Por douglas.nunes

O presidente de sua empresa corre maratonas? Se não, deveria. É o que indica um estudo assinado por dois pesquisadores alemães, que cruzaram informações de participantes das 15 maiores maratonas dos Estados Unidos, no período de 2001 a 2011, com informações de 1,5 mil empresas cotadas em bolsa. A conclusão de Peter Limbach e Florian Sonnenburg foi de que as companhias com um CEO capaz de completar o percurso de 42,195 quilômetros valem, na média, quase 5% a mais do que as empresas administradas por executivos menos afeitos a atividades físicas.

A ideia do estudo “CEO fitness and firm value” (“Boa forma física do CEO e valor da companhia”) surgiu a partir de corridas às margens do Rio Reno, que cruza as cidades-natais de Limbach e Sonnenburg. “No início de 2013, Florian veio a mim com a ideia de que condicionamento físico, especialmente por meio da corrida, pode ser importante para CEOs”, conta Limbach, professor do Departamento de Bancos e Finanças do Karlsruhe Institute of Technology (KIT). “Ambos tivemos a experiência de que podíamos lidar com o estresse de nossos empregos muito melhor e trabalhar concentrados mais horas por dia se corrêssemos, ou fizéssemos outros esportes.”

Para determinar se um executivo estava em forma, os pesquisadores se debruçaram sobre os registros de 2,4 milhões de corredores que terminaram alguma maratona (não especificada) entre 2001 e 2011, além de mais 1,5 milhão de nomes de atletas que concluíram provas específicas. Esses dados foram comparados aos das companhias que compõem o índice S&P 1500. No período pesquisado, 6% dos presidentes de empresas que integram o índice concluíram pelo menos uma maratona. Analisada ano a ano, a proporção de CEOs maratonistas vem crescendo — passou de pouco mais de 4%, em 2001, para um patamar superior a 7%, em 2011.

Uma das ferramentas utilizadas por Limbach e Sonnenburg para comparar empresas administradas por maratonistas e por executivos que não disputam esse tipo de prova foi o Q de Tobin. Criado pelo economista norte-americano James Tobin, o indicador — pouco usado no Brasil — é uma forma de mensurar o valor de empresas. O Q de Tobin compara o valor de mercado da companhia com o de reposição dos ativos (os gastos necessários caso o negócio tivesse de ser remontado do zero). O resultado final foi um valor de 4% a 10% maior nas empresas da amostra dirigidas por um CEO maratonista. “É claro que os CEOs que não correm também podem estar em boa forma”, diz Limbach, admitindo que os adeptos de corridas menos longas e de outras modalidades esportivas não foram classificados no estudo como “em forma”. “Isto significa que incluímos alguns CEOs em boa forma no grupo dos que não disputam maratonas e, portanto, a tendência é de que o verdadeira efeito do condicionamento físico tenha sido subestimado. Dito de outro modo, a nossa abordagem é conservadora.”

Professor de Finanças do Ibmec-RJ, Gilberto Braga acredita que a obstinação e a garra necessárias para correr uma maratona podem fazer diferença quando se trata de superar obstáculos corporativos. “Pessoas que concluem uma maratona são mais determinadas”, sustenta ele. Se disputar uma maratona até o fim pode ser interpretado como uma demonstração de garra, o que dizer de alguém que concluiu uma prova de 60km partindo de 5,5 mil metros de altitude no Nepal. O percurso foi completado em 9h55m. “Já corri 100km na Antártica a -30°C, 246km no Deserto do Saara a 53°C e, recentemente, uma ultramaratona no Everest. Isso mostra que não desisto fácil, para não dizer nunca”, afirma Bernardo Fonseca, presidente da X3M Sports Business. “Logicamente, pessoas assim no esporte serão exatamente iguais no dia a dia do trabalho. Então, quanto mais difícil é a meta, mais motivado a fazer ela acontecer eu fico.”

Vice presidente de Operação da AES Eletropaulo, Sidney Simonaggio já está inscrito para a edição deste ano da São Silvestre. O trajeto de 15km pode estar longe de ser um desafio para corredores acostumados à maratona, mas — no caso de Simonaggio — reafirma uma mudança radical de estilo de vida, iniciada em 2000. Foi nesse ano que o executivo, hoje com 57 anos, se submeteu a uma cirurgia bariátrica. Como resultado da operação, ele perdeu 85kg — seu peso caiu de 163kg para 78kg. A saída para manter-se em paz com a balança foi começar a correr. “Sou um fiel seguidor da teoria de que a corrida ajuda no trabalho. Correr te alivia”, argumenta.

Acostumado a participar de duas maratonas por ano, Marcelo Ehalt, diretor de Canais, Managed Services e Cloud da Cisco, enfrentou no ano passado um de seus momentos mais difíceis como corredor. Foi na Two Oceans (Dois Oceanos), prova de 56km disputada na África do Sul, com um trajeto que une o Atlântico ao Índico. Mais do que as subidas do percurso, foram as descidas que causaram muita dor em Ehalt, devido ao impacto sobre as articulações. “A corrida me ajuda a mater o equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional.É quando tenho um tempo para mim mesmo”, conta o diretor, que normalmente treina depois das 20h, depois de jantar com os filhos e colocá-los para dormir. “Durante o trajeto, mentalizo toda a minha agenda para o dia seguinte, o que vou fazer. Quando chego em casa, anoto tudo numa folha de caderno. E não são apenas coisas do trabalho, mas também da vida pessoal.”

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