Por fabio.nascimento

Após trilhar por décadas seu caminho pela sociedade brasileira e consolidar seu conceito, a sustentabilidade está chegando ao topo das grandes corporações – os conselhos de administração -, onde as decisões são tomadas pelos sócios das companhias. A escalada dentro das empresas está relacionada ao fato de que o tema atinge diretamente o coração das organizações. “Quando afeta o valor das companhias, a reputação, o tema sobe para o nível mais alto da governança, que é sua relação com o dono da empresa”, explica o administrador Roberto S. Waack, integrante do Conselho de Administração do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC). Apesar da boa notícia, Waack alerta que “... o papel dos governos de colocar a agenda em pauta é fundamental. Infelizmente, não estamos vendo isso no Brasil. Nos últimos seis anos, no fim do governo Lula e na gestão Dilma, houve uma regressão”.

Como o tema sustentabilidade vem evoluindo dentro das empresas, especialmente na esfera dos conselhos de administração?

Essa temática socioambiental vem crescendo desde a década de 1960 . Nos últimos anos, teve um impulso muito grande no seu lado econômico. Os primeiros anos, talvez as primeiras décadas, foram para tentar entender o que significava a pegada da empresa na sociedade. Foi um período em que os principais esforços eram no sentido de identificar problemas e conscientizar pessoas. Era um tema tratado por áreas ligadas a parte de RH. Depois, ocorreu confusão com responsabilidade social. Foi o momento de colocar os ingredientes na batedeira.

Nos últimos dez anos, com a formatação de relatórios de sustentabilidade, a questão dos passivos ligados às questões socioambientais passou a se consolidar. O principal fator foi o conceito do relatório integrado. O relatório integrado nada mais é que o reconhecimento que ações de sustentabilidade ­- a pegada socioambiental, positiva ou negativa - afetam o valor das organizações, porque há passivos, inovações. Quando isso afeta o valor das companhias, a reputação, o tema sobe para o nível mais alto da governança, que é sua relação com o dono da empresa.

Essa viagem (sustentabilidade) está chegando ao ponto em que há reconhecimento claro que esses elementos estão ligados ao modelo de negócios e às decisões de donos. RH, gerência de sustentabilidade, diretoria de sustentabilidade, contaminou os CEOs. Praticamente não há CEOs que não tenham em seu repertório o tema da sustentabilidade. Agora, mais recentemente, esse tema está sendo levada aos conselhos. Os conselhos são os últimos a emergirem nessa questão.

Quais os setores mais avançados nesse tema?

Existem dois grandes movimentos: o setor florestal talvez seja o mais ligado a esse tema, porque tem uma externalidade positiva. A questão socioambiental para o setor florestal representa aumento de valor. Esse foi o primeiro setor a se organizar por sistemas de certificação. Talvez seja o segmento de negócios mais preparado para lidar com essa discussão. O próximo é o setor de alimentos, que está vindo com velocidade muito grande. Isso está muito relacionado ao impacto da alimentação na sociedade, à qualidade de alimentos, à discussão sobre obesidade. O setor de alimentos é altamente intensivo no uso da terra e também está relacionado a externalidades, como desmatamento, consumo de água, etc.

As empresas mais próximas do consumidor final estão na linha de frente dessa discussão, como Nestlé e Unilever, com sistemas de certificação para agricultura e sistemas de verificação de externalidades e impactos socioambientais na cadeia de negócios de forma muito ampla. Esse setor, por ter essa relação com a marca com consumidor final, está extremamente envolvido por isso, por ser grande usuário de terra, água. É um assunto extremamente importante. O setor olha isso de forma integrada em toda a cadeia de suprimentos. Tem um rebatimento direto no valor da empresa.

Um dos pontos importantes em relação a isso foi uma posição do CEO da Unilever, que levou a discussão para o âmbito dos acionistas, especialmente o tempo de maturação dos investimentos, porque grande parte do setor passou a ser objeto de investimentos por investidores transitórios, que entram e saem, ficam pouco tempo na empresa. Isso faz com que perspectivas de ganho sejam de curto prazo, o que nem sempre está alinhado com questões sustentáveis, que são de longo prazo. O Paul Polman, CEO da Unilever, vem discutindo o quanto externalidades como prazo afetam as empresas.

E quais são os setores mais atrasados?

Não gosto de dizer que os setores estão atrasados. Não sei se a complexidade é maior ou se os passivos são maiores e, consequentemente, se os impactos dessa discussão serão maiores. Certamente, em mineração e óleo e gás, a discussão precisa avançar com maior velocidade. Um exemplo disso é o caso da BP (British Petroleum). O impacto do derramamento de óleo no Golfo do México (em 2010) foi grande no valor da empresa e eles estão correndo bastante. É preciso reconhecer que a velocidade de mudanças dessas empresas, por conta de capital alocado, é menor. Elas estão se movimentando, mas a movimentação desses grupos é naturalmente mais difícil por causa da natureza de investimento que têm.

Empresários e executivos já estão conscientes de que a questão da sustentabilidade não tem volta?

