Mercado nacional de venture capital vive nova fase

Gestora de private equity Warehouse projeta investimentos superiores a R$ 10 milhões por empresa e mira operações fora do Brasil

Por O Dia

Após uma primeira onda de investimentos — expressa nos aportes de fundos estrangeiros em start-ups brasileiras nos últimos quatro anos —, o mercado nacional de venture capital vive uma fase de ajustes e amadurecimento. Criada em 2011 e um dos nomes pioneiros do setor no país, a gestora brasileira Warehouse Investimentos está reformulando suas estratégias para acompanhar essa evolução. Nesse contexto, os aportes de maior fôlego e a busca por outras fronteiras são o centro do novo posicionamento.

“Estamos preparados para dar passos maiores e um pouco mais flexíveis para olhar, inclusive, investimentos fora do país”, diz Moisés Herszhenhorn, executivo-chefe da Warehouse Investimentos. “O tamanho e a geografia serão dois polos dessa estratégia”, observa.

Ainda em fase de estruturação, o novo perfil de investimentos terá no radar empresas mais maduras e que — em sua maioria — já geram receitas. A ideia é que os aportes realizados nessas operações sejam superiores a R$ 10 milhões. Até então, a Warehouse liderava investimentos com outros fundos na faixa de R$ 1 milhão a R$ 8 milhões, em empresas ainda em estágio inicial. “Estamos começando a buscar tickets maiores, o que vai ao encontro do próprio histórico empreendedor dos nossos sócios”, diz Herszhenhorn.

O reposicionamento da Warehouse começou a ganhar corpo há cerca de dois anos, com a entrada de novos sócios na gestora. Nesse período, passaram a integrar a operação Marcelo Peano, Marcelo Lacerda e Sylvio de Barros. Mais que um reforço, esses nomes traduzem uma prática que é comum em mercados mais maduros e que começa a dar seus primeiros sinais também no Brasil: a existência de empreendedores com um histórico de projetos bem sucedidos e que começam a apoiar empresas nascentes no mercado. Lacerda, por exemplo, foi o fundador do ZAZ, portal de internet que foi comprado pela Telefônica e deu origem ao Terra. Já Sylvio de Barros criou o Webmotors, vendido posteriormente para o Banco ABN-Amro, e também o iCarros, desenvolvido em parceria com o Banco Itaú. Peano, por sua vez, fundou a Volt Partners e foi membro do comitê executivo da GP Investimentos.

A partir da chegada dos novos sócios, a Warehouse passou a reforçar a abordagem que já adotava anteriormente, baseada numa relação muito ativa e próxima dos empreendedores e do dia a dia das start-ups do seu portfólio. A ideia é fortalecer ainda mais esse modelo. “É justamente com uma empresa mais madura que esse acompanhamento e essa aproximação começam a se justificar. A partir da experiência de cada um dos sócios, é onde sentimos que podemos adicionar mais valor para esse perfil de companhia”, explica Herszhenhorn.
Sob essa ótica, a Warehouse tem quatro segmentos específicos relacionados à tecnologia como prioridade. A escolha dos setores visados mescla o tamanho potencial dos mercados com a experiência dos sócios nessas vertentes. A relação inclui as operações no modelo de marketplace; nos negócios de B2B e no conceito de software como serviços (SaaS, na sigla em inglês); as empresas ligadas à aplicação da tecnologia na educação; e os serviços digitais relacionados à infraestrutura.

Uma iniciativa recente da Warehouse é um exemplo de projetos digitais na área de infraestrutura e da expansão das fronteiras da empresa. No fim de 2013, a gestora liderou com outros fundos de investimento um aporte de mais de R$ 10 milhões para a criação da Magnopus. Com sede em Los Angeles, a start-up de efeitos especiais reúne o brasileiro Rodrigo Teixeira e os americanos Ben Grossman e Alex Henning, os dois últimos, ganhadores do Oscar de Efeitos Especiais. O trio tem participação na empresa, que opera efetivamente há cerca de dois meses e tem como acionista majoritária a Warehouse. “Nossa tese não era investir em uma provedora de serviços de efeitos apenas para Hollywood. Existem centenas de companhias que já fazem isso. E é uma indústria complicada, onde os poucos compradores determinam preços e as margens são baixas”, diz Marcelo Peano.

Segundo o executivo, a ideia é que o escopo de atuação da Magnopus seja muito mais amplo. Além da indústria cinematográfica, a companhia presta serviços, por exemplo, para o mercado publicitário, que oferece margens mais atrativas e onde a demanda está aquecida, especialmente pela queda no custo da tecnologia. Outro mercado potencial no qual a empresa já desenvolve projetos é o de parques temáticos, museus e a indústria de games, com a aplicação de conceitos como realidade virtual. “Queremos transformar a Magnopus em uma empresa de criação de produtos e de aplicações de imersão, como por exemplo, um menu interativo para restaurantes”, afirma Peano.

Outro componente da estratégia da Warehouse será o crescimento das cinco empresas que já compõem o seu portfólio, com o objetivo de atingir um bom valor de venda no momento da saída de cada uma das operações. Dentro do plano traçado inicialmente, em média, isso acontece em um prazo de sete anos. Há cerca de um mês, a venda da participação que a gestora detinha no iFood — marketplace de delivery de comida — antecipou essa projeção. “Em menos de três anos, recebemos uma oferta muito boa da Movile. Sabíamos que o negócio continuaria a crescer, mas no balanço entre o tempo e o retorno, conseguimos um patamar muito bom”, diz Moisés.

Últimas de _legado_Notícia