Crise faz investimentos em siderurgia cair até 46% no Brasil, diz BNDES

Entre 2015 e 2017, serão R$ 15 bi. Recursos serão gastos em manutenção e na conclusão da Companhia Siderúrgica de Pecém

Por O Dia

Rio - Depois de leve alta em 2013, as projeções do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para investimentos no setor siderúrgico do país voltaram a cair este ano, atingindo US$ 6 bilhões no período entre 2015 e 2017. O valor — cerca de R$ 15 bilhões ao câmbio atual — é 46% inferior à estimativa feita no ano passado, referente ao triênio 2013-2016. Elevados índices de ociosidade do parque instalado suspenderam uma série de projetos de ampliações, segundo o Panorama Setorial 2015-2018 Setor Siderúrgico, que será lançado amanhã pelo banco de fomento.

“O mercado mundial de aço tem hoje uma ociosidade altíssima, com um Nuci (nível de utilização da capacidade instalada) entre 72% e 74%. No Brasil, o Nuci é de 70%”, comenta Pedro Sergio Landim, gerente do Departamento de Insumos Básicos do BNDES. Assim, entre os investimentos firmes compilados pelo banco, estão apenas gastos com manutenção do parque existente e as obras da Companhia Siderúrgica de Pecém (CSP), parceria entre a a coreana Posco, a chinesa Donkuk e a Vale, único projeto novo em curso no país. “Não há projetos novos no Brasil. Basicamente, só há projetos novos nos Estados Unidos e na China”, afirma Landim.

O estudo do BNDES aponta uma leve melhora na utilização da capacidade das siderúrgicas brasileiras com relação ao período pós-crise financeira, em 2009, quando o Nuci chegou a 63%. Há também um alívio na balança comercial do setor, com as importações de aço saindo de um pico de US$ 5,4 bilhões em 2010 para US$ 3,7 bilhões em 2013. Mas os técnicos do banco admitem que o cenário permanece desafiador para o setor siderúrgico global. “O mercado de aço é caracterizado, atualmente, por uma situação de sobre oferta e de margens reduzidas, tanto no Brasil quanto no mundo”, diz o texto.

“O Brasil, em função de suas vantagens competitivas, foi um dos países mais beneficiados por novos projetos, nos últimos anos, e detinha também, até a eclosão da crise, uma das maiores carteiras de investimentos anunciados do setor”, acrescenta. Mas a queda da demanda global suspendeu a maior parte dos projetos, com exceção do Projeto da Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA) e da Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP). Com capacidade para produzir 5 milhões de toneladas por ano, a primeira entrou em operação em 2010. A segunda, ainda em obras, deve começar a produzir no final de 2016, com capacidade de 3 milhões de toneladas por ano. Ambos os projetos preveem exportação de chapas para laminação em outros países.

“Cabe destacar que capacidade produtiva brasileira atual é praticamente o dobro do consumo aparente interno, o que não estimula novos investimentos em aumento de capacidade direcionados para o mercado interno. Além de alguns investimentos pontuais em laminadores, esperados para os próximos anos, e por ser um setor intensivo em energia, o cenário futuro deverá também trazer investimentos para o aumento da eficiência energética, associados à redução de resíduos”, diz o Panorama Setorial do BNDES.

A capacidade instalada atual no país é de 48,5 milhões de toneladas por ano. Segundo projeção do Instituto Aço Brasil (IABr), o consumo aparente deve somar 24,7 milhões de toneladas este ano, queda de 6,4% com relação ao ano anterior. Para 2015, o IABr espera uma retomada “modesta”, com alta de 4% nas vendas ao mercado interno. O setor tem reivindicado medidas do governo para conter as importações de aço, que devem subir 9,7% em 2014, para 4 milhões de toneladas. “A China vem usando o mercado internacional para escoar seu excedente de produção”, apontam os técnicos do BNDES.

O Panorama Setorial 2015-2017 Setor Siderúrgico ressalta que os custos de produção de aço no Brasil são competitivos em nível global, mas há ainda “fraquezas” a serem enfrentadas do lado de fora das fábricas, como a “política tributária inibidora da agregação de valor,os gargalos pontuais na infraestrutura logística, a dependência de importação de tecnologias e de bens de capital e os projetos de engenharia desenvolvidos no exterior”.

Crise derruba valor de empresas do setor

O conturbado cenário global tem tido grandes impactos na percepção das siderúrgicas brasileiras por investidores do mercado acionário. Segundo levantamento da Economática, Companhia Siderúgica Nacional (CSN), Usiminas e Gerdau figuram na lista das 15 empresas brasileiras que mais perderam valor de mercado entre o final de 2010 e o dia 24 de novembro último. A CSN ficou na quinta posição da lista, encabeçada pela Petrobras, com uma perda de R$ 29,8 bilhões no período. Usiminas e Gerdau ficaram em sétimo e oitavo, com perda de R$ 13,6 bilhões e R$ 13,5 bilhões, respectivamente.

O estudo do BNDES, porém, aponta vantagens que podem contribuir para que a siderurgia nacional possa sair da crise, como o desenvolvimento tecnológico e a necessidade de aços especiais para o pré-sal. “O Brasil poderá exercer importante papel no desenvolvimento e uso de tecnologias de redução direta, com o sucesso da Tecnored (tecnologia que permite a fabricação de gusa com uma variedade maior de insumos)”, diz o texto. “O mesmo poderá ocorrer em relação às tecnologias de produção de biocoque e carvão vegetal, a partir de projetos inovadores em desenvolvimento no mercado brasileiro”, completa.

Mas o alívio só virá mesmo com a retomada da atividade econômica, impulsionando o mercado interno. “A lógica do setor siderúrgico é o mercado interno. Tanto que os 10 maiores produtores de aço são também os 10 maiores consumidores”, conclui Landim.

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