cenário não é confortável. O bolo diminuiu, mas, em contrapartida, existem mais empresas querendo aumentar suas fatias”, afirma Silvio Campos, diretor comercial da Accept. “Para uma empresa brasileira, esse contexto é ainda pior. Não há como competir quando uma multinacional investe pesado em fabricação local e tem volume para reduzir substancialmente suas margens e ganhar mercado”, diz.

A Accept decidiu, a partir de 2011, reformular o seu portfólio e o seu foco de atuação. A estratégia envolveu medidas como o encerramento da produção de notebooks e a decisão pela oferta restrita dos desktops ao mercado corporativo. “Dessa forma, nós evitamos o confronto direto com essas empresas, que miram primeiro o mercado consumidor”, explica.

No caso dos desktops, a aposta da empresa é uma linha de mini-PCs, os chamados “Thin Clients”. Esses equipamentos fazem as vezes de um desktop, com a diferença de que grande parte dos recursos de processamento e armazenagem ficam sob a responsabilidade de um servidor central. Com atrativos como menor consumo de energia e de espaço físico, essa oferta, diz Campos, tem tido boa aceitação em mercados como automação comercial e o segmento de segurança eletrônica e patrimonial.

Outra linha que ganhou espaço foi a de servidores, que representa cerca de 30% da receita atual da companhia. Com fabricação própria em Ilhéus, a terceira vertente do portfólio da companhia são os projetos de produção terceirizada para outros fabricantes. “Com essa diversificação, tivemos uma redução de 4% nas vendas em 2013, mas um aumento de lucratividade de 25%. Exatamente por fugir da guerra do varejo”, diz Campos.

Além da entrada no mercado de tablets, com uma oferta restrita a empresas, os próximos passos da Accept incluem o anúncio de uma fusão com outra fabricante nacional. A empresa em questão possui atuação concentrada em Goiás e no Distrito Federal, especialmente no mercado de pequenas e médias empresas, e do governo. “Com esse acordo, temos uma expectativa de crescimento de 20% na receita em 2014”, observa.

A estratégia da Microboard também envolveu a limitação da oferta de desktops aos mercados empresarial e governamental, bem como o investimento em projetos de manufatura terceirizada. O que diferencia a empresa da Accept, no entanto, é a aposta na oferta de tablets para o mercado consumidor.

Com produtos na faixa de R$ 349 a R$ 599, a ideia da companhia é ocupar um espaço intermediário entre os modelos de entrada de marcas desconhecidas e os tablets de multinacionais como Apple e Samsung. “Como temos menor escala, a ideia é nos diferenciar com produtos mais adaptados ao gosto do consumidor brasileiro. Como trabalham com produtos globais e em grande volume, as multinacionais não tem muita margem de manobra para investir nessa abordagem”, diz Camila Gomes, diretora de Marketing e de Desenvolvimento de Produtos da Microboard.

Hoje, os tablets representam 90% das vendas da Microboard. A empresa também está investindo na diversificação de seu portfólio móvel. Após lançar seus primeiros modelos na categoria conhecida como Phabet — misto de celular e tablet — a companhia planeja investir em equipamentos que mesclam recursos de tablets com notebooks, seguindo uma tendência do mercado.

Representante local mais recente, a DL ingressou no mercado diretamente no segmento de tablets. Com estratégias similares às adotadas por multinacionais — a empresa terceiriza, por exemplo, a produção de placas-mãe com a Foxconn — a companhia se consolidou como uma das principais empresas na categoria, com investimento principalmente no mercado intermediário. “Nosso foco é combinar qualidade, preço e escala”, diz Francisco Hagmeyer Jr., diretor comercial e de Marketing da DL.

Na contramão de boa parte das marcas brasileiras, a DL está fazendo frente às multinacionais e detém cerca de 20% do mercado brasileiro de tablets, segundo fontes variadas do mercado. A empresa acaba de investir R$ 10 milhões na ampliação de sua fábrica em Santa Rita do Sapucaí (MG). “Hoje, a unidade tem capacidade de produzir 12 mil unidades por dia. Vamos dobrar esse volume”, diz.

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