Por monica.lima

Com um leilão marcado para o dia 27 de novembro, a massa falida do estaleiro Caneco, no bairro do Caju, zona portuária do Rio, espera repassar as instalações para um novo operador, oito anos após a falência da empresa. Com 135,2 mil metros quadrados e um dique seco, equipamento crítico para o setor naval, o Caneco é hoje a última grande área disponível às margens da Baía de Guanabara para ser usada tanto pela indústria naval como para a indústria de apoio à produção de petróleo em alto mar. Será a segunda tentativa de venda das instalações — a primeira, no final de julho, não teve concorrentes.

O estaleiro está avaliado em R$ 417,4 milhões, mas poderá ser vendido por valor menor, segundo anúncio publicado pelos leiloeiros em jornais. Desde 2000, a área é ocupada pelas empresas Intercam e Rio Nave, que atuam na construção naval. Atualmente, cerca de 1,2 mil pessoas trabalham no local — nos tempos áureos, o número de empregados chegou a 5 mil. A Rio Nave constrói embarcações de apoio à indústria petrolífera e fabricou cascos de navios para transporte de gás para a Transpetro, subsidiária da Petrobras.

O governo estadual gostaria de manter a atividade de construção naval, pelo potencial de geração de empregos. O prefeito do Rio, Eduardo Paes, chegou a editar decreto de desapropriação da área para a criação de um pólo naval, mas os efeitos foram derrubados por liminar judicial. A ideia era dividir a área entre várias empresas, em um trabalho que seria gerenciado pela Companhia de Desenvolvimento Industrial do Estado do Rio de Janeiro (Codin). Após a liminar, o governo decidiu aguardar o resultado do leilão.

Há dúvidas, porém, sobre a atratividade das instalações, diante do imbróglio jurídico envolvendo o decreto da prefeitura. Além disso, a Rio Nave pleiteia judicialmente o direito de renovar o contrato de arrendamento da área, o que cria novo fator de incerteza para um possível comprador. As instalações precisam ainda de investimentos em modernização de equipamentos. A área tem quatro cais, duas carreiras para o lançamento de navios, guindastes e oficinas.

Por outro lado, o gargalo logístico do setor de petróleo pode motivar a aquisição por empresa voltada para o apoio marítimo — embarque e estocagem de mantimentos e equipamentos direcionados a plataformas de produção em alto mar. A Baía de Guanabara é hoje o principal pólo de apoio a projetos do pré-sal, por meio dos terminais da Libra, no Porto do Rio, e da Nitshore, em Niterói. Há ainda uma terceira base, da Brasco, no Caju, em construção. A Petrobras precisa expandir a capacidade de movimentação de cargas e vem realizando licitações de novas bases de apoio.

Fundado em 1886, o estaleiro Caneco está localizado às margens da Baía de Guanabara, o mais tradicional pólo de construção naval do país. Ao seu lado, está o estaleiro Inhaúma e, no lado oposto da baía, estão localizados o estaleiro Mauá, o primeiro do Brasil, e uma série de instalações de menor porte. O Inhaúma e o complexo Mauá/Brasa têm contratos para construção e conversão de plataformas de petróleo. Já o restante tem se dedicado a embarcações de apoio marítimo, considerado o segmento mais competitivo da indústria naval brasileira.

A área, porém, tem perdido participação para outras regiões do país, após a instalação de novos estaleiros no Nordeste e no Sul, com equipamentos de classe mundial. Segundo dados do Sindicato das Empresas de Construção Naval e Offshore (Sinaval), há hoje 31 estaleiros em operação no Brasil — 15 deles no Rio. O governo do estado vem trabalhando na implantação de um pólo de fabricação de equipamentos para a indústria naval em Duque de Caxias, chamado Pólo de Navipeças, para onde espera atrair R$ 1,5 bilhão em investimentos.

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