Por douglas.nunes

Baixos preços internacionais e restrições às importações chinesas de carvão levaram a Vale e a japonesa Sumitomo a decidir pela suspensão da produção da mina de Isaac Plains, em Queensland, na Austrália. Com a medida, as empresas seguem a BHP Billinton e a Mitsubishi, que anunciaram na semana passada cortes de vagas em minas australianas, citando “condições difíceis” do mercado. Este ano, a Vale já havia comunicado a suspensão de atividades no projeto Integra Coal, também na Austrália.

Em comunicado divulgado pela manhã, a Vale informou que estaria “tomando as medidas necessárias para colocar a mina de carvão de Isaac Plains, na Austrália, em care and maintenance (suspensão de atividades com possibilidade de retorno), dado que a operação não é economicamente viável nas atuais condições de mercado”. “A decisão é consistente com a estratégia da Vale de focar na disciplina na alocação de capital e maximizar valor aos seus acionistas”, concluiu a empresa.

Assim como os preços do minério de ferro, o mercado de carvão vem sentindo os efeitos da retração da economia global, em um momento de entrada de projetos iniciados na época de cotações em alta. O carvão siderúrgico atingiu, em setembro, a cotação mais baixa em quatro anos. Já o carvão térmico caiu a valores de cinco anos atrás. Parceira da Vale em Isaac Plains, a Sumitomo informou que a decisão é uma “resposta ao ciclo de baixa no mercado”.

Este mês, a China anunciou medidas que ampliam as restrições ambientais do carvão térmico usado no país — com um máximo de 16% de cinzas e 1% de enxofre — aos deltas dos rios Pearl e Yangtze, o que deve gerar grandes impactos na produção australiana, segundo a consultoria WoodMackenzie. Em relatório divulgado na semana passada, a empresa estima que 80% das exportações australianas de carvão não atendem às novas especificações, uma vez que a produção local não passa pela etapa de processamento.

A redução dos níveis de cinzas e enxofre pode ser feita, diz a consultoria, mediante investimento nas minas. “O impacto médio no custo vai variar entre os projetos, mas estimamos um acréscimo médio de aproximadamente 16 dólares australianos (ou US$ 14) por tonelada”, afirma o texto. “A questão é se os consumidores da China estarão dispostos a pagar mais pelo carvão australiano, com pouca cinza mas mais energia do que o importado da Indonésia.”

Segundo dados da Associação Mundial do Carvão, 78,1% das importações do energético em 2013 foram concentradas em apenas cinco países: China, Estados Unidos, Índia, Rússia e Japão.

Produtor brasileiro não sofre com queda de preço

Com contratos de longo prazo sustentando suas vendas, o produtor brasileiro de carvão não tem sentido os efeitos da queda de preços no mercado internacional, diz o presidente da Associação Brasileira do Carvão Mineral, Fernando Zancan. Concentrada na região Sul do país, a produção nacional é basicamente voltada para a geração de energia elétrica, uma vez que as especificações do carvão brasileiro não são boas para uso em fornos siderúrgicos. O setor hoje comemora crescimento nas vendas, devido ao uso permanente das usinas térmicas para poupar água nos reservatórios das hidrelétricas.

Por outro lado, vê com preocupação o adiamento do leilão de energia para entrega em 2019, que seria realizado este mês, pelo risco de falta de tempo hábil para a construção de usinas. “O preço-teto do leilão é bom, mas o prazo é um risco”, comenta Zancan. O Brasil produz cerca de 11 milhões de toneladas por ano e importa volume equivalente para uso em siderúrgicas.

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