Fundos de participação apostam em 2015

Após ajuste de expectativas de empreendedores e investidores ao longo de 2014, fundos de venture capital e private equity projetam cenário positivo para este ano no Brasil

Por O Dia

Diante de um cenário macroeconômico de perspectivas e fundamentos pouco animadores, boa parte dos setores projeta um 2015 repleto de desafios no mercado brasileiro. Um segmento específico, no entanto, enxerga um horizonte positivo para os próximos 12 meses: a indústria local de venture capital e de private equity. Segundo quatro fundos ouvidos pelo Brasil Econômico, o segmento continuará a receber aportes destinados a novos projetos — os possíveis sobressaltos ajudarão a consolidar uma relação mais madura entre investidores e empreendedores.

O principal reflexo já começa a ser sentido no processo de avaliação da empresa alvo de um possível investimento, mais conhecido no setor pelo termo “valuation”. “Até pouco tempo, muitos empreendedores e até mesmo investidores estavam com uma expectativa demasiadamente alta, descolada da realidade local. Com esse cenário de agora, quem investe está mais receoso e quem busca recursos está mais realista”, diz Moisés Herszhenhorn, executivo-chefe da brasileira Warehouse Investimentos. “Essa visão trará menos barganha dos dois lados e vai dar mais liquidez para o mercado. Teremos um cenário mais favorável, especialmente nos investimentos em empresas mais maduras, que já sentiram os efeitos dessas questões econômicas”, observa.

Com seis investimentos realizados em seu primeiro fundo destinado a empresas em estágio inicial, a Warehouse está finalizando a composição de um segundo fundo para 2015, cujo valor captado não foi divulgado. Batizada de Pier 18, a nova estrutura terá justamente como foco empresas de tecnologia mais maduras e que já geram receitas nos segmentos de marketplace, B2B e software como serviço, educação e serviços digitais ligados à infraestrutura. Os aportes ficarão na faixa de R$ 10 milhões a R$ 40 milhões e o escopo abre oportunidade para possíveis investimentos em projetos no exterior. “O fundo como um todo deverá ter entre quatro ou cinco empresas no portfólio. Para 2015, a ideia é fechar dois acordos”, diz Herszhenhorn.

“O momento é positivo para quem está capitalizado. O empreendedor sente mais dificuldade em crescer e o valuation fica um pouco mais razoável. Houve um rali de preço de 2011 a 2013 e agora o que está acontecendo é um filtro extremamente saudável no mercado”, afirma Mauricio Lima, diretor-executivo do fundo brasileiro Invest Tech. “Estamos entrando numa fase em que é possível negociar condições mais equilibradas. Ao mesmo tempo, o empreendedor começa a entender que o valor que um fundo agrega não está restrito ao dinheiro”, observa.

A Invest Tech também está estruturando um novo fundo, após uma primeira iniciativa de R$ 31,4 milhões, que contemplou seis empresas no período de 2008 a 2011. Nesse primeiro movimento, o alvo eram projetos com faturamento anual de até R$ 20 milhões.

Com prazo de oito anos e mais dois anos para uma possível extensão, o novo fundo da Invest Tech captou R$ 209 milhões — ante uma expectativa inicial de R$ 180 milhões — junto a investidores como o Grupo Telefônica. No radar, estarão empresas de tecnologia da informação e telecomunicações com faturamento anual entre R$ 10 milhões e R$ 200 milhões, e projetos em áreas como smart grid (rede elétrica inteligente), saúde e segurança. Os aportes irão variar de R$ 10 milhões a R$ 45 milhões. “Já temos dois negócios bastante adiantados e esperamos concretizá-los no início de 2015. Nossa meta é cumprir R$ 100 milhões do que foi captado no ano que vem”, diz Lima. “Uma parcela dos investimentos será reservada a empresas com receita na casa de R$ 150 milhões, que têm crescimento mais lento, mas, em contrapartida, menos risco”.

A Invest Tech também está em fase de montagem de um novo fundo voltado a empresas em estágio inicial, com faturamento de até R$ 4 milhões. A expectativa é captar R$ 50 milhões para essa iniciativa no decorrer de 2015. Parte desses recursos já foi obtida junto a investidores locais e internacionais. Lima acrescenta que o cenário econômico pode influenciar na estratégia de venda das empresas que integram o portfólio do primeiro fundo da gestora. “Dadas as condições atuais, talvez nossa decisão seja segurar esses desinvestimentos, à espera de uma melhora da economia e de propostas mais atraentes”, diz.

Assim como seus pares nacionais, os fundos estrangeiros com operação local também compartilham de uma visão otimista para o setor. “Tivemos um 2014 muito bom. Foi o ano em que fizemos mais transações no Brasil, com seis novos investimentos e novas rodadas em empresas que já estavam no nosso portfólio”, diz Anderson Thees, sócio-fundador da Redpoint e.Ventures. No Brasil desde 2012, a companhia é uma joint-venture entre duas gestoras de fundos do Vale do Silício e tem em seu portfólio empresas como ViajaNet e MinutoSeguros.

Com dois acordos fechados para 2015, Thees prevê que a Redpoint e.Ventures manterá no ano a média de seis investimentos. “Os fundamentos econômicos são parecidos com os de 2014, com a diferença que não teremos dois megaeventos, como a Copa e as eleições, que são bloqueadores de decisão”, afirma.

Para a composição de seu portfólio, a Redpoint e.Ventures tem um fundo de US$ 130 milhões, reservado à aquisição de participações minoritárias em empresas em estágio inicial, com aportes entre US$ 2 milhões e US$ 4 milhões. Com o radar voltado para projetos relacionados à internet, à computação em nuvem e ao segmento B2C, Thees destaca outros fatores que ajudam a compor um cenário otimista para o Brasil. “O país ainda tem cerca de 100 milhões de pessoas para serem incluídas na internet. Durante os próximos anos, vamos ter uma curva de crescimento muito forte em segmentos como o e-commerce. E mesmo quando todo esse universo estiver online, ainda levará cerca de três anos para que essas pessoas sejam compradores ativos. Há muito espaço ainda para evoluir”, diz.

Dona de um portfólio na América Latina composto por empresas como BebêStore e Restorando, o fundo europeu Atomico também ressalta que os números da penetração da internet colocam o Brasil como um dos mercados prioritários para a companhia, cujo terceiro fundo tem um montante disponível de US$ 500 milhões. “Não temos uma alocação específica para nenhuma geografia, mas o Brasil é um dos maiores mercados, com um crescimento exponencial de serviços de internet e, ao mesmo tempo, mais aberto e politicamente mais estável que mercados similares, como a China”, diz Haroldo Korte, diretor do Atomico.

Korte observa ainda que o mercado brasileiro é a principal plataforma para que o fundo amplie a escala das empresas que integram o seu portfólio na América Latina. Com participações que em média variam de 15% a 20%, o Atomico tem no radar projetos de tecnologia ligados a segmentos como educação, saúde, agricultura e finanças.

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