Por bruno.dutra

Rio - O aumento das importações — a maioria de produtos chineses — aliada a processos de má administração de empresas familiares vem encolhendo a indústria têxtil e de confecções no Brasil. Companhias tradicionais como Teka, Buettner, Sulfabril, entre outras, seguem em recuperação judicial ou enfrentam a falência sem retorno, caso da Sulfabril. Outras, sobrevivem a partir de investimentos em tecnologia, preparação de pessoal e inovação ou revertem parte de sua produção para o mercado externo.

Os números de janeiro a setembro desse ano, fornecidos pela Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), mostram a queda vertiginosa do mercado. Enquanto as importações chegaram ao patamar de US$ 5,367 bilhões, as exportações brasileiras registram parcos US$ 881 milhões. No mesmo período de 2013, as importações eram de US$ 5,076 bilhões e, as exportações, US$ 938 milhões.

Síndico da massa falida da Sulfabril, Celso Mário Zipf afirma que a companhia continua fornecendo seus produtos para mais de seis mil clientes em todo o país. No entanto, com o CNPJ bloqueado pela condição falimentar não há como ampliar vendas. Um dos parques fabris, instalado na cidade de Ascurra (SC) já foi arrematado por R$ 4 milhões pela Rovitex, indústria de malhas de Santa Catarina, e será entregue oficialmente no final do ano.

“A empresa está em falência, mas com continuidade do negócio. A Sulfabril vem há 15 anos neste processo. Com a abertura do mercado para importações, muitas empresas de vários setores sentiram o impacto. O fundador, Paulo Fritzche, seguiu com a companhia, mas o filho, Gerd, não demonstrou interesse em continuar. Na época da falência, a dívida era de R$ 240 milhões, a maior parte impostos e financiamentos bancários. Isso poderia ter sido revertido. Hoje, o caminho é a venda da marca, avaliada em R$ 40 milhões. E esperar por um comprador. A grife ainda é muito lembrada no Sul do Brasil e em outros estados”, diz Zipf.

Das quatro fábricas, duas estão desativadas — em Gaspar e Rio do Sul — uma foi vendida e a única ainda em mãos da Sulfabril é a de Blumenau. Zipf diz que, em muitos casos, a alta das importações é a principal causa da morte de uma empresa têxtil. E muitas delas, para sobreviver, acabam transferindo a produção justamente para seus algozes, o mercado asiático, que, com custos mais baixos, devolve o produto acabado a preços mais competitivos, gerando margens maiores para as companhias que ainda permanecem de pé.

Vivian Kreutzfeld, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Têxteis de Blumenau, Gaspar e Indaial (Sintrafite), explica que, além das importações, a má administração das empresas também é um fator que contribui. Segundo ela, a Buettner, em recuperação judicial desde 2013, vem conseguindo manter os pagamentos dos funcionários. Já a Teka, que encerra o período de recuperação judicial no dia 26 de novembro, tem uma dívida de R$ 1,5 bilhão, sendo R$ 1 bilhão somente de impostos. A empresa vem faturando R$ 16 milhões mas não consegue ir além disso, por estar com contratos com fornecedores suspensos.

“Frederico Kuenrich, presidente da Teka, está apenas aguardando o processo terminar. A Justiça não vai decretar a falência. E a Teka vai morrer aos poucos”, diz ela. Procurada, a Teka informou que só dará entrevistas em 2015.

Vivian confirma que hoje as empresas de maior porte sobrevivem importando suas peças. “A Hering tem 70% dos produtos vindo da Ásia. A Dudalina traz peças da China a R$ 20 e vende por não menos de R$ 200.As margens são obtidas dessa forma. Altenburg é uma das poucas que investe. O fundador, Ruy Altenburg, segue buscando caminhos e abrindo fábricas em São Paulo e Nordeste”, diz ela.

Fernando Pimentel, diretor-superintendente da Abit, afirma que o setor no país é hoje “muito grande e díspar” e vem enfrentando a concorrência mundial com modos de fabricação e processos que o mercado brasileiro não adota.

“O Brasil, desde a crise de 2008, vem perdendo a competitividade. Taxas de juros elevadas, carga tributária crescente. Nem mesmo as ações governamentais para estimular o setor, as desonerações, favorecem. A produção industrial só vem caindo. Este é o setor que enfrenta há mais tempo a concorrência de fora. Viramos alvo de empresas que estão em crise em seus mercados”, ressalta ele.

Pimentel faz a conta e adianta que o país tem 3,5 milhões de causas trabalhistas por ano no setor e, com um ambiente econômico desafiador internamente e concorrentes de toda ordem, a margem da indústria encolhe.

“Temos 78 mil empresas no setor, 68 mil no Simples. Precisamos ter um regime tributário competitivo. O varejo brasileiro está se consolidando e marcas internacionais estão chegando. Precisamos ter um ambiente econômico que nos permita atender 85% do mercado doméstico no varejo. Sem isso, vamos chegar a 45% das vendas internas em 2025 e, em um mercado estagnado, mais extinções de empresas vão acontecer”, sentencia ele.

Quanto aos empresários levarem sua produção para a Ásia e outros mercados, Pimentel justifica que o empreendedor reage ao estímulo que lhe é dado. “Se importar é o jeito, ele faz isso para preservar o negócio. Se o incentivo vier de dentro, a empresa vai buscar caminhos no mercado interno”, comenta Pimentel.

Você pode gostar