Eu acho que a ficha de que não tem mais volta caiu e quem não corrobora isso está fora do mundo. Não é mais uma questão ideológica. Você vê isso como uma demanda dos investidores, BNDES, investidores institucionais... Todo mundo faz duo diligence socioambiental. O tema está mais que na pauta. Difícil alguém não reconhecer que essa questão veio pra ficar. Mas existe complexidade grande para incorporar tudo isso dentro dos modelos de negócios.

O tempo hoje é mais de esforços de adaptação das organizações do que de aceitação desse tema. A corrida é quem vai se adaptar mais rapidamente. Que têm (as empresas) que se adaptar, não há dúvida.

E qual o nível de conscientização dos consumidores brasileiros?

Essa é uma questão muito importante. A educação do consumidor é mais difícil do que a educação de um número muito limitado de empresários. O impacto nas organizações é maior. Absorver todas essas mudanças no âmbito empresarial é mais rápido e fácil do que a incorporação por todos os consumidores.

A viagem da sustentabilidade teve âncora grande na sociedade civil, com Green Peace e WWF, por exemplo, que falava com consumidores mais sensíveis, mais ligados a esse mundo. O tema teve suporte bastante relevante da mídia como um todo e pegou, mas não dá pra dizer que pegou em todos os consumidores. Pegou num grupo de consumidores mais esclarecidos. Hoje, cabe muito mais às empresas fazerem esse processo de educação do que a sociedade civil. A continuidade da relação desse tema com os consumidores está muito mais com as empresas. A questão da rastreabilidade da carne de boi, que usa atores, é um exemplo disso. Gostemos ou não, afeta e educa o consumidor. É um processo de disseminação ampla, quase uma corrida para atingir aquele consumidor que ainda não estava sensibilizado, pra ganhar o coração desse consumidor e conquistar mercado, reputação.

A questão da conscientização do consumidor tem relação com o nível de escolaridade?

Escolaridade é um fator, mas não é um único. Um elemento bastante relevante é o ambiente institucional em que a sociedade se estabelece. Na Suíça, na Holanda, nos países da Escandinávia, por exemplo, o tema está incorporado no dia a dia das instituições. Os governos falam muito sobre isso. Isso impacta a formação dos consumidores.

No Brasil, a questão avançou, mas deixou de ser relevante nos últimos anos. Questão da educação é um elemento relevante, mas o papel dos governos de colocar a agenda em pauta é fundamental. Infelizmente, não estamos vendo isso no Brasil. Nos últimos seis anos, no fim do governo Lula e na gestão Dilma, houve uma regressão. Avançamos na Cop (Conferência das Partes sobre o Clima), na discussão do clima, etc, mas o tema deixou de ser pauta. Veja o que aconteceu com o etanol, que é um combustível que está totalmente alinhado com a questão ambiental. Passamos a priorizar o pré-sal e o combustível fóssil, que é relevante, sem dúvida, mas sem considerar as externalidades negativas do pré-sal e as positivas de toda essa discussão das alternativas energéticas. Houve uma concentração na discussão do código florestal e ponto.

E qual é o papel do Brasil no cenário internacional?

Pouquíssimos países do mundo têm condições tão adequadas para produzir alimentos e energia de maneira tão equilibrada. Temos característica muito interessante de convivência de florestas com energia alternativa, com sol, com água, que poderiam fazer do país o líder mundial nessa discussão. Essa é a expectativa que o mundo tem do país. E o país ficou fora desse jogo nos últimos anos.

O etanol brasileiro não avançou...

Sem dúvida nenhuma. Você vê interesse internacional grande no investimento do etanol brasileiro. O setor mudou, mas o governo o colocou para trás de volta. Por isso, estava dizendo que a questão educacional é importante, mas você precisa ter ambiente para que avance.

E qual a responsabilidade das empresas na hora de venderem seus produtos?

O Pavan Sukhdev (economista indiano) trata desse assunto. Ele esteve no Brasil para o lançamento do livro Corporation 2020, pela editora Planeta Sustentável. Ele traz a questão do marketing responsável como algo central e todo tema da sustentabilidade.

A evolução do tema da sustentabilidade tem que passar pelo tema da responsabilidade da propaganda. Isso é responsabilidade da empresa. Não pode ficar apenas com o departamento de marketing. É um tema que está sendo trazido à tona. Todo esse movimento de rastreabilidade e responsabilidade ampla passa pela questão de educação e passa pelo ativo intangível. Afeta valor e tem que ser visto por conselheiros.

E como o IBGC vem trabalhando para sensibilizar empresas?

O processo de formação e conscientização tem que continuar, pois está longe de estar pronto. Mas estamos vivendo o momento de instrumentalizar a discussão de valor. Quanto vale empresas que consomem menos água? Quanto vale empresas que tem ativo natural grande? O momento é de esforços grandes em mensurar e incorporar estes elementos no balanço das empresas. A ênfase principal no âmbito da governança coorporativa é tangibilizar a discussão. Tem que ter métricas adequadas e há esforço grande de empresas de auditorias para fazer o que se chama de balanços socioambientais e incorporação de números nos balanços e na contabilidade das empresas. O momento hoje é de captura de valor econômico de todo esse processo da sustentabilidade e tradução desse valor nos balanços das empresas. É uma questão do mundo e o Brasil tem papel bem relevante no mundo. Você encontra brasileiros, lideranças importantes em diversas frentes internacionais, tentando fazer com que esse tema seja consolidado.

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