Por bruno.dutra

Nos dezoito meses que marcaram o seu processo de reestruturação, a BRF abalou a confiança de investidores com resultados trimestrais abaixo das expectativas e a consequente desvalorização dos seus papéis. Após esse período de turbulências, a companhia enxerga, enfim, um horizonte favorável para começar uma nova etapa de expansão. E a base para essa guinada combina o reforço de iniciativas de simplificação da operação com a abertura de novas frentes de receita, com destaque para o mercado internacional.

“Nós sacrificamos nosso crescimento nesse período. Mas essa abordagem foi proposital e planejada. Estávamos construindo a base para que a empresa pudesse buscar um novo ciclo de crescimento sustentável”, afirma Cláudio Galeazzi, executivo-chefe global da BRF, em evento com analistas.

O otimismo da BRF tem como base seu desempenho no terceiro trimestre. Os números traduziram os primeiros impactos consistentes de uma estratégia desenhada por Abílio Diniz em abril de 2013, quando assumiu a presidência do conselho da BRF. Como homem escolhido para conduzir a companhia nessa jornada, Galeazzi priorizou esforços como a venda de ativos considerados não estratégicos, a redução de custos e de portfólio para a concentração em linhas de maior rentabilidade, e a transição para uma estratégia mais focada nas demandas dos consumidores. “Temos agora uma plataforma sólida para realizar uma das tarefas que assumi quando cheguei: tornar essa companhia realmente global, e não apenas uma companhia exportadora”, disse Diniz.

Em um movimento já planejado, a missão de liderar o novo ciclo estará nas mãos de Pedro Faria, atual executivo-chefe das operações internacionais e que substituirá Galeazzi a partir de janeiro.

Uma das prioridades de Faria será o fortalecimento das operações internacionais, com destaque para o mercado asiático. “A expectativa é de que 40% do consumo mundial de proteína até 2020 venha do mercado chinês”, disse Faria. “A China não pode ser encarada como um tiro curto. É um processo de estabelecimento nos próximos vinte anos. E essa jornada começa com exportação, cobertura de mercado, qualificação do nosso mix e, eventualmente, processamento local”, acrescentou.

Segundo o executivo, um formato já adotado pela BRF em Hong Kong poderá ser replicado na China e em outras operações da companhia no exterior: a busca de parceiros locais para o processamento e a adaptação ao gosto dos consumidores de cada mercado.

Responsável por 36% das operações internacionais, o Oriente Médio também é um dos alvos. No fim de novembro, a BRF inaugura uma fábrica de alimentos processados em Abu Dhabi, que terá capacidade de produção de 70 mil toneladas. Com um aporte de US$ 155 milhões, essa será a maior planta da empresa no segmento e irá atender à região do Golfo e aos países da Liga Árabe. Além do crescimento orgânico, a BRF não descarta aquisições na região e em outros países. “Mas isso não significa fazer aquisições espetaculares. Vamos buscar acordos inteligentes, que gerem sinergias de fato, e não necessariamente volume”, disse Diniz.

Os acordos no Brasil também estão no radar. Segundo Faria, há espaço para possíveis transações em mercados adjacentes e mesmo em categorias “core” da operação. Um dos exemplos citados foi o frango in natura, segmento no qual a companhia detém 6% de participação de mercado no país.

A reestruturação do parque fabril é mais uma prioridade. Em janeiro, a BRF iniciará os esforços para reorganizar suas linhas de produção. “Temos uma capacidade ociosa de cerca de 30%. Não queremos aumentar a capacidade, mas sim, a produtividade”, disse Galeazzi. Segundo Faria, a iniciativa não significará necessariamente a redução das plantas, mas sim, eventuais redistribuições que tornem a produção mais eficiente de acordo com o mercado a ser atendido.

No Brasil, outro elemento que reforça o cenário otimista é a volta, a partir de 2015, de alguns produtos da marca Perdigão, após o fim das limitações impostas pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) na época da fusão com a Sadia, que resultou na criação da BRF. Entre os produtos que marcarão a ampliação do portfólio da Perdigão nas prateleiras estão embutidos como presunto e linguiça. Questionados sobre um possível risco de canibalização na relação com a marca Sadia, os executivos disseram apenas que a Perdigão será uma “marca mais combativa”, com preços mais acessíveis.

Perspectiva para o país é positiva

Presidente do conselho da BRF, Abílio Diniz demonstrou confiança no cenário econômico brasileiro. “Com certeza, 2015 será bem melhor que 2014. Sou um otimista por natureza, mas tenho razões para enxergar excelentes perspectivas. O pior momento, de volatilidade do mercado, já passou. Já sabemos qual é o ‘day after’”. Para o executivo, os fundamentos econômicos estão sólidos e o aumento da renda continuará sustentando o crescimento do consumo. “Ao mesmo tempo, a economia mundial está dando bons sinais de recuperação”, disse. Diniz também destacou aspectos positivos no processo eleitoral. “Aparentemente, o país saiu dividido, mas houve um fortalecimento da oposição e a própria presidente já sinalizou que irá promover a conciliação e governar para todos”, disse.

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